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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Avança SP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa504226
Banca
Avança SP
Órgão
Pref Americana
Ano
2023
Cargo
GCM ( )
A metamorfose


Uma barata acordou um dia e viu que tinha se transformado num ser humano. Começou a mexer suas patas e viu que só tinha quatro, que eram grandes e pesadas e de articulação difícil. Não tinha mais antenas. Quis emitir um som de surpresa e sem querer deu um grunhido. As outras baratas fugiram aterrorizadas para trás do móvel. Ela quis segui-las, mas não coube atrás do móvel. O seu segundo pensamento foi: “Que horror… Preciso acabar com essas baratas…”

Pensar, para a ex-barata, era uma novidade. Antigamente ela seguia seu instinto. Agora precisava raciocinar. Fez uma espécie de manto com a cortina da sala para cobrir sua nudez. Saiu pela casa e encontrou um armário num quarto, e nele, roupa de baixo e um vestido. Olhou-se no espelho e achou-se bonita. Para uma ex-barata. Maquiou-se. Todas as baratas são iguais, mas as mulheres precisam realçar sua personalidade. Adotou um nome: Vandirene. Mais tarde descobriu que só um nome não bastava. A que classe pertencia?… Tinha educação?…. Referências?… Conseguiu a muito custo um emprego como faxineira. Sua experiência de barata lhe dava acesso a sujeiras mal suspeitadas. Era uma boa faxineira.

Difícil era ser gente… Precisava comprar comida e o dinheiro não chegava. As baratas se acasalam num roçar de antenas, mas os seres humanos não. Conhecem-se, namoram, brigam, fazem as pazes, resolvem se casar, hesitam. Será que o dinheiro vai dar ? Conseguir casa, móveis, eletrodomésticos, roupa de cama, mesa e banho. Vandirene casou-se, teve filhos. Lutou muito, coitada. Filas no Instituto Nacional de Previdência Social. Pouco leite. O marido desempregado… Finalmente acertou na loteria. Quase quatro milhões ! Entre as baratas ter ou não ter quatro milhões não faz diferença. Mas Vandirene mudou. Empregou o dinheiro. Mudou de bairro. Comprou casa. Passou a vestir bem, a comer bem, a cuidar onde põe o pronome. Subiu de classe. Contratou babás e entrou na Pontifícia Universidade Católica.

Vandirene acordou um dia e viu que tinha se transformado em barata. Seu penúltimo pensamento humano foi : “Meu Deus!… A casa foi dedetizada há dois dias!…”. Seu último pensamento humano foi para seu dinheiro rendendo na financeira e que o safado do marido, seu herdeiro legal, o usaria. Depois desceu pelo pé da cama e correu para trás de um móvel. Não pensava mais em nada. Era puro instinto. Morreu cinco minutos depois , mas foram os cinco minutos mais felizes de sua vida.

Kafka não significa nada para as baratas…

Texto

   

Tratando-se do texto lido, não se pode inferir que:

  1. AO texto tem uma narrativa envolvente, que associa o humor a um caráter filosófico e questionador.
  2. BO autor faz referência à obra Metamorfose de Franz Kafka, na qual um homem se transforma em uma barata. Entretanto, aqui ocorre a transformação inversa, sendo uma barata que se humaniza, convertendo-se em mulher.
  3. CNo texto, o autor encontrou uma forma de banalizar os importantes questionamentos sobre a sociedade e o comportamento humano
  4. DEsclarece que no final da vida todas as pessoas vão igualmente perdendo a consciência, se transmutando em puro instinto.
  5. ESer barata é melhor que ser humano, pois tudo, antes, era só impulso, não havia mais problemas e a felicidade era completa.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — No texto, o autor encontrou uma forma de banalizar os importantes questionamentos sobre a sociedade e o comportamento humano

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A Metamorfose Invertida: Humor, Filosofia e a Banalização dos Questionamentos

Gabarito: letra C. A alternativa C é a única que não se pode inferir do texto, pois afirma que o autor "encontrou uma forma de banalizar os importantes questionamentos sobre a sociedade e o comportamento humano". O texto faz exatamente o oposto: ele valoriza e problematiza esses questionamentos, usando o humor e a inversão da metamorfose kafkiana para provocar reflexão sobre a condição humana, a sociedade de consumo e a perda da individualidade. A passagem que ancora essa leitura é o desfecho: "Kafka não significa nada para as baratas…", que ironiza a incompreensão do instinto diante da complexidade humana, e não a banaliza.

O comando da questão é claro: pede-se a alternativa que NÃO pode ser inferida do texto. Isso significa que devemos buscar, entre as opções, aquela que contradiz o texto, extrapola seu conteúdo ou acrescenta uma opinião que o autor não externou. As demais alternativas (A, B, D e E) são inferências legítimas, pois se apoiam em pistas textuais. A alternativa C, por sua vez, comete um erro clássico de interpretação: acrescenta um juízo de valor ("banalizar") que não encontra respaldo no texto.

