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Questão de Português — Pronomes Pessoais — Avança SP 2023

PortuguêsPronomes Pessoais
Código
qa503814
Banca
Avança SP
Órgão
Pref Vinhedo
Ano
2023
Cargo
GCM ( )

O mundo restaurado

 

O pai ganha os presentes que um pai costuma ganhar. Camisas, lenços, uma gravata muito parecida com a que deu para alguém no ano passado, meias. Alguns livros, alguns vinhos. Mas fica de olho nos presentes das crianças. Com o ar condescendente de quem tem um saudável interesse nas atividades dos filhos. Mas louco de inveja.

 

― Meu filho. Um Autorama!

 

― É, pai.

 

― Vamos armar agora mesmo!

 

― Agora não, pai. Amanhã, a gente arma.

 

― Amanhã, nada. Agora! Arreda essa papelada pra lá. Aqui na sala mesmo tem lugar.

 

A mãe intervém.

 

― Você está louco? Armar esse negócio no meio da sala, no meio da festa?! E as crianças precisam ir dormir. Foi excitação demais para um dia só.

 

O pai fica olhando com ressentimento o Autorama que desaparece da sala embaixo do braço do guri. Pensa, vagamente, em seguir o filho e propor uma barganha. “Escuta, a mãe não está nos ouvindo. Eu te dou todos os meus lenços e tu deixa eu armar o Autorama aqui no teu quarto, com a porta fechada.” Mas não. Os convidados, o que pensariam dele? Na certa que estaria bêbado, como no ano passado. Ele examina o livro que ganhou do cunhado. O Mundo Restaurado, de Henry Kissinger. O cunhado, inexplicavelmente, lhe atribui um grave interesse nos problemas contemporâneos. Vive lhe mandando recortes de jornal com trechos sublinhados e pontos de exclamação na margem. Às vezes, telefona, com recados cifrados.

 

― Lembra aquela nossa conversa?

 

― Qual?

 

― Veja na terceira página do Correio de hoje. Um pequeno tópico no canto inferior direito. É a prova de tudo aquilo que nós discutíamos no outro dia, lembra?

 

― Não.

 

― A crise é irreversível, meu filho. Um abração.

 

Ele só ganha presente de homem sério. De homem preocupado com os problemas contemporâneos. Lenços brancos, camisas sóbrias, meias pretas e marrons. No ano passado, deu para um primo taciturno uma gravata cinza-escura com manchas pretas e estrias roxas, como hematomas. Com um cartão gozando a seriedade do primo. Este ano recebeu de volta a mesma gravata. Sem cartão. As pessoas, pensa, me confundem com um adulto. Vê a filha mais velha que passa equilibrando várias caixas de presentes.

 

― Te desafio para uma partida de damas. Não é uma proposta carinhosa. É um desafio mesmo. Posso derrotar qualquer criança nesta sala! Dama, moinho, bola de gude, palavra-cruzada…

 

A filha o ignora e também vai para o quarto. Decidiram, ele e a mulher, não dar nenhuma arma de brinquedo no Natal. Nem arco e flecha. Os psicólogos não aconselham. Mas ele agora tem uma lembrança que lhe sobe até a garganta e fica atravessada: aos doze anos ganhou uma metralhadora de latão que cuspia fogo. Tinha uma manivela do lado que a gente girava e a metralhadora cuspia fogo! O cunhado senta ao seu lado, com um copo de uísque na mão. Aponta para o livro.

 

― Isso aí explica muita coisa. Lembras daquela minha tese?…

 

Mas ele não ouve mais nada. Ergue o Henry Kissinger até os olhos, como se mirasse uma metralhadora, e começa a girar uma manivela invisível do lado do livro. Ao mesmo tempo, com a boca imita o ruído de tiros, e descobre entusiasmado que ainda não perdeu o jeito. O cunhado fica olhando, entre surpreso e divertido, enquanto ele varre a sala com rajadas imaginárias.

