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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Avança SP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa504225
Banca
Avança SP
Órgão
Pref Americana
Ano
2023
Cargo
GCM ( )
A metamorfose


Uma barata acordou um dia e viu que tinha se transformado num ser humano. Começou a mexer suas patas e viu que só tinha quatro, que eram grandes e pesadas e de articulação difícil. Não tinha mais antenas. Quis emitir um som de surpresa e sem querer deu um grunhido. As outras baratas fugiram aterrorizadas para trás do móvel. Ela quis segui-las, mas não coube atrás do móvel. O seu segundo pensamento foi: “Que horror… Preciso acabar com essas baratas…”

Pensar, para a ex-barata, era uma novidade. Antigamente ela seguia seu instinto. Agora precisava raciocinar. Fez uma espécie de manto com a cortina da sala para cobrir sua nudez. Saiu pela casa e encontrou um armário num quarto, e nele, roupa de baixo e um vestido. Olhou-se no espelho e achou-se bonita. Para uma ex-barata. Maquiou-se. Todas as baratas são iguais, mas as mulheres precisam realçar sua personalidade. Adotou um nome: Vandirene. Mais tarde descobriu que só um nome não bastava. A que classe pertencia?… Tinha educação?…. Referências?… Conseguiu a muito custo um emprego como faxineira. Sua experiência de barata lhe dava acesso a sujeiras mal suspeitadas. Era uma boa faxineira.

Difícil era ser gente… Precisava comprar comida e o dinheiro não chegava. As baratas se acasalam num roçar de antenas, mas os seres humanos não. Conhecem-se, namoram, brigam, fazem as pazes, resolvem se casar, hesitam. Será que o dinheiro vai dar ? Conseguir casa, móveis, eletrodomésticos, roupa de cama, mesa e banho. Vandirene casou-se, teve filhos. Lutou muito, coitada. Filas no Instituto Nacional de Previdência Social. Pouco leite. O marido desempregado… Finalmente acertou na loteria. Quase quatro milhões ! Entre as baratas ter ou não ter quatro milhões não faz diferença. Mas Vandirene mudou. Empregou o dinheiro. Mudou de bairro. Comprou casa. Passou a vestir bem, a comer bem, a cuidar onde põe o pronome. Subiu de classe. Contratou babás e entrou na Pontifícia Universidade Católica.

Vandirene acordou um dia e viu que tinha se transformado em barata. Seu penúltimo pensamento humano foi : “Meu Deus!… A casa foi dedetizada há dois dias!…”. Seu último pensamento humano foi para seu dinheiro rendendo na financeira e que o safado do marido, seu herdeiro legal, o usaria. Depois desceu pelo pé da cama e correu para trás de um móvel. Não pensava mais em nada. Era puro instinto. Morreu cinco minutos depois , mas foram os cinco minutos mais felizes de sua vida.

Kafka não significa nada para as baratas…

Texto

   

Considerando as afirmativas, abaixo, é correto afirmar:

 

I- Veríssimo traz questionamentos importantes sobre a sociedade e o comportamento humano. Isso porque, a todo momento, ele evidencia o contraste entre o instinto versus o raciocínio.

 

II- A barata é usada como símbolo do racional, mas ao descrever as complicações presentes, na vida cotidiana dos seres humanos, nos faz pensar em como a própria existência e os nossos costumes são complexos.

 

III- No fim todas as pessoas vão, igualmente, perdendo a consciência, e que o dinheiro que ganharam ou não, em vida, já não faz o menor sentido.

