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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Avança SP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa504218
Banca
Avança SP
Órgão
Pref Americana
Ano
2023
Cargo
Coz ( )

O amigo da onça

 

A Onça estava quietinha no seu canto quando lhe apareceu o compadre Lobo, que logo foi lhe dizendo:

 

— Comadre Onça, com o perdão da palavra, você não é o bicho mais valente e destemido que existe neste mundo, nem o Leão, com toda a sua prosa dos reis dos animais.

 

— Como assim? Berrou a Onça enfurecida. Quem é esse bicho mais valente e poderoso que eu?

 

O Lobo amaciando a voz respondeu:

 

— Ó comadre, me perdoe. Já estou arrependido de dizer tal coisa... Mas minha intenção era apenas preveni-la de um bicho terrível que apareceu nesta paragem.

 

— Bem... Você não deixa de ter alguma razão, retrucou a Onça, mais sossegada. Mas quero saber o nome desse bicho. Como se chama?

 

— Esse bicho, comadre, chama-se homem, conforme me disse o papagaio. Em toda a minha vida, nunca vi um bicho mais valente. Ele sim e mais ninguém é o rei dos animais. Basta dizer que, de longe, o vi matar, com dois espirros, nada menos do que um jacaré dos grandes. Ih! Comadre, com o estrondo dos espirros parecia que tudo ia pelos ares. Deus me livre!

 

— Oh! Compadre, não me diga!

 

— É como lhe conto. E o que mais me deixa admirado é o bicho-homem ser tão baixinho que parece ser fraco; além disso, é mal servido de unhas e dentes.

 

— Pois bem, compadre, fiquei curiosa. Quero que me leve, sem demora, ao lugar onde se encontra tal animal.

 

— Ah, comadre, peça-me tudo menos isso. Você nem imagina os estragos que ele fez com seus malditos espirros. Não me atreveria a tal aventura.

 

— Pois queira ou não queira, vai me mostrar o bicho, ou então não sairá daqui com vida.

 

— Está certo, disse o Lobo amedrontado. Iremos. Mas temos de tomar todo o cuidado possível. Eu — com sua licença — posso correr mais que a senhora. Assim, levaremos um cipó, daqueles que não arrebentam nunca. Amarro uma das pontas no pescoço da comadre e a outra em minha cintura. Em caso de perigo, se for preciso fugir, a comadre e eu corremos...

 

— Fugir! Veja lá o que diz! Você já viu, seu “cagão”, alguma vez onça fugir?

 

— Não me expliquei bem. Eu é que fugirei. A comadre será apenas arrastada por mim. Isso não é fugir. Está certo?

 

— Está bem. Faremos como quer.

 

Partiram. A Onça com o cipó atado no pescoço, e o Lobo muito respeitoso e tímido, a puxá-la.

 

Quando chegaram ao destino, o bicho-homem, surpreendido, ao avistá-los, tirou da cinta a garrucha e lascou fogo, isto é, espirrou, uma, duas vezes, foi um estrondo dos diabos.

 

O Lobo, então, mais que depressa, disparou numa corrida desabalada, empenhando um enorme esforço para arrastar a Onça pelo cipó que tinha atado no pescoço dela.

 

De repente, já muito distante, sentiu que a Onça estava mais pesada. Então parou, e contemplou a companheira estendida no chão, com os dentes arreganhados, sem o mais leve movimento.

 

O Lobo, sem perceber que a Onça tinha morrido enforcada no laço do cipó, mas pensando que apenas estivesse cansada, disse-lhe tremendo que nem vara verde:

 

— Eh, comadre! Não ri, não, que o negócio é sério.

 

GOMES, Lindolfo. Disponível em: https://recantodasletras.com.br/contos

Texto

   

Sobre o texto, assinale a opção correta:

  1. AO Lobo planejou minuciosamente toda a ação para poder matar a Onça de forma fria e calculista.
  2. BA Onça morreu pela sua soberba de não aceitar um animal que fosse superior a ela, no caso o Lobo, como fica claro no início do texto.
  3. CO Lobo acabou matando a Onça para poder sobreviver à ameaça dela, ou seja, agiu em legítima defesa.
  4. DA Onça foi morta sem que houvesse intenção do Lobo, já que nenhum dos dois tinha previsto um enforcamento, como fica claro no final do texto quando ele pensa que a ela está risonha.
  5. EA Onça morreu pela ação do Lobo, mas teria morrido com toda certeza pela ação do bicho-homem, pois ele estava com uma arma de fogo.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — A Onça foi morta sem que houvesse intenção do Lobo, já que nenhum dos dois tinha previsto um enforcamento, como fica claro no final do texto quando ele pensa que a ela está risonha.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A Morte da Onça: Acidente ou Intenção?

