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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Instituto Consulplan 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa504430
Banca
Instituto Consulplan
Órgão
CBM SC
Ano
2023
Cargo
Sold BM ( )

Tempo incerto

 

Os homens têm complicado tanto o mecanismo da vida que já ninguém tem certeza de nada: para se fazer alguma coisa é preciso aliar a um impulso de aventura grandes sombras de dúvida. Não se acredita mais nem na existência de gente honesta;(b) e os bons têm medo de exercitarem sua bondade, para não serem tratados de hipócritas ou de ingênuos.

 

Chegamos a um ponto em que a virtude é ridícula e os mais vis sentimentos se mascaram de grandiosidade, simpatia, benevolência.(d) A observação do presente leva‐nos até a descer dos exemplos do passado: os varões ilustres de outras eras terão sido realmente ilustres? Ou a História nos está contando as coisas ao contrário, pagando com dinheiros dos testamentos a opinião dos escribas?

 

Se prestarmos atenção ao que nos dizem sobre as coisas que nós mesmos presenciamos – ou temos que aceitar a mentira como a arte mais desenvolvida do nosso tempo, ou desconfiaremos do nosso próprio testemunho, e acabamos no hospício!

 

Pois assim é, meus senhores! Prestai atenção às coisas que vos contam, em família, na rua, nos cafés, em várias letras de forma, e dizei‐me se não estão incertos os tempos e se não devemos todos andar de pulga atrás da orelha!

 

A minha esperança estava no fim do mundo, com anjos descendo do céu; anjos suaves e anjos terríveis; os suaves para conduzirem os que se sentarão à direita de Deus, e os terríveis para os que se dirigem ao lado oposto. Mas até o fim do mundo falhou;(a) até os profetas se enganam, a menos que as rezas dos justos tenham podido adiar a catástrofe que, afinal, seria também uma apoteose. E assim continuaremos a quebrar a cabeça com estes enigmas cotidianos.

 

Os pedestres pensam que devem andar no meio da rua. Os motoristas pensam que devem pôr os veículos nas calçadas.(d) Até os bondes, que mereciam a minha confiança, deram para sair dos trilhos. Os analfabetos, que deviam aprender, ensinam! Os revólveres, que eram consideradas armas perigosas, e para os quais se olhava a distância, como quem contempla a Revolução Francesa ou a Guerra do Paraguai – pois os revólveres andam agora em todos os bolsos, como troco miúdo. E a vocação das pessoas, hoje em dia, não é nem para o diálogo com ou sem palavras, mas para balas de diversos calibres.(c) Perto disso a carestia da vida é um ramo de flores. O que anda mesmo caro é a alma. E o demônio passeia pelo mundo, glorioso e impune.

 

(Cecília Meireles. 1901‐1964. Escolha o seu sonho. Crônicas. 26ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2005. Adaptado.)

Dentre os trechos a seguir, apenas um apresenta o ponto de vista da autora e não somente uma informação como os demais; indique‐o.
  1. A“Mas até o fim do mundo falhou; [...]”
  2. B“Não se acredita mais nem na existência de gente honesta; [...]”
  3. C“Os motoristas pensam que devem pôr os veículos nas calçadas.”
  4. D“E a vocação das pessoas, hoje em dia, não é nem para o diálogo com ou sem palavras, mas para balas de diversos calibres.”
  5. E“Chegamos a um ponto em que a virtude é ridícula e os mais vis sentimentos se mascaram de grandiosidade, simpatia, benevolência.”
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — “Chegamos a um ponto em que a virtude é ridícula e os mais vis sentimentos se mascaram de grandiosidade, simpatia, benevolência.”

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Ponto de vista da autora versus informação factual

Gabarito: letra E. A única alternativa que apresenta o ponto de vista da autora — e não apenas uma informação — é a que afirma: “Chegamos a um ponto em que a virtude é ridícula e os mais vis sentimentos se mascaram de grandiosidade, simpatia, benevolência.” Essa passagem expressa um juízo de valor (a virtude é ridícula; os sentimentos vis se mascaram), uma avaliação subjetiva da cronista sobre o estado do mundo, e não um dado objetivo. As demais alternativas descrevem situações ou crenças relatadas, sem carregar uma opinião explícita da autora.

