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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Instituto Consulplan 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa504424
Banca
Instituto Consulplan
Órgão
CBM SC
Ano
2023
Cargo
Of. BM ( )

Sem medo de errar

 

A atmosfera política do mês passado não foi a de um spa nas montanhas. Era abrir o celular e vinha artilharia pesada, agressões que abalavam o sistema nervoso. Cada um defendeu sua saúde mental como pôde. A leitura sempre me salva nessa hora, mas, ao invés de buscar algum livro inquietante, como gosto, me socorri com Buda, já que Deus estava sobrecarregado. Atravessei os dias lendo “Eu posso estar errado”, de Björn Natthiko Lindeblad, um monge sueco que faleceu recentemente, aos 60 anos.

 

Aos 26, ele era um economista bem-sucedido, com muitos ternos no armário e voos em classe executiva. Até que se fez a pergunta de um milhão: É isso que eu quero mesmo? A fim de buscar um sentido espiritual para sua vida, largou tudo e aterrissou com sua mochila num mosteiro na Tailândia. Ao se apresentar a um abade, escutou: “Pode ir para o dormitório. Se ainda estiver aqui daqui a três dias, raspe a cabeça”.

 

Foi uma experiência radical de desapego, isolamento e dúvidas – benditas dúvidas, que geram reflexões como a que dá título ao livro: “Eu posso estar errado”. Quantas vezes a gente diz isso para si mesmo? Duas a cada 100 anos.

 

Ele aconselha usar a frase como mantra para momentos de tensão, situações de enfrentamento, discussões virulentas. Pense: “eu posso estar errado”. A paz, subitamente, cai do céu. Fui criada para acertar, para nunca me desviar do que é correto. O que é ótimo, mas lá pelas tantas o acerto ganhou um status exagerado, a coisa foi ficando militarizada, reprimiu a espontaneidade. Ora, errar faz parte do crescimento. As pessoas se enganam, brigam, falam sem pensar, magoam, pedem desculpas, e assim, aos tropeços, vai se construindo uma identidade mais verdadeira, que se reconhece complexa, não perfeita.

 

Ninguém sabe tudo, ninguém acerta o tempo todo – os fortes são os primeiros a reconhecer. Já os fracos se apegam a discursos laudatórios autorreferentes e a uma rigidez cuja única função é disfarçar sua vulnerabilidade. Se declaram acima dos mortais e ficam lá no topo, sozinhos. Este é o isolamento fatal.

 

Não sou rigorosa com os outros, mas comigo sempre fui tirana, não me permitia falhar. Ainda me permito pouco: sou exemplar cumpridora de tarefas, atenta, educada e tudo o mais que se preza. Mas erro feio – comigo – ao não relaxar diante de eventuais vacilos e por me exigir o que não exijo de ninguém. Lidar com o erro de forma tranquila nos torna pessoas menos obsessivas, portanto, menos chatas, o que é uma contribuição para a paz mundial.

 

Então, vamos em frente buscando a eficiência possível, mas aceitando que a perfeição é um delírio e que a nossa verdade nem sempre bate com a verdade do outro. Fazer o quê? Respirar fundo. Aqui mesmo, que a Tailândia é muito longe.

 

(MEDEIROS, Martha. Sem medo de errar. Jornal O Globo, 2022. Disponível em https://oglobo.globo.com/ela/martha-medeiros/coluna/2022/11/sem-medo-de-errar.ghtml. Acesso em: 31/12/22.)

Texto

   

Segundo o texto, admitir a possibilidade de estar errado SÓ NÃO acarreta ao indivíduo:

  1. AConquista da paz interior.
  2. BAceitação da imperfeição.
  3. CAmadurecimento pessoal.
  4. DMomentos de vulnerabilidade.
  5. EConstrução de identidade complexa.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — Momentos de vulnerabilidade.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Admitir o erro e suas consequências no texto de Martha Medeiros

Gabarito: letra D. A questão pede a alternativa que NÃO é acarretada por admitir a possibilidade de estar errado. O texto associa a aceitação do erro à paz interior, à aceitação da imperfeição, ao amadurecimento e à construção de uma identidade complexa — mas não a momentos de vulnerabilidade. Pelo contrário: a vulnerabilidade é atribuída aos fracos, que se escondem atrás de rigidez, como se lê no 5º parágrafo: "Já os fracos se apegam a discursos laudatórios autorreferentes e a uma rigidez cuja única função é disfarçar sua vulnerabilidade." Portanto, a letra D contradiz o texto.