  1. AApenas a I está correta.
  2. BApenas a I e II estão corretas.
  3. CApenas a I e III estão corretas.
  4. DApenas a II e III estão corretas.
  5. EApenas a III está correta.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Apenas a I e III estão corretas.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A Metamorfose de Veríssimo: Instinto, Raciocínio e a Crítica Social

Gabarito: letra C. Apenas as afirmativas I e III estão corretas. A afirmativa II está errada porque inverte os polos do contraste: o texto usa a barata como símbolo do instinto, não do racional — como se lê no trecho em que Vandirene, já transformada de volta em barata, "não pensava mais em nada. Era puro instinto." A afirmativa I está correta porque o texto, do início ao fim, contrapõe o instinto (vida de barata) ao raciocínio (vida humana), e a III está correta porque, no desfecho, o dinheiro e a consciência perdem o sentido diante da morte — "Morreu cinco minutos depois, mas foram os cinco minutos mais felizes de sua vida."

O Comando: o que a banca pede

A questão pede que você julgue a validade de três afirmativas sobre o texto. Isso é uma tarefa de compreensão e interpretação: cada afirmativa deve ser confrontada com o que o texto efetivamente diz (compreensão) ou permite inferir (interpretação). O erro mais comum aqui é extrapolar — atribuir ao texto ideias que ele não sustenta, ou trocar os termos do que ele afirma. A banca adora fazer isso: pega uma ideia verdadeira e a inverte sutilmente, como fez na afirmativa II.

O Texto: a tese e o movimento argumentativo

O conto de Luis Fernando Veríssimo é uma alegoria (ou fábula moderna) sobre a condição humana. A tese central é a complexidade da vida humana em contraste com a simplicidade do instinto animal. O texto não é uma defesa do racional nem do instinto; ele mostra as dificuldades e artificialidades da vida humana (trabalho, dinheiro, casamento, classes sociais) e, no final, sugere que a consciência pode ser um fardo — a barata, ao voltar ao instinto, vive seus "cinco minutos mais felizes".

O movimento argumentativo é claro: a barata vira gente e enfrenta as complicações humanas; depois, vira barata de novo e encontra a felicidade no instinto. Esse ciclo sustenta a afirmativa I (contraste instinto × raciocínio) e a afirmativa III (a perda de sentido do dinheiro e da consciência). A afirmativa II, porém, inverte o símbolo: diz que a barata é o racional, quando o texto a associa ao instinto.

A Técnica: como testar cada afirmativa

A regra de ouro para questões de "julgue as afirmativas" é: cada afirmativa deve ser verificada isoladamente contra o texto. Não basta que a ideia "pareça" verdadeira; ela precisa estar ancorada em uma passagem. Para a afirmativa II, por exemplo, a banca usou a palavra "racional" para descrever a barata — mas o texto diz exatamente o oposto. Esse é o padrão clássico de troca de vocábulo: a banca mantém a estrutura da frase, mas substitui um termo crucial, invertendo o sentido.

Outra armadilha comum é a generalização indevida. A afirmativa III diz que "no fim todas as pessoas vão, igualmente, perdendo a consciência". O texto fala de Vandirene, não de "todas as pessoas". No entanto, a afirmativa usa "igualmente" de forma a sugerir uma universalização. Será que isso invalida a afirmativa? Não — porque o texto, ao narrar a história de Vandirene, usa-a como símbolo da condição humana. A morte é apresentada como um destino comum, e o dinheiro, como algo que "não faz diferença" para quem morre. A afirmativa III, portanto, é uma inferência legítima a partir do desfecho, não uma extrapolação.

O Gancho: o critério que separa as alternativas

Teste cada afirmativa perguntando: o texto AUTORIZA isto, ou exige acrescentar algo de fora? A afirmativa I é autorizada pelo contraste explícito entre instinto e raciocínio. A afirmativa III é autorizada pelo desfecho, que mostra a perda de sentido do dinheiro e da consciência. A afirmativa II não é autorizada — ela contradiz o texto ao chamar a barata de racional. Se você identificar a inversão de polos, a questão se resolve em segundos.

