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Questão de Português — Conjunção — FUNDATEC 2023

PortuguêsConjunção
Código
qa502720
Banca
FUNDATEC
Órgão
GHC
Ano
2023
Cargo
Aux ( )

A questão refere-se ao texto abaixo.

 

Preferiria congelar nos 50, mas deter o tempo como?

 

Por Martha Medeiros

 

Tem pessoas que adoram obras, estão sempre derrubando uma parede, trocando um piso, consertando um telhado, às vezes tudo isso ao mesmo tempo. Eu? Nem que tivesse energia e dinheiro sobrando. Minha especialidade na vida é evitar incomodação. Sou craque em manter as coisas como as encontro – a não ser que representem algum risco. Só de imaginar as negociações de prazo, o entra-e-sai de funcionários e o barulho, desisto e me apego à tese de que o tempo deixa tudo mais bonito.

 

Parece desculpa para a preguiça, mas há um fundamento. As coisas gastas desenvolvem um valor, digamos, atmosférico. Ganham ranhuras, trocam de cor e se revestem, por fim, com a aura sofisticada da permanência. Resistiram a modismos e ansiedades, viraram testemunhas do que foi vivido ao seu redor. Acho isso de uma elegância rara, pena que só valorizada lá longe, na Europa.

 

Este texto deveria ser publicado em algum folheto de antiquário, eu sei, ou de um museu. Sou bem retrô em relação a certos assuntos. Gosto de novidades, desde que a ebulição aconteça dentro da minha cabeça, sem necessidade de um caminhão de mudanças. Tive poucos endereços na vida. Preservo amizades feitas no colégio. Conto mês a mês os aniversários de relacionamento, e quanto mais ele resiste íntegro e satisfatório, mais me orgulho. Quase gosto de estar envelhecendo.

 

Quase. Preferiria congelar nos 50, mas deter o tempo como? Cada um é livre para fazer o que deseja, eu faço nada. No que diz respeito à vaidade pessoal, sigo a mesma cartilha das paredes, pisos e telhados: deixo tudo como está. Invisto em maquiagem leve, tonalizante nos cabelos e exercícios físicos – de agulhas, passo longe. Até aqui, dispensei procedimentos rejuvenescedores, como botox, preenchimentos ou lifting (o “valor atmosférico” do meu rosto confirma). Nunca fui estonteante, o que ajuda a envelhecer sem pânico. Não há tanto a perder, afinal, e o que se ganha fica visível de outra forma.

 

Mulheres lindas de nascença talvez sofram mais para aceitar com tranquilidade o desgaste da própria aparência. E as apaixonadas por obras, essas nem querem saber: têm conta nas clínicas de estética e trocam de pele como quem troca de tapete. Não posso garantir que um dia não venha também a ceder meu corpo a reformas (mesmo o corpo sendo uma casa provisória: não o deixaremos de herança para ninguém). Mas ainda prefiro defender a tese de que o tempo costuma, sim, deixar tudo mais bonito. É quando a dignidade prevalece.

 

Alterações físicas nos abalam, mas devemos reagir a elas com calma, sem exagerar na camuflagem. Nada adianta fazermos das nossas casas – corpo e residência – lugares belos para se fotografar, mas que dão a impressão de não haver nenhum morador dentro.

 

(Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/donna/colunistas/martha-medeiros – texto adaptado especialmente para esta prova).

Assinale a alternativa que indica a correta relação de sentido expressa pela locução conjuntiva “desde que”.
  1. ACausa.
  2. BCondição.
  3. CConsequência.
  4. DConcessão.
  5. EConformidade.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — Condição.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A locução “desde que” e seu valor condicional

Gabarito: letra B. A locução conjuntiva “desde que” expressa condição — é a única relação que o contexto autoriza. No texto, a autora afirma que gosta de novidades “desde que a ebulição aconteça dentro da minha cabeça”, ou seja, a ebulição interna é a condição para que ela goste das novidades. A banca cobra exatamente a classificação semântica do conectivo, e a pista está no próprio trecho.

O comando

A questão pede que você identifique a relação de sentido expressa pela locução “desde que”. Isso é uma questão de semântica dos conectivos: você não precisa interpretar o texto além do trecho em que a locução aparece, mas deve reconhecer o valor lógico que ela estabelece entre as orações. Atenção: “desde que” é polissêmica — pode ser temporal (“Desde que casei, não joguei mais pôquer”) ou condicional (“Você poderá sair, desde que arrume o quarto”). Aqui, o contexto decide.

