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Questão de Português — Conjunção — FUNDATEC 2023

PortuguêsConjunção
Código
qa503516
Banca
FUNDATEC
Órgão
Pref BVB
Ano
2023
Cargo
Ag Adm ( )

Matrona

 

Por Cláudio Moreno

 

Uma advogada de São Paulo fez uma interessante observação sobre os sutis mecanismos de nosso idioma: “Professor, na minha profissão, é comum nos referirmos aos advogados de uma ação como patronos da causa — os homens são patronos, as mulheres, é claro, são patronas. Não vejo problema algum nisso, até porque eu acharia esquisito se me chamassem de patronnesse, que é Francês e nada tem a ver com nosso trabalho, já que só se emprega para aquelas senhoras endinheiradas que promovem chás beneficentes. Agora, desculpe a pergunta (pode ser cacoete de advogada, acostumada com leis): se na nossa língua há um monte de “casais” de palavras que deixam bem claro o dualismo entre pai e mãe, como padrinho e madrinha, compadre e comadre, padrasto e madrasta, como é que patrono escapou desta regra, de formar o feminino com um simples – A, como advogada ou promotora? Seria porque, para muitos, matrona tem valor pejorativo?”.

 

Sim, cara advogada, essa deve ter sido uma das razões para a flexão de patrono não seguir o mesmo modelo. Matrona, entre os romanos, no Mundo Antigo, designava uma mulher casada, mãe de família, honesta e ilustre por nascimento, figura digna e respeitável que respondia pela manutenção da casa e da educação moral das crianças. Bluteau, em seu dicionário de 1728, acrescenta: “Em Portugal, também se diz das viúvas”. Com o tempo, no entanto, na medida em que nossa sociedade foi-se escravizando à ditadura fitness, a palavra passou a ser usada com sentido crítico, praticamente ofensivo, para descrever uma mulher corpulenta, ao mesmo tempo em que “amatronar-se” passou a designar o pecado de não seguir os padrões ditos “normais” de pesos e medidas...

 

Além disso, não se pode esperar que uma língua viva siga padrões simétricos, traçados a régua e compasso. A língua, como a água, tem muitos caminhos para escolher, e muitas vezes problemas semelhantes podem receber soluções diferentes. Por isso nem sempre serão válidos raciocínios do tipo “se isso é assim, aquilo também o será”, ou, para ser mais concreto, “se o feminino de padrasto é madrasta, o de patrono deveria ser matrona”. Vários fatores, muitos deles impalpáveis, podem influir na decisão dos milhões de pessoas que vêm usando o Português ao longo dos séculos — que escolheram para patrão o feminino patroa, mantendo aqui o mesmo radical pater (“pai”, em Latim), assim como fizeram com padroeiro e padroeira.

 

Não te espantes também, cara leitora, se alguém do teu ramo propuser o emprego da forma patrono para todo o mundo, independentemente do sexo do profissional. Por que digo isso? Porque regularmente, quando chega a primavera, ocorre aqui em Porto Alegre a tradicional Feira do Livro, uma iniciativa cultural replicada hoje por muitas outras cidades de nosso Estado, e não são raras as consultas que recebo sobre o emprego correto da palavra patrono. Posso afirmar, com certo orgulho, que por aqui a questão está pacificada: quando é homem é patrono, quando é mulher é patrona. Mas sempre aqui e ali aparece alguém que maliciosamente me lembra de que patrono está registrado nos dicionários como substantivo masculino. “E aí, professor? Como o senhor explica essa?”. Muito simples: nossos dicionários precisam corrigir a forma de fornecer informações ao consulente.

 

(Disponível em: gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/claudio-moreno/noticia/2023/04/matrona-clgxrhjob002l016xfq0s0uvx.html – texto adaptado especialmente para esta prova).

Assinale a alternativa que apresenta conjunção ou locução conjuntiva que poderia substituir corretamente a expressão “no entanto” sem causar alterações significativas ao sentido do texto. Desconsidere eventuais alterações na estrutura do período.
  1. ATodavia.
  2. BContanto que.
  3. CDesde que.
  4. DPois.
  5. EUma vez que.
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GabaritoA — Todavia.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Substituição de "no entanto" — Gabarito: letra A.

