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Questão de Português — Outras Questões de Semântica — FUNDATEC 2023

PortuguêsOutras Questões de Semântica
Código
qa502715
Banca
FUNDATEC
Órgão
GHC
Ano
2023
Cargo
Adv ( )

A questão refere-se ao texto abaixo.

 

A vida seria tão mais sossegada se não houvesse o inferno chamado “os outros”

 

Por Martha Medeiros

 

Muitos idolatram a infância; eu, nem tanto. Apesar de ter me divertido bastante, ficava aflita com a impossibilidade ...... fazer minhas próprias escolhas (sou do tempo em que criança não piava). Tudo bem. Esperei pacientemente a adolescência para decidir meus primeiros passos e, uma vez instalada na idade adulta, abracei a autonomia plena. Mentira. Concessões são inevitáveis, mas passei a viver de um jeito mais próximo do meu ideal. Desde então, vivo em paz.

 

Mentira de novo. Não basta a liberdade de fazer escolhas para viver em paz, a não ser que se more numa caverna, com vista para um vale desabitado. Integrados à sociedade, além de fazermos escolhas, somos afetados pelas escolhas dos outros – ahá.

 

Você educa seus filhos de um jeito, e outra mãe faz o oposto, com resultados aparentemente mais satisfatórios. Enquanto você emenda a faculdade com uma pós-graduação, sua amiga viaja pelo mundo, e não parece muito preocupada com o futuro. E tem aquela mulhermaravilha que, aos 60 anos, bate recorde de revezamento de namorados, enquanto você celebra uma boda atrás da outra com seu príncipe original de fábrica, já meio enferrujado. A vida seria tão mais sossegada se não houvesse o inferno chamado “os outros”. As escolhas deles adoram provocar as nossas.

 

Mas não foi Sartre que me inspirou essa crônica, e sim Julia Rezende e família cinematográfica. Acaba de entrar em cartaz A Porta ao Lado, filme que mostra um casal jovem, bem adaptado à relação monogâmica, até que surge um par de vizinhos com costumes menos ortodoxos. Cada um na sua, recomenda o bom senso. Mas e se a grama do vizinho for, de fato, mais verde? (no filme, casualidade ou não, os novos habitantes do prédio vivem cercados de plantas). É o chamado da natureza. Um perfume insuspeito entra pela nossa janela, a gente imagina a florada e pensa: e se fosse meu esse jardim?

 

Julia Rezende está cada vez mais segura na direção. Entrega uma obra adulta, econômica, sofisticada, sutil. A luz é um dos pontos altos, assim como a trilha sonora e a edição precisa de Maria Rezende (ah, os Rezende). As talentosas Leticia Colin e Barbara Paz cumprem o esperado – e sempre se espera muito de mulheres sem medo.

 

No filme como na vida: a liberdade dos outros nos perturba. O casamento aberto dos outros nos perturba. A posição política, as ideias, os rompantes, tudo que difere da nossa conduta nos desacomoda – um pouco ou muito. Os outros são mesmo um inferno, com essa mania irritante de nos lembrar que a vida tem possibilidades inesgotáveis. Mas, sem eles, que tédio. Seria como viver numa caverna, de frente para um vale desabitado, sem jamais receber um cutucão que fizesse a gente se questionar.

 

(Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/donna/colunistas/martha-medeiros/noticia/2023/03/a-vidaseria- tao-mais-sossegada-se-nao-houvesse-o-inferno-chamado-os-outros-clf0b09nc003z017y2f2frg4y.html – texto adaptado especialmente para esta prova).

Assinale a alternativa que completa corretamente a lacuna pontilhada no primeiro parágrafo, considerando a regência nominal.

  1. Aa
  2. Bcom
  3. Cpor
  4. Dde
  5. Eante
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GabaritoD — de

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Regência nominal: a preposição exigida por “aflita”

Gabarito: letra D. A lacuna do primeiro parágrafo deve ser preenchida pela preposição “de”, pois o adjetivo “aflita” rege a preposição “de” — quem está aflito, está aflito de algo. No texto, lê-se: “ficava aflita com a impossibilidade ...... fazer minhas próprias escolhas”. A forma correta é “aflita de fazer”, e não “aflita a”, “aflita com”, “aflita por” ou “aflita ante”.

