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Questão de Português — Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc) — Avança SP 2023

PortuguêsCoerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)
Código
qa504600
Banca
Avança SP
Órgão
Pref Americana
Ano
2023
Cargo
APS ( )

A pipoca

 

A culinária me fascina. De vez em quando eu até me até atrevo a cozinhar. Mas o fato é que sou mais competente com as palavras do que com as panelas. (...)

 

Sabedor das minhas limitações e competências, nunca escrevi como chefe. Escrevi como filósofo, poeta, psicanalista e teólogo — porque a culinária estimula todas essas funções do pensamento.

 

As comidas, para mim, são entidades oníricas

 

Provocam a minha capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretanto, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu. (...)

 

A pipoca é um milho mirrado, subdesenvolvido.

 

Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a ideia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos. (...)

 

Repentinamente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebradentes se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária, em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas! (...)

 

para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebradentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa — voltar a ser crianças! Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo.

 

Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.

 

Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. (...)

 

O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão — sofrimentos cujas causas ignoramos. (...)

 

Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. (...) A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: PUF!! — e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante. (...)

 

Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas, descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar.

 

Meu amigo William, extraordinário professor pesquisador da Unicamp, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma explicação científica para os piruás. Mas, no mundo da poesia, as explicações científicas não valem. (...)

 

Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. (...) A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo da panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.

 

Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira...

 

ALVES, Rubem. A pipoca. In:_____. O amor que acende a lua. Campinas, SP: Papirus, 1999.

O pronome destacado na passagem “(...) sofrimentos cujas causas ignoramos.” estabelece uma relação coesiva, recuperando, no texto, o termo:

  1. A“ansiedade”.
  2. B“sofrimentos”.
  3. C“causas”.
  4. D“pipoca”.
  5. E“depressão”.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — “sofrimentos”.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Coesão Referencial: O Pronome Relativo "Cujas"

Gabarito: letra B. O pronome "cujas" em "sofrimentos cujas causas ignoramos" retoma o termo "sofrimentos", estabelecendo uma relação de posse entre esse substantivo e "causas". A prova está na própria estrutura da frase: "cujas" é um pronome relativo que sempre aparece entre dois substantivos, indicando que o segundo (causas) pertence ao primeiro (sofrimentos).

"Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão — sofrimentos cujas causas ignoramos."

O pronome "cujas" concorda em gênero e número com o substantivo que o segue ("causas", feminino plural), mas o seu referente — o termo que ele retoma — é o substantivo que o precede: "sofrimentos". A relação é de posse: as causas dos sofrimentos.

O Comando: Coesão Referencial

A questão pede que você identifique o referente de um pronome relativo. Isso é uma tarefa de coesão referencial anafórica: o pronome "cujas" aponta para um termo que já foi mencionado anteriormente no texto. A banca não quer que você decore regras, mas que perceba como o pronome amarra o texto, evitando a repetição e criando uma relação de sentido entre as partes.

A Técnica: O Pronome "Cujo" e a Relação de Posse

O pronome relativo "cujo" (e suas flexões: cuja, cujos, cujas) tem uma função muito específica: indicar posse. Ele sempre aparece entre dois substantivos: o primeiro é o possuidor (o referente) e o segundo é o possuído (o objeto da posse).

Na passagem, temos:

  • Possuidor: "sofrimentos" (o termo que o pronome retoma)

  • Possuído: "causas" (o termo que segue o pronome)

A relação é: as causas dos sofrimentos. O pronome "cujas" concorda com o possuído ("causas", feminino plural), mas o referente é o possuidor ("sofrimentos").

PEGA ESSA DICA!

Para achar o referente de "cujo", pergunte: "de quem?" ou "de quê?". No trecho, "causas de quê?" → "dos sofrimentos". O referente é sempre o termo que responde a essa pergunta.

Análise das Alternativas

1Função
Indica posse
Entre dois substantivos
2Possuidor (referente)
"sofrimentos"
3Possuído (concordância)
"causas"
4Técnica
Perguntar "de quê?"
Resposta = referente
Pronome "cujas"
LEVELsoulevel.com.br
Pronome "cujas": Função (Indica posse, Entre dois substantivos); Possuidor (referente) ("sofrimentos"); Possuído (concordância) ("causas"); Técnica (Perguntar "de quê?", Resposta = referente)

Alternativa A — ❌ Incorreta

"ansiedade" é um dos exemplos de sofrimento citados antes do pronome, mas não é o termo que "cujas" retoma. O pronome "cujas" está ligado a "sofrimentos" (o conjunto), não a um elemento específico. A alternativa restringe o referente a um dos itens da enumeração, o que é um erro de generalização (tomar a parte pelo todo).

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Como visto, "cujas" retoma "sofrimentos", estabelecendo a relação de posse: as causas dos sofrimentos. A passagem "sofrimentos cujas causas ignoramos" pode ser reescrita como "sofrimentos cujas causas ignoramos" = "sofrimentos, e ignoramos as causas deles". O pronome relativo "cujas" é anafórico, retomando o antecedente imediato.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"causas" é o termo que segue o pronome, ou seja, é o possuído, não o referente. O pronome "cujas" concorda com "causas" em gênero e número, mas isso não significa que ele a retoma. A alternativa confunde o referente com o termo que concorda com o pronome.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"pipoca" é o tema central do texto, mas não aparece na passagem citada e não tem relação sintática com o pronome "cujas". A alternativa extrapola o contexto, trazendo um termo que está fora do trecho analisado.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"depressão" é outro exemplo de sofrimento citado na enumeração, mas, assim como "ansiedade", não é o referente do pronome. O pronome "cujas" retoma o conjunto "sofrimentos", não um item específico. A alternativa restringe indevidamente o referente.

Conclusão

A questão testa sua capacidade de identificar o referente de um pronome relativo. A regra de ouro: "cujo" (e flexões) sempre indica posse e retoma o substantivo anterior (possuidor), concordando com o substantivo posterior (possuído). Ao se deparar com "cujas", pergunte: "de quem?" — a resposta é o referente.

Gabarito: letra B

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