O texto e a passagem decisiva

No segundo parágrafo, a autora escreve:

“Gosto de novidades, desde que a ebulição aconteça dentro da minha cabeça, sem necessidade de um caminhão de mudanças.”

A oração introduzida por “desde que” apresenta uma exigência para que a ideia da oração principal (“gosto de novidades”) se realize. Não há ideia de tempo (não se diz “desde o momento em que”), nem de causa, consequência, concessão ou conformidade. A relação é puramente condicional: a ebulição interna é a condição para gostar das novidades.

A técnica que decide

Para classificar um conectivo, pergunte: que relação lógica ele estabelece entre a oração que introduz e a oração principal? No caso, a oração “desde que a ebulição aconteça dentro da minha cabeça” é uma hipótese necessária para a realização do fato expresso na principal. Isso é a definição clássica de condição: a oração subordinada condicional enuncia uma circunstância sem a qual o fato da principal não ocorre. Compare com os outros valores:

Valor

Teste

Exemplo

Causa

“porque”

“Gosto de novidades porque a ebulição acontece...”

Condição

“se”

“Gosto de novidades se a ebulição acontecer...”

Consequência

“de modo que”

“A ebulição acontece de modo que gosto de novidades”

Concessão

“embora”

“Embora a ebulição aconteça, gosto de novidades”

Conformidade

“conforme”

“Conforme a ebulição acontece, gosto de novidades”

Apenas a condição mantém o sentido original: a ebulição é um requisito, não uma causa, efeito, oposição ou modo.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Causa. A relação de causa ocorreria se a ebulição interna fosse o motivo de a autora gostar de novidades. No texto, a ebulição é uma exigência, não uma causa. Se trocássemos por “porque”, o sentido mudaria: “Gosto de novidades porque a ebulição acontece dentro da minha cabeça” — isso indicaria que a ebulição é a razão, mas o texto diz que ela é a condição para gostar. A banca explora a confusão entre causa e condição, que são próximas, mas distintas: a causa é o que provoca; a condição é o que permite.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Condição. A locução “desde que” introduz uma hipótese necessária para a realização do fato da oração principal. No trecho, a autora só gosta de novidades se a ebulição acontecer dentro da cabeça dela. A substituição por “se” mantém o sentido: “Gosto de novidades se a ebulição acontecer dentro da minha cabeça”. Essa é a prova definitiva: a locução é condicional.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Consequência. A relação de consequência ocorreria se a ebulição interna fosse o efeito de gostar de novidades. No texto, a ordem é inversa: a ebulição é a condição para gostar, não o resultado. Se fosse consequência, teríamos algo como “A ebulição acontece de tal modo que gosto de novidades” — o que não é o caso. A banca tenta confundir com a ideia de que a ebulição “resulta” em gostar, mas o texto não autoriza essa leitura.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Concessão. A relação de concessão ocorreria se houvesse uma oposição entre a ebulição e o gostar de novidades, como em “Embora a ebulição aconteça, gosto de novidades”. No texto, não há oposição: a ebulição é uma condição favorável, não um obstáculo. A concessão exige uma quebra de expectativa, que não existe aqui. A banca explora a confusão entre condição e concessão, que são ambas subordinativas adverbiais, mas com sentidos opostos.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Conformidade. A relação de conformidade ocorreria se a ebulição fosse um modo ou maneira de gostar de novidades, como em “Conforme a ebulição acontece, gosto de novidades”. No texto, a ebulição não é um modo, mas uma exigência. A conformidade indica que um fato está de acordo com outro, o que não é o caso. A banca tenta confundir com a ideia de que a ebulição é “conforme” o gosto, mas o texto não autoriza.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a polissemia de “desde que”, que pode ser temporal ou condicional, e o candidato pode confundir com outros valores semânticos. A chave é testar a substituição por “se”: se mantiver o sentido, é condição.

PEGA ESSA DICA!

Para classificar um conectivo, substitua por outro de valor conhecido e veja se o sentido se mantém. “Desde que” = “se” (condição) é o teste infalível.

Gabarito: letra B.

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