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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Avança SP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa504585
Banca
Avança SP
Órgão
Pref Americana
Ano
2023
Cargo
Prof ( )

Tecnologia

Para começar, ele nos olha nos olha na cara. Não é como a máquina de escrever, que a gente olha de cima, com superioridade. Com ele é olho no olho ou tela no olho. Ele nos desafia. Parece estar dizendo: vamos lá, seu desprezível pré-eletrônico, mostre o que você sabe fazer. A máquina de escrever faz tudo que você manda, mesmo que seja a tapa. Com o computador é diferente. Você faz tudo que ele manda. Ou precisa fazer tudo ao modo dele, senão ele não aceita. Simplesmente ignora você. Mas se apenas ignorasse ainda seria suportável. Ele responde. Repreende. Corrige. Uma tela vazia, muda, nenhuma reação aos nossos comandos digitais, tudo bem. Quer dizer, você se sente como aquele cara que cantou a secretária eletrônica. É um vexame privado. Mas quando você o manda fazer alguma coisa, mas manda errado, ele diz “Errado”. Não diz “Burro”, mas está implícito. É pior, muito pior. Às vezes, quando a gente erra, ele faz “bip”. Assim, para todo mundo ouvir. Comecei a usar o computador na redação do jornal e volta e meia errava. E lá vinha ele: “Bip!” “Olha aqui, pessoal: ele errou.” “O burro errou!” Outra coisa: ele é mais inteligente que você. Sabe muito mais coisa e não tem nenhum pudor em dizer que sabe. Esse negócio de que qualquer máquina só é tão inteligente quanto quem a usa não vale com ele. Está subentendido, nas suas relações com o computador, que você jamais aproveitará metade das coisas que ele tem para oferecer. Que ele só desenvolverá todo o seu potencial quando outro igual a ele o estiver programando. A máquina de escrever podia ter recursos que você nunca usaria, mas não tinha a mesma empáfia, o mesmo ar de quem só aguentava os humanos por falta de coisa melhor, no momento. E a máquina, mesmo nos seus instantes de maior impaciência conosco, jamais faria “bip” em público. Dito isto, é preciso dizer também que quem provou pela primeira vez suas letrinhas dificilmente voltará à máquina de escrever sem a sensação de que está desembarcando de uma Mercedes e voltando à carroça. Está certo, jamais teremos com ele a mesma confortável cumplicidade que tínhamos com a velha máquina. É outro tipo de relacionamento, mais formal e exigente. Mas é fascinante. Agora compreendo o entusiasmo de gente como Millôr Fernandes e Fernando Sabino, que dividem a sua vida profissional em antes dele e depois dele. Sinto falta do papel e da fiel Bic, sempre pronta a inserir entre uma linha e outra a palavra que faltou na hora, e que nele foi substituída por um botão, que, além de mais rápido, jamais nos sujará os dedos, mas acho que estou sucumbindo. Sei que nunca seremos íntimos, mesmo porque ele não ia querer se rebaixar a ser meu amigo, mas retiro tudo o que pensei sobre ele. Claro que você pode concluir que eu só estou querendo agradá-lo, precavidamente, mas juro que é sincero. Quando saí da redação do jornal depois de usar o computador pela primeira vez, cheguei em casa e bati na minha máquina. Sabendo que ela aguentaria sem reclamar, como sempre, a pobrezinha.

Luis Fernando Verissimo

 

O texto refere-se por diversas vezes à “máquina de escrever” porque:
  1. Ao autor escreveu o texto à máquina de escrever
  2. Bo eu lírico detesta máquina de escrever
  3. Csó tinha a opção de escrever um texto se fosse em máquina de escrever
  4. Do eu lírico faz um paralelo de escrita: máquina de escrever x computador
  5. Eo computador refere-se ao eu lírico como sendo “burro”
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GabaritoD — o eu lírico faz um paralelo de escrita: máquina de escrever x computador

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Função da Máquina de Escrever no Texto de Verissimo

Gabarito: letra D. O texto recorre à máquina de escrever para estabelecer um paralelo entre ela e o computador, contrastando as duas formas de escrita ao longo de toda a crônica. A passagem que comprova isso é a comparação explícita: “A máquina de escrever faz tudo que você manda, mesmo que seja a tapa. Com o computador é diferente.” — é esse contraste que estrutura o texto.

