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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Instituto Consulplan 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa504428
Banca
Instituto Consulplan
Órgão
CBM SC
Ano
2023
Cargo
Sold BM ( )

Tempo incerto

 

Os homens têm complicado tanto o mecanismo da vida que já ninguém tem certeza de nada: para se fazer alguma coisa é preciso aliar a um impulso de aventura grandes sombras de dúvida. Não se acredita mais nem na existência de gente honesta; e os bons têm medo de exercitarem sua bondade, para não serem tratados de hipócritas ou de ingênuos.

 

Chegamos a um ponto em que a virtude é ridícula e os mais vis sentimentos se mascaram de grandiosidade, simpatia, benevolência. A observação do presente leva‐nos até a descer dos exemplos do passado: os varões ilustres de outras eras terão sido realmente ilustres? Ou a História nos está contando as coisas ao contrário, pagando com dinheiros dos testamentos a opinião dos escribas?

 

Se prestarmos atenção ao que nos dizem sobre as coisas que nós mesmos presenciamos – ou temos que aceitar a mentira como a arte mais desenvolvida do nosso tempo, ou desconfiaremos do nosso próprio testemunho, e acabamos no hospício!

 

Pois assim é, meus senhores! Prestai atenção às coisas que vos contam, em família, na rua, nos cafés, em várias letras de forma, e dizei‐me se não estão incertos os tempos e se não devemos todos andar de pulga atrás da orelha!

 

A minha esperança estava no fim do mundo, com anjos descendo do céu; anjos suaves e anjos terríveis; os suaves para conduzirem os que se sentarão à direita de Deus, e os terríveis para os que se dirigem ao lado oposto. Mas até o fim do mundo falhou; até os profetas se enganam, a menos que as rezas dos justos tenham podido adiar a catástrofe que, afinal, seria também uma apoteose. E assim continuaremos a quebrar a cabeça com estes enigmas cotidianos.

 

Os pedestres pensam que devem andar no meio da rua. Os motoristas pensam que devem pôr os veículos nas calçadas. Até os bondes, que mereciam a minha confiança, deram para sair dos trilhos. Os analfabetos, que deviam aprender, ensinam! Os revólveres, que eram consideradas armas perigosas, e para os quais se olhava a distância, como quem contempla a Revolução Francesa ou a Guerra do Paraguai – pois os revólveres andam agora em todos os bolsos, como troco miúdo. E a vocação das pessoas, hoje em dia, não é nem para o diálogo com ou sem palavras, mas para balas de diversos calibres. Perto disso a carestia da vida é um ramo de flores. O que anda mesmo caro é a alma. E o demônio passeia pelo mundo, glorioso e impune.

 

(Cecília Meireles. 1901‐1964. Escolha o seu sonho. Crônicas. 26ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2005. Adaptado.)

Considerando os elementos semântico-textuais e as informações apresentadas, é possível aferir que, principalmente, a autora tem por objetivo
  1. Apersuadir sobre seu inconformismo a respeito das virtudes e vicissitudes sociais.
  2. Besclarecer acerca das concepções vigentes que deverão ser consideradas em benefício da humanidade.
  3. Crevelar a necessidade de se falar sobre todos, a fim de construir uma sociedade mais justa e igualitária.
  4. Dmostrar que nos costumes contemporâneos da sociedade há uma troca de valores; o que a torna descrente, cética.
  5. Eenfatizar que estamos no fim do mundo e devemos eternizar a bondade para o bem de toda a humanidade.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — mostrar que nos costumes contemporâneos da sociedade há uma troca de valores; o que a torna descrente, cética.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Objetivo do texto: a troca de valores na sociedade contemporânea

Gabarito: letra D. A crônica de Cecília Meireles tem como objetivo central mostrar que nos costumes contemporâneos da sociedade há uma troca de valores, o que a torna descrente e cética. Essa leitura se ancora em passagens como “Chegamos a um ponto em que a virtude é ridícula e os mais vis sentimentos se mascaram de grandiosidade” e “O que anda mesmo caro é a alma”, que evidenciam a inversão de valores e o ceticismo da autora diante do presente.

O comando pede que se afira o objetivo principal do texto — uma tarefa de compreensão global, que exige captar a tese que organiza a crônica, não uma informação pontual. Para isso, é preciso identificar o tema (a crise de valores e a descrença na sociedade) e a atitude da autora (cética, irônica, desiludida), que se manifesta do início ao fim. A alternativa correta precisa sintetizar esse movimento, sem acrescentar ideias que o texto não sustenta.

