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Questão de Português — Concordância (Verbal e Nominal) — FUNDATEC 2023

PortuguêsConcordância (Verbal e Nominal)
Código
qa503515
Banca
FUNDATEC
Órgão
Pref BVB
Ano
2023
Cargo
Ag Adm ( )

Matrona

 

Por Cláudio Moreno

 

Uma advogada de São Paulo fez uma interessante observação sobre os sutis mecanismos de nosso idioma: “Professor, na minha profissão, é comum nos referirmos aos advogados de uma ação como patronos da causa — os homens são patronos, as mulheres, é claro, são patronas. Não vejo problema algum nisso, até porque eu acharia esquisito se me chamassem de patronnesse, que é Francês e nada tem a ver com nosso trabalho, já que só se emprega para aquelas senhoras endinheiradas que promovem chás beneficentes. Agora, desculpe a pergunta (pode ser cacoete de advogada, acostumada com leis): se na nossa língua há um monte de “casais” de palavras que deixam bem claro o dualismo entre pai e mãe, como padrinho e madrinha, compadre e comadre, padrasto e madrasta, como é que patrono escapou desta regra, de formar o feminino com um simples – A, como advogada ou promotora? Seria porque, para muitos, matrona tem valor pejorativo?”.

 

Sim, cara advogada, essa deve ter sido uma das razões para a flexão de patrono não seguir o mesmo modelo. Matrona, entre os romanos, no Mundo Antigo, designava uma mulher casada, mãe de família, honesta e ilustre por nascimento, figura digna e respeitável que respondia pela manutenção da casa e da educação moral das crianças. Bluteau, em seu dicionário de 1728, acrescenta: “Em Portugal, também se diz das viúvas”. Com o tempo, no entanto, na medida em que nossa sociedade foi-se escravizando à ditadura fitness, a palavra passou a ser usada com sentido crítico, praticamente ofensivo, para descrever uma mulher corpulenta, ao mesmo tempo em que “amatronar-se” passou a designar o pecado de não seguir os padrões ditos “normais” de pesos e medidas...

 

Além disso, não se pode esperar que uma língua viva siga padrões simétricos, traçados a régua e compasso. A língua, como a água, tem muitos caminhos para escolher, e muitas vezes problemas semelhantes podem receber soluções diferentes. Por isso nem sempre serão válidos raciocínios do tipo “se isso é assim, aquilo também o será”, ou, para ser mais concreto, “se o feminino de padrasto é madrasta, o de patrono deveria ser matrona”. Vários fatores, muitos deles impalpáveis, podem influir na decisão dos milhões de pessoas que vêm usando o Português ao longo dos séculos — que escolheram para patrão o feminino patroa, mantendo aqui o mesmo radical pater (“pai”, em Latim), assim como fizeram com padroeiro e padroeira.

 

Não te espantes também, cara leitora, se alguém do teu ramo propuser o emprego da forma patrono para todo o mundo, independentemente do sexo do profissional. Por que digo isso? Porque regularmente, quando chega a primavera, ocorre aqui em Porto Alegre a tradicional Feira do Livro, uma iniciativa cultural replicada hoje por muitas outras cidades de nosso Estado, e não são raras as consultas que recebo sobre o emprego correto da palavra patrono. Posso afirmar, com certo orgulho, que por aqui a questão está pacificada: quando é homem é patrono, quando é mulher é patrona. Mas sempre aqui e ali aparece alguém que maliciosamente me lembra de que patrono está registrado nos dicionários como substantivo masculino. “E aí, professor? Como o senhor explica essa?”. Muito simples: nossos dicionários precisam corrigir a forma de fornecer informações ao consulente.

 

(Disponível em: gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/claudio-moreno/noticia/2023/04/matrona-clgxrhjob002l016xfq0s0uvx.html – texto adaptado especialmente para esta prova).