Afirmativas sobre o texto
  • 1I — Contraste instinto × raciocínio
    • Correta
  • 2II — Barata como símbolo do racional
    • Incorreta (inverte o símbolo)
  • 3III — Perda de sentido do dinheiro e da consciência
    • Correta
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Alternativa A — ❌ Incorreta

Afirma que apenas a I está correta. A afirmativa III também está correta, como veremos. A alternativa restringe o conjunto de afirmativas corretas, deixando de fora uma que o texto sustenta. O erro é de incompletude: a I é verdadeira, mas não é a única.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Afirma que apenas a I e a II estão corretas. A afirmativa II está errada porque inverte o símbolo: o texto usa a barata como símbolo do instinto, não do racional. Veja a passagem decisiva:

"Depois desceu pelo pé da cama e correu para trás de um móvel. Não pensava mais em nada. Era puro instinto."

Aqui, a barata (Vandirene transformada de volta) é associada ao instinto, não ao raciocínio. A afirmativa II diz o contrário — é uma contradição com o texto. Além disso, a afirmativa III, que é correta, fica de fora. A alternativa B, portanto, comete dois erros: inclui a II (falsa) e exclui a III (verdadeira).

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Afirma que apenas a I e a III estão corretas. Vamos verificar cada uma:

Afirmativa I: "Veríssimo traz questionamentos importantes sobre a sociedade e o comportamento humano. Isso porque, a todo momento, ele evidencia o contraste entre o instinto versus o raciocínio."

O texto é construído sobre esse contraste. No início, a barata vira gente e precisa "raciocinar":

"Pensar, para a ex-barata, era uma novidade. Antigamente ela seguia seu instinto. Agora precisava raciocinar."

No final, ao voltar a ser barata, ela "não pensava mais em nada. Era puro instinto." O contraste é explícito e perpassa todo o conto. A afirmativa I é uma paráfrase fiel do texto.

Afirmativa III: "No fim todas as pessoas vão, igualmente, perdendo a consciência, e que o dinheiro que ganharam ou não, em vida, já não faz o menor sentido."

O desfecho mostra Vandirene perdendo a consciência humana e morrendo. O dinheiro, que foi tão importante em sua vida humana, torna-se irrelevante:

"Seu último pensamento humano foi para seu dinheiro rendendo na financeira e que o safado do marido, seu herdeiro legal, o usaria."

Ela pensa no dinheiro, mas logo depois "não pensava mais em nada". A morte apaga a consciência e o valor do dinheiro. A afirmativa III é uma inferência legítima a partir do desfecho: a história de Vandirene é usada como símbolo da condição humana, e a morte é apresentada como o fim que torna o dinheiro sem sentido. A palavra "igualmente" pode soar como generalização, mas o texto, ao narrar a história de uma ex-barata que virou gente, universaliza a experiência humana. A afirmativa III está correta.

Portanto, a alternativa C é a única que reúne as duas afirmativas verdadeiras.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Afirma que apenas a II e a III estão corretas. A afirmativa II está errada (como vimos, inverte o símbolo da barata). A alternativa D inclui uma afirmativa falsa e exclui a I, que é verdadeira. O erro é duplo: contradição (II) e incompletude (exclui a I).

Alternativa E — ❌ Incorreta

Afirma que apenas a III está correta. A afirmativa I também está correta, como demonstramos. A alternativa E restringe o conjunto, deixando de fora a I. O erro é de incompletude.

NÃO CAIA NESSA!

A banca inverteu o símbolo na afirmativa II — chamou a barata de "racional" quando o texto a associa ao "instinto". Quem leu rápido e não conferiu a passagem caiu na armadilha.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de "julgue as afirmativas", grife as palavras-chave de cada uma (como "racional", "instinto", "todas", "igualmente") e confronte-as com o texto. Palavras absolutas como "todas" e "igualmente" acendem o alerta de generalização.

Conclusão: a afirmativa I está correta (contraste instinto × raciocínio), a II está errada (inverte o símbolo) e a III está correta (perda de sentido do dinheiro e da consciência). Como a banca pediu a alternativa que reúne as afirmativas corretas, o gabarito é a letra C.

Gabarito: letra C

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