Gabarito: letra D. A alternativa correta é a D, pois o texto deixa claro que a morte da Onça foi acidental — o Lobo não previu o enforcamento, e a prova está no final, quando ele pensa que a Onça está apenas cansada e risonha. Como se lê: "O Lobo, sem perceber que a Onça tinha morrido enforcada no laço do cipó, mas pensando que apenas estivesse cansada, disse-lhe tremendo que nem vara verde: — Eh, comadre! Não ri, não, que o negócio é sério." Essa passagem mostra que o Lobo não tinha intenção de matá-la — ele acreditava que ela estava viva e rindo.

O comando pede a opção correta sobre o texto, ou seja, aquela que está inteiramente sustentada pelo que está escrito. Não se trata de inferir algo além do texto, mas de compreender o desfecho da narrativa: a Onça morre enforcada no cipó durante a fuga, e o Lobo não percebe. As demais alternativas extrapolam ou contradizem o texto, atribuindo intenções ou previsões que não existem.

O texto é uma fábula: o Lobo, amedrontado, propõe amarrar um cipó entre ele e a Onça para "fugir" em caso de perigo. Quando o homem atira (os "espirros"), o Lobo corre desabalado e arrasta a Onça, que morre enforcada. O narrador é explícito: "O Lobo, sem perceber que a Onça tinha morrido enforcada no laço do cipó, mas pensando que apenas estivesse cansada". Essa é a âncora da resposta: o Lobo não sabia da morte, logo não houve intenção.

A técnica para resolver é localizar a passagem que descreve o desfecho e verificar se a alternativa parafraseia fielmente o que está escrito. A letra D faz exatamente isso: "A Onça foi morta sem que houvesse intenção do Lobo, já que nenhum dos dois tinha previsto um enforcamento, como fica claro no final do texto quando ele pensa que a ela está risonha." Repare que a alternativa usa "sem intenção" e "nenhum dos dois tinha previsto" — ambos confirmados pelo texto.

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta fazer você acreditar que o Lobo planejou a morte (A, B, C) ou que ela era previsível (E). Mas o texto mostra o contrário: o Lobo não sabia que a Onça havia morrido. Desconfie de alternativas que atribuem intenção ou previsibilidade quando o texto fala em acidente.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto não diz que o Lobo "planejou minuciosamente" matar a Onça. Ele apenas propõe o cipó como forma de fuga: "Em caso de perigo, se for preciso fugir, a comadre e eu corremos...". Não há nenhuma menção a um plano de matá-la. A alternativa inventa uma intenção que não está no texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação e contradição. O texto não diz que a Onça morreu por "soberba" de não aceitar um animal superior. Ela fica curiosa e quer ver o homem, mas não há juízo de valor sobre soberba. Além disso, a alternativa diz que o Lobo seria superior, o que contradiz o texto: o Lobo é medroso e foge. A morte é causada pelo cipó, não pela soberba.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto não diz que o Lobo "agiu em legítima defesa". Ele foge por medo, não para se defender. A ameaça da Onça ("não sairá daqui com vida") é anterior, mas o Lobo não mata a Onça deliberadamente — ela morre por acidente. A alternativa acrescenta uma justificativa jurídica que não está no texto.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Correta. O texto é explícito: "O Lobo, sem perceber que a Onça tinha morrido enforcada no laço do cipó, mas pensando que apenas estivesse cansada". Isso prova que não houve intenção e que nenhum dos dois previu o enforcamento. A alternativa parafraseia fielmente o desfecho.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto não afirma que a Onça "teria morrido com toda certeza" pela ação do homem. O homem atira (os "espirros"), mas a Onça não é atingida — ela morre enforcada. A alternativa especula sobre um desfecho que não ocorreu. O texto não dá elementos para afirmar que ela morreria de qualquer forma.

Conclusão: a chave é não atribuir intenções que o texto não menciona. A morte da Onça é um acidente — o Lobo foge, o cipó enforca a Onça, e ele nem percebe. A letra D é a única que se limita ao que está escrito.

Gabarito: letra D

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