A crônica desenvolve uma argumentação sobre a inversão de valores: a virtude virou motivo de ridículo, os sentimentos vis se disfarçam de nobres, a mentira parece ser a arte mais desenvolvida, e até os referenciais de confiança (bondes, revólveres, profetas) falham. A autora não propõe soluções nem faz um apelo à ação; ela constata e ironiza o estado das coisas, fechando com a imagem do demônio que “passeia pelo mundo, glorioso e impune”. Esse tom de desencanto é a chave para distinguir a correta das distratoras.

A técnica decisiva é testar cada alternativa contra o texto: a correta deve ser uma paráfrase fiel da tese, sem acrescentar opiniões, sem restringir o alcance e sem contradizer o que está escrito. As distratoras, em geral, extrapolam (vão além do que o texto diz) ou tangenciam (falam de assunto correlato, mas não central). Vejamos cada uma.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa diz que a autora quer persuadir sobre seu inconformismo a respeito das virtudes e vicissitudes sociais. O texto, de fato, expressa inconformismo, mas o objetivo não é persuadir — a crônica não busca convencer o leitor a adotar uma posição, e sim expor uma visão crítica e irônica da sociedade. Além disso, “vicissitudes” é um termo genérico que não capta a especificidade da troca de valores que a autora denuncia. A alternativa extrapola ao atribuir uma intenção persuasiva que não está no texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a autora quer esclarecer acerca das concepções vigentes que deverão ser consideradas em benefício da humanidade. O texto não tem caráter expositivo-esclarecedor; ele é crítico e irônico. Além disso, a ideia de “benefício da humanidade” é uma opinião embutida que o texto não sustenta — a autora não propõe soluções nem indica o que “deveria” ser considerado. A alternativa contradiz o tom do texto, que é de desencanto, não de orientação.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa diz que a autora quer revelar a necessidade de se falar sobre todos, a fim de construir uma sociedade mais justa e igualitária. O texto não menciona “falar sobre todos” nem defende a construção de uma sociedade justa e igualitária. Essa é uma extrapolação clara: a autora critica a inversão de valores, mas não propõe um projeto social. A alternativa tangencia o tema, pois fala de justiça social, que não é o foco da crônica.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa D sintetiza com precisão o objetivo do texto: mostrar que nos costumes contemporâneos da sociedade há uma troca de valores; o que a torna descrente, cética. Isso está ancorado em várias passagens:

“Chegamos a um ponto em que a virtude é ridícula e os mais vis sentimentos se mascaram de grandiosidade, simpatia, benevolência.”

Aqui está a troca de valores: o que era virtude virou ridículo, e o que é vil se disfarça de nobre. A autora também expressa descrença ao questionar a veracidade da História:

“os varões ilustres de outras eras terão sido realmente ilustres? Ou a História nos está contando as coisas ao contrário”

E o ceticismo se intensifica no final:

“O que anda mesmo caro é a alma. E o demônio passeia pelo mundo, glorioso e impune.”

A expressão “o que anda mesmo caro é a alma” é uma metáfora da perda de valores espirituais em favor de interesses materiais. A alternativa D capta exatamente essa inversão de valores e a atitude cética da autora, sem acrescentar nada que o texto não diga.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a autora quer enfatizar que estamos no fim do mundo e devemos eternizar a bondade para o bem de toda a humanidade. O texto menciona o fim do mundo, mas de forma irônica e desiludida: “Mas até o fim do mundo falhou; até os profetas se enganam”. A autora não acredita que o fim do mundo seja uma solução, e muito menos propõe “eternizar a bondade” — isso é uma extrapolação com um apelo moral que o texto não faz. A alternativa distorce o sentido da passagem sobre o fim do mundo.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a extrapolação com ideias que parecem plausíveis (persuasão, justiça social, fim do mundo), mas que não estão no texto. A correta é a única que sintetiza a tese sem acrescentar nada.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar o objetivo de um texto, pergunte-se: “o autor quer persuadir, informar, criticar ou emocionar?”. Aqui, o tom é crítico e irônico, o que elimina as alternativas que sugerem intenção persuasiva ou expositiva.

Conclusão: a alternativa D é a única que parafraseia fielmente a tese central da crônica — a troca de valores e o ceticismo da autora. As demais ou extrapolam (A, C, E) ou contradizem o tom do texto (B).

Gabarito: letra D

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