O comando: o que a banca pede

Repare no verbo do enunciado: "SÓ NÃO acarreta". Isso inverte a lógica comum: em vez de marcar o que o texto afirma, você deve marcar o que o texto não sustenta. É uma questão de compreensão (informação explícita), não de inferência — a resposta está literalmente no texto, bastando localizar as passagens que associam o erro a cada consequência. A armadilha está em ler rápido e marcar a primeira alternativa que parece correta, sem perceber que o comando pede a exceção.

O texto: a tese e o movimento argumentativo

O texto defende que errar faz parte do crescimento e que admitir a possibilidade de estar errado traz benefícios. Veja o fio condutor:

  • Paz interior: "Pense: 'eu posso estar errado'. A paz, subitamente, cai do céu." (4º parágrafo)

  • Aceitação da imperfeição: "Ora, errar faz parte do crescimento." e "aceitando que a perfeição é um delírio" (4º e 7º parágrafos)

  • Amadurecimento pessoal: "errar faz parte do crescimento" (4º parágrafo)

  • Identidade complexa: "vai se construindo uma identidade mais verdadeira, que se reconhece complexa, não perfeita" (4º parágrafo)

Agora, onde está a vulnerabilidade? No 5º parágrafo, o texto diz que os fracos usam a rigidez para disfarçar a vulnerabilidade. Ou seja, a vulnerabilidade não é consequência de admitir o erro — é algo que a rigidez tenta esconder. A alternativa D inverte essa relação.

A técnica: teste cada alternativa com a pergunta "o texto autoriza?"

Para cada alternativa, pergunte: "o texto diz que admitir o erro leva a isso?" Se sim, elimine. Se não, é o gabarito. Veja:

  • A) Conquista da paz interior — o texto diz explicitamente: "A paz, subitamente, cai do céu." Autorizado. Eliminada.

  • B) Aceitação da imperfeição — o texto diz: "aceitando que a perfeição é um delírio". Autorizado. Eliminada.

  • C) Amadurecimento pessoal — o texto diz: "errar faz parte do crescimento". Autorizado. Eliminada.

  • D) Momentos de vulnerabilidade — o texto não diz isso; pelo contrário, associa vulnerabilidade à rigidez dos fracos. Não autorizado. É o gabarito.

  • E) Construção de identidade complexa — o texto diz: "vai se construindo uma identidade mais verdadeira, que se reconhece complexa". Autorizado. Eliminada.

Análise das alternativas

Alternativa A — ❌ Incorreta

O texto autoriza: "Pense: 'eu posso estar errado'. A paz, subitamente, cai do céu." Admitir o erro traz paz interior. A alternativa é uma paráfrase fiel. Como a banca pede a que não acarreta, esta está fora.

Alternativa B — ❌ Incorreta

O texto autoriza: "aceitando que a perfeição é um delírio" e "errar faz parte do crescimento". Aceitar o erro implica aceitar a imperfeição. Paráfrase correta. Fora.

Alternativa C — ❌ Incorreta

O texto autoriza: "errar faz parte do crescimento". Crescimento é amadurecimento. Paráfrase correta. Fora.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

O texto não diz que admitir o erro leva a momentos de vulnerabilidade. Pelo contrário, o 5º parágrafo afirma que os fracos usam a rigidez para disfarçar a vulnerabilidade: "Já os fracos se apegam a discursos laudatórios autorreferentes e a uma rigidez cuja única função é disfarçar sua vulnerabilidade." Ou seja, a vulnerabilidade é algo que se esconde, não algo que o erro traz. A alternativa contradiz o texto ao inverter a relação.

Alternativa E — ❌ Incorreta

O texto autoriza: "vai se construindo uma identidade mais verdadeira, que se reconhece complexa, não perfeita". Admitir o erro ajuda a construir identidade complexa. Paráfrase correta. Fora.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a inversão de sentido: a vulnerabilidade aparece no texto, mas associada à rigidez dos fracos, não à aceitação do erro. Quem lê rápido pode achar que "vulnerabilidade" é consequência de admitir o erro, mas o texto diz o oposto.

PEGA ESSA DICA!

Em questões com "SÓ NÃO", grife o comando e teste cada alternativa com a pergunta "o texto autoriza?". A correta será a única que o texto não sustenta — e muitas vezes ela contradiz uma passagem.

Gabarito: letra D.

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