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Questão de Português — Figuras de Linguagem — Quadrix 2023

PortuguêsFiguras de Linguagem
Código
qa504465
Banca
Quadrix
Órgão
CRESS 16 (AL)
Ano
2023
Cargo
ATA ( )

TEXTO I


Toda sexta-feira, o ônibus azul e branco estacionado no pátio da Vara da Infância e da Juventude, na Praça Onze, Centro do Rio, sacoleja com o entra e sai de gente a partir das 9 h. Do lado de fora, nunca menos de 50 pessoas, todas pobres ou muito pobres, quase todas negras, cercam o veículo, perguntam, sentam e levantam, perguntam de novo e esperam sem reclamar o tempo que for preciso. Adultos, velhos e crianças estão ali para conseguir o que, no Brasil, é oficialmente reconhecido como o primeiro documento da vida − a certidão de nascimento.


Ao longo do discurso desses entrevistados, fica clara a forma como os usuários se definem: “zero à esquerda”, “cachorro”, “um nada”, “pessoa que não existe”, entre outras; todas são expressões que conformam claramente a ideia da pessoa sem registro de nascimento sobre si mesma como uma pessoa sem valor, cuja existência nunca foi oficialmente reconhecida pelo Estado.


F. M. Escóssia. Invisíveis: uma etnografia sobre identidade, direitos e cidadania nas trajetórias de brasileiros sem documento. Tese (doutorado em história, política e bens culturais). Fundação Getúlio Vargas: Rio de Janeiro, 2019 (com adaptações).


TEXTO II

Imagem associada para resolução da questão

Internet: <www.ufrgs.br>.

 

TEXTO III


“Assistentes sociais medeiam o reconhecimento da cidadania prevista na Constituição Federal de 1988 e em outras legislações sociais, o que repercute nos índices de desenvolvimento e na garantia da dignidade das pessoas. Outra contribuição igualmente importante é dar voz aos cidadãos, que, muitas vezes, se encontram em situação de desproteção social e que, em função de sua condição, são considerados invisíveis aos olhos da sociedade capitalista em que vivemos, mas é importante dizer que não são”, enfatiza.


Internet: <www.noticias.cruzeirodosuleducacional.edu.br>.

A atuação do profissional de serviço social e a importância da profissão para o desenvolvimento regional (com adaptações).

Textos para o item.

 

No que se refere aos aspectos de composição linguística e às classificações quanto ao gênero dos textos I, II e III, julgue o item.

 

O termo “pessoa que não existe” configura o uso da figura de linguagem denominada paradoxo.

  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Certo

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Paradoxo ou não? A classificação de "pessoa que não existe"

Gabarito: letra C (Certo). O termo "pessoa que não existe" configura, sim, o uso da figura de linguagem denominada paradoxo, pois une termos contraditórios — "pessoa" (algo que existe) e "não existe" (negação da existência) — para expressar uma ideia aparentemente absurda, mas que, no contexto, reforça a condição de invisibilidade social do indivíduo sem registro de nascimento. Como se lê no TEXTO I, os entrevistados se definem com expressões que conformam "a ideia da pessoa sem registro de nascimento sobre si mesma como uma pessoa sem valor, cuja existência nunca foi oficialmente reconhecida pelo Estado".

O comando da questão

O enunciado pede um julgamento Certo/Errado sobre uma afirmação de natureza metalinguística: não se pergunta o que o texto diz, mas se a classificação gramatical/estilística atribuída a um termo do texto está correta. Isso muda completamente a estratégia de resolução: em vez de buscar uma paráfrase ou inferência sobre o conteúdo, você precisa dominar o conceito de paradoxo e testá-lo no trecho específico.

A banca não quer saber se a expressão é triste, se reflete a realidade ou se é adequada ao contexto — quer saber se ela é um paradoxo. A resposta, portanto, mora na definição da figura de linguagem aplicada ao termo, e não na interpretação global do texto.

O que é paradoxo (e o que não é)

O paradoxo (também chamado de oxímoro quando a contradição se dá entre palavras justapostas) é uma figura de pensamento que consiste em unir termos ou ideias contraditórias que, à primeira vista, se excluem mutuamente, mas que, no contexto, produzem um efeito expressivo. É a expressão de um pensamento aparentemente absurdo, mas que encerra uma verdade profunda.

Veja a definição clássica:

"Paradoxo – consiste na expressão de pensamentos antitéticos aparentemente absurdos: Vivo sem viver em mim."

O exemplo "Vivo sem viver em mim" (Santa Teresa d'Ávila) é o paradigma: "vivo" e "sem viver" são contraditórios, mas a expressão comunica um estado espiritual de desprendimento. No nosso caso, "pessoa que não existe" segue exatamente o mesmo mecanismo: "pessoa" pressupõe existência; "não existe" a nega. A contradição é o coração da figura.

Aplicando ao texto

No TEXTO I, a expressão aparece na fala dos entrevistados, que se autodefinem como "zero à esquerda", "cachorro", "um nada", "pessoa que não existe". O autor explica o sentido:

"todas são expressões que conformam claramente a ideia da pessoa sem registro de nascimento sobre si mesma como uma pessoa sem valor, cuja existência nunca foi oficialmente reconhecida pelo Estado."

A contradição é deliberada e expressiva: a pessoa existe (é um ser humano de carne e osso, ali na fila do ônibus), mas, para o Estado, ela não existe (não tem certidão de nascimento, não tem identidade oficial). O paradoxo materializa linguisticamente essa dupla condição — existir fisicamente e não existir juridicamente. É exatamente isso que a figura faz: une os contrários para produzir um sentido novo e impactante.

Por que a afirmação está correta

A afirmação do item é: "O termo 'pessoa que não existe' configura o uso da figura de linguagem denominada paradoxo." Testando:

  1. Há contradição? Sim. "Pessoa" (ser que existe) + "não existe" (negação da existência).

  2. A contradição é aparente? Sim. No plano físico, a pessoa existe; no plano jurídico-social, não.

  3. A contradição produz efeito expressivo? Sim. Reforça a invisibilidade e a exclusão social.

Os três critérios são satisfeitos. A classificação está correta.

Distinção importante: paradoxo × antítese

A banca poderia tentar confundir o candidato com a antítese. A diferença é sutil, mas decisiva:

Critério

Antítese

Paradoxo

Natureza

Oposição de ideias ou palavras

Contradição interna a uma ideia

Efeito

Contrasta dois polos

Funde os contrários num só

Exemplo

"O amor e o ódio caminham juntos"

"Pessoa que não existe"

Na antítese, os termos opostos coexistem sem se anularem (amor E ódio). No paradoxo, os termos se contradizem mutuamente dentro da mesma expressão (pessoa QUE NÃO EXISTE). Aqui, a contradição é interna ao sintagma — não há dois polos separados, há uma única ideia autodestrutiva. Por isso é paradoxo, não antítese.

Conclusão

A questão cobra, na verdade, o domínio do conceito de paradoxo aplicado a um trecho específico. A expressão "pessoa que não existe" é um caso clássico: une o substantivo "pessoa" (que implica existência) à negação "não existe", criando uma contradição aparente que, no contexto, expressa a invisibilidade social do indivíduo sem registro. O item está certo.

PEGA ESSA DICA!

Para identificar paradoxo, pergunte: "há uma contradição interna na própria expressão?" Se sim, é paradoxo. Se há apenas oposição entre duas ideias separadas, é antítese. Essa distinção resolve a maioria das questões de figuras de linguagem.

Gabarito: letra C (Certo).

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