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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Avança SP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa504664
Banca
Avança SP
Órgão
Pref SM Arcanjo
Ano
2023
Cargo
ATI (SM Arcanjo)

Felicidade Clandestina

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria. Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”. Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia. Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria. Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam. No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez. Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo. E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra. Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados. Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler! E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer. Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo. Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.   

Clarice Lispector

Texto

   

Ao dizer “Mas que talento tinha para a crueldade”, a narradora considera que a garota de quem fala é cruel porque:

  1. Aela aproveitava da bondade de suas amigas.
  2. Bela não dava presentes interessantes para suas amigas, não emprestava livros, nem oferecia suas balas.
  3. Cela espalhava mentiras sobre suas amigas.
  4. Dela se considerava superior, porque tinha um busto enorme.
  5. Eela era falsa com suas amigas.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — ela não dava presentes interessantes para suas amigas, não emprestava livros, nem oferecia suas balas.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A crueldade da menina em "Felicidade Clandestina"

Gabarito: letra B. A narradora considera a garota cruel porque ela não dava presentes interessantes, não emprestava livros e não oferecia suas balas — mas, sobretudo, porque a menina prometia emprestar o livro e nunca cumpria, submetendo a narradora a uma "tortura chinesa". A passagem que ancora essa leitura é a descrição do comportamento da menina: ela "possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria", mas "pouco aproveitava" e, em vez de dar livros, entregava cartões-postais; e, quando a narradora implora pelo livro, a menina inventa desculpas sucessivas para não emprestá-lo, como se lê no trecho: "o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte".

O comando da questão é de compreensão: pede-se o motivo pelo qual a narradora chama a garota de cruel, ou seja, uma informação que está explícita no texto, ainda que exija conectar passagens. Não se trata de inferir algo não dito, mas de localizar a razão apresentada pela narradora. A alternativa correta deve ser uma paráfrase fiel do que o texto afirma, sem acrescentar elementos externos.

O texto é uma narrativa em primeira pessoa, em que a narradora relembra a infância e a relação com uma colega que a torturava psicologicamente. A crueldade da menina não está em atos de violência física, mas na perversidade calculada: ela promete emprestar o livro "As Reinações de Narizinho" e, dia após dia, inventa desculpas para não cumprir a promessa, fazendo a narradora voltar à sua casa repetidamente, alimentando a esperança e a frustração. A narradora descreve isso como "uma tortura chinesa" e "o plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico".

A técnica para resolver é ancorar cada alternativa no texto: pergunte "onde o texto autoriza esta afirmação?". A alternativa B é a única que sintetiza o comportamento cruel descrito: a menina não compartilhava o que tinha (livros, balas, presentes) e, quando prometia, não cumpria. As demais alternativas ou extrapolam (falam em mentiras, falsidade, superioridade) ou restringem o foco (aproveitar da bondade), sem base textual.

NÃO CAIA NESSA!

A banca oferece alternativas que parecem plausíveis, mas que extrapolam o texto (como "espalhava mentiras" ou "era falsa") ou trocam o foco (como "se considerava superior"). A crueldade está na ação concreta de não emprestar e de prometer sem cumprir, não em características genéricas.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto não diz que a menina "aproveitava da bondade" das amigas. A narradora descreve a menina como egoísta e perversa, mas não há passagem que indique que ela se beneficiava da bondade alheia. A alternativa acrescenta uma motivação que não está no texto.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa é uma paráfrase fiel do texto. A narradora afirma que a menina "possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria", mas "pouco aproveitava" e, em vez de dar livros, entregava cartões-postais. Além disso, a menina "enchia os dois bolsos da blusa... com balas", mas não as oferecia. E, quando a narradora implora pelo livro, a menina promete e não cumpre, dizendo: "o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte". Essa combinação de não compartilhar o que tinha e prometer sem cumprir é exatamente o que a alternativa B descreve.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto não menciona que a menina "espalhava mentiras sobre suas amigas". A menina mente sobre o livro (diz que o emprestou a outra menina), mas isso é uma mentira específica, não uma difamação generalizada. A alternativa amplia o alcance sem base textual.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: troca de foco. O texto descreve a menina como "gorda, baixa, sardenta" e com "busto enorme", mas isso é uma descrição física, não uma justificativa para a crueldade. A narradora não diz que a menina se considerava superior por causa do busto. A alternativa confunde descrição com motivação.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: generalização vaga. O texto mostra a menina sendo falsa ao prometer o livro e não cumprir, mas a alternativa é genérica demais e não captura a especificidade da crueldade descrita. Além disso, "falsa" é uma interpretação subjetiva que o texto não afirma explicitamente; a crueldade está na ação de não emprestar, não em uma característica de personalidade.

Conclusão: a resposta correta é a letra B, pois é a única que se sustenta integralmente no texto, descrevendo o comportamento cruel da menina: não dar presentes, não emprestar livros e não oferecer balas. As demais alternativas ou extrapolam, ou trocam o foco, ou generalizam sem apoio textual.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de compreensão, teste cada alternativa perguntando: "o texto autoriza isto, ou exige acrescentar algo de fora?". A correta é sempre uma paráfrase fiel, sem acréscimos.

Gabarito: letra B

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