Assinale a alternativa que indica o número de outras alterações que seriam necessárias a fim de manter as corretas relações de concordância no período caso fosse substituída, no trecho a seguir, a expressão “dos milhões de pessoas” por “da pessoa”:   “Vários fatores, muitos deles impa...páveis, podem influir na decisão dos milhões de pessoas que vêm usando o Português ao longo dos séculos — que escolheram para patrão o feminino patroa, mantendo aqui o mesmo radical pater ("pai", em Latim), assim como fizeram com padroeiro e padroeira”.
  1. A1.
  2. B2.
  3. C3.
  4. D4.
  5. E5.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — 3.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Resolução

Gabarito: letra C — a conta chega a 3 alterações — alternativa C.

A ideia por trás

Concordância é a harmonia que a língua exige entre palavras: o verbo se ajusta ao sujeito (concordância verbal) e o adjetivo, pronome ou artigo se ajusta ao substantivo (concordância nominal). Quando o núcleo do sujeito muda de plural para singular, todos os verbos que se referem a ele precisam mudar também, senão a frase fica com 'erro de concordância'.

A regra central é: o verbo concorda com o núcleo do sujeito em número e pessoa. Se o sujeito é 'as pessoas' (plural), o verbo fica no plural; se vira 'a pessoa' (singular), o verbo vai para o singular. O mesmo vale para pronomes relativos como 'que', que retomam um termo anterior: o verbo da oração relativa concorda com o antecedente desse pronome. Por isso, ao trocar o antecedente, todos os verbos ligados a ele mudam.

Esta questão testa exatamente essa cascata: ao trocar 'dos milhões de pessoas' por 'da pessoa', o pronome 'que' passa a retomar um núcleo singular, e todos os verbos que dependem dele precisam ser ajustados. O desafio é contar quantos verbos são afetados, sem se esquecer dos que estão em orações subordinadas.

O que a questão dá

  • expressão original: 'dos milhões de pessoas'

  • expressão substituta: 'da pessoa'

  • trecho: 'Vários fatores, muitos deles impalpáveis, podem influir na decisão dos milhões de pessoas que vêm usando o Português ao longo dos séculos — que escolheram para patrão o feminino patroa, mantendo aqui o mesmo radical pater ("pai", em Latim), assim como fizeram com padroeiro e padroeira'

O que queremos: o número de outras alterações necessárias para manter a concordância após a substituição

Passo 1 — Ajustar o verbo 'vêm' para o singular

O verbo 'vêm' concorda com o pronome relativo 'que', que retoma o termo anterior. No trecho, 'que' se refere a 'pessoas' (plural), mas com a troca para 'pessoa' (singular), o verbo deve ir para a terceira pessoa do singular: 'vem'. Esse é o primeiro verbo afetado pela mudança.

vem\boxed{\text{vem}}
NÃO CAIA NESSA!

Confundir 'vem' (singular) com 'vêm' (plural) — a diferença é o acento circunflexo.

Passo 2 — Ajustar o verbo 'escolheram' para o singular

O verbo 'escolheram' também tem como sujeito o 'que' que retoma 'pessoa'. No singular, fica 'escolheu'. É o segundo verbo que precisa mudar.

escolheu\boxed{\text{escolheu}}
NÃO CAIA NESSA!

Achar que 'escolheram' se refere a 'fatores' — mas o 'que' logo antes dele retoma 'pessoa'.

Passo 3 — Ajustar o verbo 'fizeram' para o singular

O verbo 'fizeram' está na oração 'assim como fizeram', e o sujeito implícito é o mesmo 'que' (pessoa). No singular, fica 'fez'. É o terceiro verbo que precisa mudar.

fez\boxed{\text{fez}}
NÃO CAIA NESSA!

Esquecer que 'fizeram' também se refere à pessoa — é o verbo mais distante e fácil de ignorar.

Passo 4 — Contar as alterações necessárias

Já ajustamos três verbos: 'vem', 'escolheu' e 'fez'. O verbo 'podem' não muda, pois seu sujeito é 'Vários fatores' (plural), e o pronome 'que' é invariável. Portanto, são três alterações.

3 alterac\co~es\boxed{3\ \text{altera}çõ\text{es}}
NÃO CAIA NESSA!

Contar apenas o verbo mais próximo ('vêm') e esquecer os outros dois.

Resposta: 3 alterações — alternativa C

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