O comando pede uma compreensão (informação explícita): “O texto refere-se por diversas vezes à ‘máquina de escrever’ porque”. Ou seja, a resposta deve estar literalmente no texto, não ser deduzida de fora. A pergunta é: qual é a função dessa referência repetida? A resposta é o paralelo comparativo entre os dois instrumentos de escrita.

O texto de Luis Fernando Verissimo é uma crônica em que o narrador (eu lírico) descreve sua relação com o computador, sempre comparando-o à máquina de escrever. Desde o início, ele opõe os dois: “Não é como a máquina de escrever, que a gente olha de cima, com superioridade. Com ele é olho no olho”. Essa oposição percorre todo o texto: a máquina é submissa (“faz tudo que você manda”), o computador é autoritário (“Você faz tudo que ele manda”); a máquina é íntima (“confortável cumplicidade”), o computador é formal (“mais formal e exigente”). No final, ele reforça: “Está certo, jamais teremos com ele a mesma confortável cumplicidade que tínhamos com a velha máquina.” Portanto, a máquina de escrever é o termo de comparação que dá sentido à experiência com o computador.

A técnica para resolver: localize a ideia central do texto (o contraste entre as duas máquinas) e veja qual alternativa parafraseia essa função. A alternativa D diz exatamente isso: “o eu lírico faz um paralelo de escrita: máquina de escrever x computador”. É a única que não acrescenta nada além do que o texto afirma.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a extrapolação — oferece alternativas que parecem plausíveis, mas que não estão no texto (como “o autor escreveu o texto à máquina” ou “o computador chama o eu lírico de burro”). A correta é a que se limita ao que está escrito.

1Termo de comparação
Máquina: submissa ("faz tudo que você manda")
Computador: autoritário ("você faz tudo que ele manda")
2Contraponto afetivo
Cumplicidade com a máquina
Formalidade do computador
3Estrutura o texto
Oposição percorre a crônica
Dá sentido à experiência com o computador
Função da máquina de escrever
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Função da máquina de escrever: Termo de comparação (Máquina: submissa ("faz tudo que você manda"), Computador: autoritário ("você faz tudo que ele manda")); Contraponto afetivo (Cumplicidade com a máquina, Formalidade do computador); Estrutura o texto (Oposição percorre a crônica, Dá sentido à experiência com o computador)

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto não diz que o autor escreveu o texto à máquina de escrever. Pelo contrário, ele relata sua experiência com o computador: “Comecei a usar o computador na redação do jornal”. Não há nenhuma informação sobre o instrumento usado para escrever a crônica. A alternativa inventa um dado que não está no texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. O narrador não detesta a máquina de escrever; ele tem saudade dela. Veja: “Sinto falta do papel e da fiel Bic” e “jamais teremos com ele a mesma confortável cumplicidade que tínhamos com a velha máquina”. Há até um gesto de carinho: “cheguei em casa e bati na minha máquina. Sabendo que ela aguentaria sem reclamar, como sempre, a pobrezinha.” A alternativa inverte o sentimento do autor.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto não afirma que o autor só podia escrever em máquina de escrever. Ele usa a máquina como comparação, não como única opção. A alternativa cria uma restrição que não existe no texto.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Correta. O texto estrutura-se no paralelo entre a máquina de escrever e o computador. A prova está nas comparações explícitas:

“A máquina de escrever faz tudo que você manda, mesmo que seja a tapa. Com o computador é diferente. Você faz tudo que ele manda.”

E também:

“Está certo, jamais teremos com ele a mesma confortável cumplicidade que tínhamos com a velha máquina.”

A máquina de escrever é o termo de comparação que permite ao autor descrever a relação com o computador. A alternativa D parafraseia essa função: “faz um paralelo de escrita: máquina de escrever x computador”.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação e contradiz o texto. O texto não diz que o computador chama o eu lírico de “burro”. O que há é uma sugestão (subentendido): “Não diz ‘Burro’, mas está implícito.” O computador não fala com o autor; é o autor que interpreta o “Errado” como uma repreensão. A alternativa transforma uma inferência subjetiva em fato literal, o que o texto não autoriza.

Conclusão: a questão testa a compreensão da função das referências no texto. A máquina de escrever não é o tema, mas o contraponto que ilumina o computador. Ao marcar, pergunte-se: “o texto autoriza essa afirmação, ou ela exige acrescentar algo de fora?”. A única que se sustenta integralmente é a letra D.

Gabarito: letra D

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