O comando pede que você complete a lacuna considerando a regência nominal. Isso significa que a preposição não é escolhida pelo sentido que você “acha” bonito, mas pela exigência do nome (substantivo, adjetivo ou advérbio) que a antecede. Aqui, o nome é o adjetivo “aflita”. A regência nominal é uma relação de subordinação: o nome pede uma preposição específica para se ligar ao seu complemento. Não é uma questão de interpretação de texto, mas de gramática normativa — a resposta está na regra, não no contexto.

No trecho, a autora diz que, na infância, ficava aflita com a impossibilidade de fazer suas próprias escolhas. A construção “aflita com” é possível em outros contextos (ex.: “aflita com a notícia”), mas aqui o complemento é “a impossibilidade”, e o adjetivo “aflita” exige a preposição “de” para introduzir a ideia de causa ou motivo: “aflita de fazer”. Essa é a regência consagrada: aflito a (no sentido de desejoso), aflito com (no sentido de preocupado), mas aflito de (no sentido de angustiado por algo).

A regência nominal é um tópico que exige memorização das preposições exigidas por cada nome. Não há uma lógica universal que permita deduzir a preposição; é preciso conhecer o uso consagrado. Por isso, a dica é: ao estudar, anote os nomes que pedem preposições específicas, como “aflito de”, “ávido de”, “suscetível a”, “impossibilidade de”, “capacidade de”, “medo de”. A banca adora testar se você sabe a regência de adjetivos e substantivos comuns.

A pegadinha desta questão é que “aflita com” é uma construção que existe na língua, mas não é a que o texto exige. O complemento é “a impossibilidade”, e a regência de “aflita” com “de” é a única que se encaixa. As demais alternativas (a, com, por, ante) ou não são regência de “aflita” ou não se aplicam ao contexto. Vamos analisar cada uma.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A preposição “a” não é a regência de “aflita” neste contexto. Embora exista a construção “aflito a” (no sentido de desejoso, como em “aflito a novidades”), o texto fala de uma impossibilidade, e a regência correta é “de”. Além disso, “a” não introduziria corretamente o complemento “fazer minhas próprias escolhas”. A banca oferece “a” para confundir com a regência de outros nomes, como “suscetível a”.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A preposição “com” é tentadora, pois “aflita com” é uma construção comum (ex.: “aflita com a demora”). No entanto, o complemento é “a impossibilidade”, e a regência de “aflita” com “de” é a que se aplica. A banca explora a confusão entre o uso coloquial e a regência normativa. No texto, a autora não está aflita “com” a impossibilidade, mas aflita “de” não poder fazer escolhas.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A preposição “por” não é a regência de “aflita”. Embora “por” possa indicar causa (ex.: “aflita por causa do trânsito”), não é a preposição exigida pelo adjetivo “aflita” para introduzir o complemento “fazer minhas próprias escolhas”. A regência correta é “de”. A banca oferece “por” para testar se você conhece a regência específica.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A preposição “de” é a regência correta do adjetivo “aflita”. No texto, a frase é: “ficava aflita com a impossibilidade de fazer minhas próprias escolhas”. A construção “aflita de” é a consagrada pela norma culta, indicando o motivo da aflição. A banca pede exatamente isso: completar a lacuna com a preposição exigida pela regência nominal.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A preposição “ante” não é a regência de “aflita”. “Ante” significa “diante de” e não se aplica ao contexto. Não há construção “aflita ante” na norma culta. A banca oferece “ante” para testar se você conhece o significado das preposições e não confunde com “aflita diante de”. A regência correta é “de”.

Conclusão: A única alternativa que completa corretamente a lacuna, considerando a regência nominal, é a letra D — “de”. As demais ou não são regência de “aflita” ou não se aplicam ao contexto. Lembre-se: regência nominal é uma relação de subordinação entre um nome e seu complemento, e a preposição é exigida pelo nome. Memorize as regências mais comuns e você não errará mais.

PEGA ESSA DICA!

Ao resolver questões de regência, identifique o nome que antecede a lacuna e pergunte: “qual preposição esse nome exige?”. Se não souber, teste cada alternativa na frase e veja se soa natural e gramaticalmente correto. A prática com listas de regência é essencial.

Gabarito: letra D

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