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Questão de Português — Outras Questões de Semântica — FUNDATEC 2023

PortuguêsOutras Questões de Semântica
Código
qa503517
Banca
FUNDATEC
Órgão
Pref BVB
Ano
2023
Cargo
Ag Adm ( )

Matrona

 

Por Cláudio Moreno

 

Uma advogada de São Paulo fez uma interessante observação sobre os sutis mecanismos de nosso idioma: “Professor, na minha profissão, é comum nos referirmos aos advogados de uma ação como patronos da causa — os homens são patronos, as mulheres, é claro, são patronas. Não vejo problema algum nisso, até porque eu acharia esquisito se me chamassem de patronnesse, que é Francês e nada tem a ver com nosso trabalho, já que só se emprega para aquelas senhoras endinheiradas que promovem chás beneficentes. Agora, desculpe a pergunta (pode ser cacoete de advogada, acostumada com leis): se na nossa língua há um monte de “casais” de palavras que deixam bem claro o dualismo entre pai e mãe, como padrinho e madrinha, compadre e comadre, padrasto e madrasta, como é que patrono escapou desta regra, de formar o feminino com um simples – A, como advogada ou promotora? Seria porque, para muitos, matrona tem valor pejorativo?”.

 

Sim, cara advogada, essa deve ter sido uma das razões para a flexão de patrono não seguir o mesmo modelo. Matrona, entre os romanos, no Mundo Antigo, designava uma mulher casada, mãe de família, honesta e ilustre por nascimento, figura digna e respeitável que respondia pela manutenção da casa e da educação moral das crianças. Bluteau, em seu dicionário de 1728, acrescenta: “Em Portugal, também se diz das viúvas”. Com o tempo, no entanto, na medida em que nossa sociedade foi-se escravizando à ditadura fitness, a palavra passou a ser usada com sentido crítico, praticamente ofensivo, para descrever uma mulher corpulenta, ao mesmo tempo em que “amatronar-se” passou a designar o pecado de não seguir os padrões ditos “normais” de pesos e medidas...

 

Além disso, não se pode esperar que uma língua viva siga padrões simétricos, traçados a régua e compasso. A língua, como a água, tem muitos caminhos para escolher, e muitas vezes problemas semelhantes podem receber soluções diferentes. Por isso nem sempre serão válidos raciocínios do tipo “se isso é assim, aquilo também o será”, ou, para ser mais concreto, “se o feminino de padrasto é madrasta, o de patrono deveria ser matrona”. Vários fatores, muitos deles impalpáveis, podem influir na decisão dos milhões de pessoas que vêm usando o Português ao longo dos séculos — que escolheram para patrão o feminino patroa, mantendo aqui o mesmo radical pater (“pai”, em Latim), assim como fizeram com padroeiro e padroeira.

 

Não te espantes também, cara leitora, se alguém do teu ramo propuser o emprego da forma patrono para todo o mundo, independentemente do sexo do profissional. Por que digo isso? Porque regularmente, quando chega a primavera, ocorre aqui em Porto Alegre a tradicional Feira do Livro, uma iniciativa cultural replicada hoje por muitas outras cidades de nosso Estado, e não são raras as consultas que recebo sobre o emprego correto da palavra patrono. Posso afirmar, com certo orgulho, que por aqui a questão está pacificada: quando é homem é patrono, quando é mulher é patrona. Mas sempre aqui e ali aparece alguém que maliciosamente me lembra de que patrono está registrado nos dicionários como substantivo masculino. “E aí, professor? Como o senhor explica essa?”. Muito simples: nossos dicionários precisam corrigir a forma de fornecer informações ao consulente.

 

(Disponível em: gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/claudio-moreno/noticia/2023/04/matrona-clgxrhjob002l016xfq0s0uvx.html – texto adaptado especialmente para esta prova).

Assinale a alternativa que indica o sentido expresso pelo emprego da forma verbal sublinhada no futuro do subjuntivo, considerando o contexto de ocorrência na seguinte oração: “se alguém do teu ramo propuser o emprego da forma patrono para todo o mundo” (l. 29-30).

  1. AOrdem.
  2. BHábito.
  3. CSuposição.
  4. DQuestionamento.
  5. EDesejo.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Suposição.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O sentido do futuro do subjuntivo em “se alguém do teu ramo propuser”

Gabarito: letra C (Suposição). O futuro do subjuntivo em “propuser” expressa uma hipótese, uma suposição sobre um fato possível, mas não realizado — exatamente o que a conjunção condicional “se” introduz. No texto, o autor especula: “se alguém do teu ramo propuser o emprego da forma patrono para todo o mundo” (l. 29-30). A forma verbal não ordena, não indica hábito, não questiona nem expressa desejo; ela condiciona uma consequência a um evento imaginado.