A expressão "no entanto" é uma locução conjuntiva adversativa, que estabelece relação de oposição/contraste entre as ideias. A única alternativa que preserva exatamente esse sentido é "Todavia" (letra A), também adversativa. As demais opções introduzem relações diferentes: "Contanto que" e "Desde que" são condicionais; "Pois" e "Uma vez que" são explicativas/causais. A resposta se prova no próprio texto, no trecho em que o autor contrapõe o sentido original de matrona ao sentido pejorativo que a palavra adquiriu.

O comando

A questão pede uma substituição sem alteração significativa de sentido. Isso significa que a alternativa correta deve pertencer à mesma classe semântica da expressão original. Não basta ser sinônimo em dicionário; é preciso que a relação lógica entre as orações permaneça a mesma. Aqui, o foco está na classificação das conjunções e na relação de sentido que elas estabelecem no contexto.

O texto

No segundo parágrafo, o autor explica a evolução do sentido da palavra matrona:

"Com o tempo, no entanto, na medida em que nossa sociedade foi-se escravizando à ditadura fitness, a palavra passou a ser usada com sentido crítico, praticamente ofensivo"

O "no entanto" marca uma quebra de expectativa: antes, matrona era uma figura digna e respeitável; depois, passou a ter sentido pejorativo. Essa é a relação de oposição que precisa ser mantida.

A técnica

Para resolver, é preciso conhecer as conjunções coordenativas adversativas: mas, porém, contudo, todavia, entretanto, no entanto, não obstante, ainda assim. Todas expressam oposição, contraste ou quebra de expectativa. Já as condicionais (se, caso, contanto que, desde que, a menos que) introduzem uma hipótese/condição; as causais (porque, pois, uma vez que, já que) indicam causa/motivo; as explicativas (pois, porque, que) justificam uma afirmação anterior.

A pegadinha da banca está em oferecer conjunções que não são adversativas, mas que podem parecer plausíveis em outros contextos. O candidato que não domina a classificação pode ser levado a escolher uma opção que soe bem na frase, mas que muda a relação lógica.

1Adversativas (oposição/contraste)
No entanto
Todavia
Mas, porém, contudo
2Condicionais (hipótese)
Contanto que
Desde que
3Causais (motivo)
Uma vez que
Já que, porque
4Explicativas (justificativa)
Pois
Conjunções
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Conjunções: Adversativas (oposição/contraste) (No entanto, Todavia, Mas, porém, contudo); Condicionais (hipótese) (Contanto que, Desde que); Causais (motivo) (Uma vez que, Já que, porque); Explicativas (justificativa) (Pois)

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Todavia" é uma conjunção coordenativa adversativa, sinônima de no entanto, porém, contudo. Substituir uma pela outra não altera o sentido de oposição. No trecho, a troca mantém a quebra de expectativa entre o sentido original e o sentido pejorativo de matrona.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Contanto que" é uma locução conjuntiva condicional (equivale a se). Introduz uma condição para que algo ocorra, o que não é o caso no texto. A substituição quebraria a relação de oposição e criaria uma relação de condição inexistente. Erro: troca de relação semântica (adversativa → condicional).

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Desde que" também é condicional (equivale a se). Assim como a anterior, introduz uma hipótese, não uma oposição. A troca alteraria completamente o sentido do período. Erro: troca de relação semântica (adversativa → condicional).

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Pois" pode ser explicativa (quando inicia a oração) ou conclusiva (quando vem após o verbo). Em nenhum dos casos expressa oposição. No contexto, substituir no entanto por pois transformaria a quebra de expectativa em uma justificativa, o que não faz sentido. Erro: troca de relação semântica (adversativa → explicativa/conclusiva).

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Uma vez que" é uma locução conjuntiva causal (equivale a já que, porque). Indica causa, não oposição. A substituição alteraria o sentido, pois o texto não apresenta uma causa, mas um contraste. Erro: troca de relação semântica (adversativa → causal).

NÃO CAIA NESSA!

A banca oferece conjunções de outras classes (condicionais e causais) que podem parecer aceitáveis em uma leitura rápida, mas que mudam a relação lógica entre as orações. A única que preserva o sentido de oposição é a adversativa todavia.

PEGA ESSA DICA!

Ao substituir conectivos, pergunte: "qual relação lógica o original estabelece?" e "a alternativa mantém essa relação?". Se a resposta for não, descarte.

Gabarito: letra A.

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