 

Luís Fernando Veríssimo. Ed Mort – todas as histórias. 1ª Ed. São Paulo: Objetiva, 2011

Texto base para questão abaixo.     Considere o excerto: “enquanto ele varre a sala com rajadas imaginárias.” Neste contexto, o pronome pessoal “ele” se refere ao personagem:
  1. Afilho.
  2. BHenry Kissinger.
  3. Ccunhado.
  4. Dpai.
  5. Eprimo taciturno.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — pai.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Referência do Pronome "ele" no Texto

Gabarito: letra D. O pronome pessoal "ele", no excerto "enquanto ele varre a sala com rajadas imaginárias", refere-se ao pai, personagem central do conto. A passagem que comprova isso está no último parágrafo: "Ele ergue o Henry Kissinger até os olhos, como se mirasse uma metralhadora, e começa a girar uma manivela invisível do lado do livro. Ao mesmo tempo, com a boca imita o ruído de tiros, e descobre entusiasmado que ainda não perdeu o jeito. O cunhado fica olhando, entre surpreso e divertido, enquanto ele varre a sala com rajadas imaginárias." O sujeito que "ergue o livro", "gira a manivela" e "imita o ruído de tiros" é o pai; o pronome "ele" retoma esse mesmo sujeito, mantendo a coesão referencial.

A questão exige compreensão de texto aplicada à coesão referencial: identificar o antecedente de um pronome pessoal reto. Não se trata de inferência, pois a resposta está explícita na sequência narrativa. O comando "se refere ao personagem" pede que você rastreie, no texto, a quem o pronome aponta — e isso se faz pela retomada anafórica, ou seja, o pronome substitui um termo já mencionado.

No trecho final, o narrador descreve as ações do pai: ele "ergue o Henry Kissinger", "gira uma manivela invisível" e "imita o ruído de tiros". O pronome "ele" aparece logo depois, na oração "enquanto ele varre a sala", retomando exatamente esse sujeito — o pai. O cunhado, que "fica olhando", é o observador, não o agente da ação.

Alternativa A — ❌ Incorreta

O filho é o personagem que ganhou o Autorama e foi para o quarto, mas não participa da cena final. O texto diz: "O pai fica olhando com ressentimento o Autorama que desaparece da sala embaixo do braço do guri." O filho não está mais na sala quando o pai "varre a sala com rajadas imaginárias". Portanto, o pronome "ele" não pode se referir a ele.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Henry Kissinger é o autor do livro que o pai ganhou, não uma personagem que age na cena. O texto menciona: "Ele examina o livro que ganhou do cunhado. O Mundo Restaurado, de Henry Kissinger." O livro é um objeto, não um agente. O pronome "ele" refere-se a uma pessoa que executa ações físicas (erguer, girar, imitar), o que não se aplica a um livro ou a seu autor.

Alternativa C — ❌ Incorreta

O cunhado é o personagem que "senta ao seu lado, com um copo de uísque na mão" e "fica olhando, entre surpreso e divertido". Ele é o observador, não o agente da ação. O texto diz: "O cunhado fica olhando, entre surpreso e divertido, enquanto ele varre a sala com rajadas imaginárias." A conjunção "enquanto" indica simultaneidade: o cunhado observa enquanto o pai age. Portanto, o pronome "ele" não se refere ao cunhado.

Alternativa D — ✅ Correta

O pai é o sujeito que executa todas as ações descritas no trecho final: "Ele ergue o Henry Kissinger até os olhos, como se mirasse uma metralhadora, e começa a girar uma manivela invisível do lado do livro. Ao mesmo tempo, com a boca imita o ruído de tiros, e descobre entusiasmado que ainda não perdeu o jeito." O pronome "ele" retoma esse sujeito, mantendo a coesão referencial. A passagem "enquanto ele varre a sala" confirma que o pai é o agente da ação.

Alternativa E — ❌ Incorreta

O primo taciturno é mencionado apenas em uma lembrança do pai: "No ano passado, deu para um primo taciturno uma gravata cinza-escura com manchas pretas e estrias roxas, como hematomas." Ele não está presente na cena final e não executa nenhuma ação. Portanto, o pronome "ele" não pode se referir a ele.

NÃO CAIA NESSA!

A banca oferece personagens que aparecem no texto (filho, cunhado, primo) para testar se o candidato confunde a retomada anafórica com a simples menção. A chave é rastrear o sujeito da ação na sequência narrativa, não apenas quem foi citado.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar o referente de um pronome, pergunte: "quem pratica a ação do verbo?" No trecho, o verbo "varre" exige um agente — e esse agente é o pai, que vinha sendo o sujeito das orações anteriores.

Gabarito: letra D — o pronome "ele" refere-se ao pai, como comprova a sequência de ações no último parágrafo.

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