O texto "A metamorfose" é uma crônica narrativa que inverte a premissa de Kafka: em vez de um homem virar barata, uma barata vira mulher (Vandirene). Essa inversão é a chave para a crítica social e filosófica presente no texto. A narrativa acompanha a trajetória de Vandirene, que, ao se humanizar, descobre as complexidades da vida em sociedade: a necessidade de trabalhar, o dinheiro que não chega, as relações amorosas complicadas, a luta para subir de classe. O texto usa o humor para abordar temas sérios, como a desigualdade social, o consumismo e a perda da identidade.

A técnica para resolver esta questão é identificar a tese do autor. O texto não banaliza os questionamentos; ele os levanta de forma crítica e irônica. A prova está no desfecho: "Morreu cinco minutos depois, mas foram os cinco minutos mais felizes de sua vida." Essa frase sugere que a vida de barata, guiada pelo instinto, é mais simples e, de certa forma, mais feliz do que a vida humana, cheia de preocupações. Essa é uma reflexão filosófica, não uma banalização. A alternativa C, ao dizer que o autor "banaliza" os questionamentos, contradiz a postura crítica e reflexiva do texto.

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta fazer o candidato confundir humor com banalização. O texto usa o humor como ferramenta para criticar, não para desqualificar. A alternativa C inverte essa relação, atribuindo ao autor uma intenção que ele não tem.

PEGA ESSA DICA!

Ao ler uma questão que pede o que "não se pode inferir", grife as palavras que expressam juízo de valor (como "banalizar", "elogiar", "criticar"). Verifique se o texto realmente sustenta essa avaliação ou se ela é uma opinião externa.

Alternativa A — ✅ Correta

A alternativa A afirma que o texto tem "uma narrativa envolvente, que associa o humor a um caráter filosófico e questionador". Isso é plenamente sustentado pelo texto. A narrativa é envolvente, pois conta a história de Vandirene de forma dinâmica e com reviravoltas (a transformação, o casamento, a loteria, a morte). O humor está presente em passagens como "Quis emitir um som de surpresa e sem querer deu um grunhido" e "Todas as baratas são iguais, mas as mulheres precisam realçar sua personalidade". O caráter filosófico e questionador aparece na reflexão sobre a condição humana: "Difícil era ser gente… Precisava comprar comida e o dinheiro não chegava." A alternativa é uma paráfrase correta do texto.

Alternativa B — ✅ Correta

A alternativa B afirma que o autor faz referência à obra "Metamorfose" de Kafka, mas com a transformação inversa. Isso é explicitamente confirmado pelo texto. O título é "A metamorfose" e a última frase é "Kafka não significa nada para as baratas…", uma referência direta ao autor. No texto de Kafka, um homem (Gregor Samsa) se transforma em um inseto. Aqui, uma barata se transforma em mulher. A alternativa B é uma inferência legítima baseada na intertextualidade.

Alternativa C — ❌ Incorreta ⟵ GABARITO

A alternativa C afirma que o autor "encontrou uma forma de banalizar os importantes questionamentos sobre a sociedade e o comportamento humano". Isso é falso. O texto não banaliza; ele problematiza. A prova está no desfecho: "Morreu cinco minutos depois, mas foram os cinco minutos mais felizes de sua vida." Essa frase não banaliza a vida humana; ela a questiona, sugerindo que a simplicidade do instinto pode ser preferível à complexidade das preocupações humanas. A alternativa C acrescenta uma opinião (a de que o autor banaliza) que não está no texto. O erro é de extrapolação e opinião embutida.

Alternativa D — ✅ Correta

A alternativa D afirma que o texto "esclarece que no final da vida todas as pessoas vão igualmente perdendo a consciência, se transmutando em puro instinto". Isso é sustentado pelo texto. No final, Vandirene, ao se transformar novamente em barata, "Não pensava mais em nada. Era puro instinto." A alternativa D é uma inferência baseada nessa passagem. O texto sugere que, na morte, a racionalidade humana dá lugar ao instinto, uma reflexão sobre a natureza humana.

Alternativa E — ✅ Correta

A alternativa E afirma que "ser barata é melhor que ser humano, pois tudo, antes, era só impulso, não havia mais problemas e a felicidade era completa". Isso é inferível do texto. A frase "Morreu cinco minutos depois, mas foram os cinco minutos mais felizes de sua vida" sugere que a vida de barata, guiada pelo instinto, é mais feliz do que a vida humana, cheia de preocupações. A alternativa E é uma inferência legítima baseada nessa passagem e na contraposição entre a vida de barata (simples) e a vida de humana (complexa).

Conclusão: A questão pede a alternativa que NÃO pode ser inferida. As alternativas A, B, D e E são inferências legítimas, apoiadas em pistas textuais. A alternativa C, ao afirmar que o autor "banaliza" os questionamentos, contradiz a postura crítica e reflexiva do texto. Portanto, a resposta correta é a letra C.

Gabarito: letra C

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