O comando: o que a banca pede

A questão quer que você identifique o valor semântico do futuro do subjuntivo no contexto. Não basta saber que é um tempo verbal; é preciso perceber que, em orações condicionais iniciadas por “se”, o futuro do subjuntivo marca uma condição hipotética — algo que pode ou não acontecer. O verbo “propuser” está na oração subordinada adverbial condicional, e o sentido global é de suposição: o autor levanta uma possibilidade, não um fato.

O texto: onde mora a resposta

No 4º parágrafo, o autor escreve:

“Não te espantes também, cara leitora, se alguém do teu ramo propuser o emprego da forma patrono para todo o mundo, independentemente do sexo do profissional.”

A conjunção “se” + futuro do subjuntivo (“propuser”) instaura uma condição hipotética. O autor não afirma que isso vai acontecer; ele supõe que pode acontecer. A consequência (“não te espantes”) está condicionada a essa possibilidade. O valor é claramente de suposição, não de ordem, hábito, questionamento ou desejo.

A técnica: como reconhecer o valor do futuro do subjuntivo

O futuro do subjuntivo aparece tipicamente em orações condicionais (com “se”, “quando”, “caso”) e em orações temporais futuras (com “quando”, “logo que”). Em todos esses casos, o sentido é de hipótese ou condição: o fato é possível, mas incerto. Veja o contraste:

Forma

Exemplo

Valor

Futuro do subjuntivo

“Se ele propuser...”

Suposição/condição

Presente do indicativo

“Ele propõe...”

Fato/hábito

Imperativo

Proponha...”

Ordem

Futuro do presente

“Ele proporá...”

Certeza futura

A banca explora exatamente essa distinção: o futuro do subjuntivo não é um tempo de certeza, mas de possibilidade. Quem erra, geralmente confunde com “desejo” (porque é algo que se quer) ou com “questionamento” (porque há uma pergunta implícita no texto), mas o valor gramatical é de suposição.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre o valor semântico do futuro do subjuntivo (suposição) e o contexto do texto (que fala de uma possibilidade futura). A alternativa “Desejo” parece atraente porque o autor especula sobre algo que poderia ocorrer, mas o verbo em si não expressa desejo — expressa condição hipotética.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Ordem. O futuro do subjuntivo não expressa ordem. Ordem é função do imperativo (“proponha”, “faça”). No trecho, não há comando; há uma condição (“se alguém propuser...”). A alternativa troca o modo verbal: confunde subjuntivo com imperativo.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Hábito. Hábito é expresso pelo presente do indicativo (“ele propõe”, “ela propõe”). O futuro do subjuntivo indica um fato eventual e futuro, não uma ação repetida. A alternativa generaliza o sentido: atribui ao verbo um valor de regularidade que o contexto não autoriza.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Suposição. O futuro do subjuntivo, em oração condicional com “se”, expressa hipótese. O autor supõe que alguém possa propor o uso de “patrono” para todos. A passagem “se alguém do teu ramo propuser” (l. 29-30) é a prova: a forma verbal está condicionada a um evento possível, mas não realizado. É exatamente o valor de suposição.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Questionamento. O texto faz uma pergunta retórica (“Por que digo isso?”), mas o verbo “propuser” não está em uma oração interrogativa. Ele está em uma oração condicional. A alternativa tangencia o tema: confunde o contexto geral do parágrafo (que tem perguntas) com o valor específico da forma verbal.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Desejo. Desejo é expresso pelo futuro do pretérito (“gostaria que propusesse”) ou por locuções como “tomara que”. O futuro do subjuntivo não expressa desejo; expressa condição. A alternativa acrescenta opinião: projeta no verbo um sentimento que o texto não atribui a ele. O autor não deseja que alguém proponha; ele apenas supõe que isso possa ocorrer.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de valor semântico de tempo verbal, pergunte-se: “o verbo expressa um fato certo, uma hipótese, uma ordem ou um desejo?”. Se a oração começa com “se” + futuro do subjuntivo, a resposta quase sempre é suposição/condição.

Gabarito: letra C. O futuro do subjuntivo “propuser” expressa suposição, pois está em uma oração condicional que levanta uma hipótese sobre o futuro.

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