O comando pede que se distinga ponto de vista (opinião, avaliação, julgamento) de informação (fato, dado, constatação impessoal). Essa é uma questão clássica de fato × opinião, e a técnica é identificar marcas de subjetividade: adjetivos valorativos, verbos de opinião, modalizadores e construções que revelem a voz do autor julgando a realidade.

No texto, a autora constrói uma crônica de tom pessimista e irônico sobre a desconfiança generalizada e a inversão de valores. Ela relata fatos (pessoas não acreditam em honestidade, motoristas pensam em pôr veículos nas calçadas, revólveres andam nos bolsos) e, em meio a eles, emite avaliações (a virtude é ridícula, a alma está cara). A alternativa E concentra exatamente essa avaliação.

“Chegamos a um ponto em que a virtude é ridícula e os mais vis sentimentos se mascaram de grandiosidade, simpatia, benevolência.”

Aqui, “virtude é ridícula” e “sentimentos se mascaram” são julgamentos: a autora não constata um fato verificável, mas interpreta a realidade, atribuindo-lhe um sentido negativo. É a voz opinativa da cronista, e não uma informação neutra.

As demais alternativas são informações — constatações ou relatos de situações, ainda que carreguem certa ironia, não expressam uma opinião direta da autora sobre o valor das coisas.

Fato × Opinião
  • 1Informação (fato)
    • Constatação impessoal
    • Relato do que se pensa/faz
    • Sem juízo de valor
  • 2Ponto de vista (opinião)
    • Avaliação subjetiva
    • Juízo de valor (bom/ruim)
    • Marcas de subjetividade
      • Adjetivos valorativos
      • Verbos de opinião
      • Modalizadores
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Alternativa A — ❌ Incorreta

“Mas até o fim do mundo falhou; [...]”

Essa frase relata um fato (a falha do fim do mundo), ainda que metaforicamente. Não há juízo de valor explícito; é uma constatação irônica, mas não uma opinião sobre o que é bom ou ruim. A autora não avalia o fim do mundo como ridículo ou grandioso; apenas afirma que ele falhou. É informação, não ponto de vista.

Alternativa B — ❌ Incorreta

“Não se acredita mais nem na existência de gente honesta; [...]”

Essa é uma constatação sobre o comportamento das pessoas — um fato social relatado. A autora não emite opinião sobre se isso é bom ou ruim; apenas descreve a descrença generalizada. É informação, não avaliação.

Alternativa C — ❌ Incorreta

“Os motoristas pensam que devem pôr os veículos nas calçadas.”

Aqui há um relato do que os motoristas pensam — uma informação sobre a opinião de terceiros, não a opinião da autora. A cronista não diz que isso é certo ou errado; apenas constata o pensamento alheio. É informação, não ponto de vista.

Alternativa D — ❌ Incorreta

“E a vocação das pessoas, hoje em dia, não é nem para o diálogo com ou sem palavras, mas para balas de diversos calibres.”

Embora tenha tom irônico, essa frase é uma constatação sobre a vocação das pessoas — um fato observado. A autora não avalia se isso é bom ou ruim; apenas descreve a tendência. É informação, não opinião explícita.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

“Chegamos a um ponto em que a virtude é ridícula e os mais vis sentimentos se mascaram de grandiosidade, simpatia, benevolência.”

Esta é a única que expressa ponto de vista: a autora avalia a virtude como ridícula e os sentimentos vis como mascarados. São juízos de valor, não fatos. A presença de adjetivos valorativos (“ridícula”) e da ideia de “mascarar” (enganar) revela a opinião da cronista sobre a inversão de valores do seu tempo.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre fato e opinião. Alternativas como C e D parecem opinativas por terem tom irônico, mas são constatações — descrevem o que as pessoas pensam ou fazem, sem julgamento da autora. A E é a única que avalia a realidade.

PEGA ESSA DICA!

Para distinguir fato de opinião, pergunte: “a autora está julgando (bom/ruim, certo/errado) ou apenas relatando?”. Palavras como “ridícula”, “mascarar”, “grandiosidade” são pistas de avaliação.

Conclusão: a questão pede o trecho que expressa o ponto de vista da autora, e não uma mera informação. A alternativa E é a única que contém juízo de valor explícito, sendo, portanto, o gabarito.

Gabarito: letra E

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