Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Quadrix 2023
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa504711
Banca
Quadrix
Órgão
PROCON DF
Ano
2023
Cargo
TADC ( )
Fanático por caipirinha. Fanático por samba. Fanático por viagens. Há fanáticos para tudo. Ou melhor, há fanáticos e fanáticos. O problema é que, por ser empregada tão à vontade (aliás, como tantas outras), a palavra fanatismo banalizou‑se, perdendo sua força e seu conteúdo. Entretanto, parece óbvio que um “fanático por novela” é algo bem diferente (e bem menos perigoso) que um “nazista fanático”.
Fanático é um termo cunhado no século XVIII para denominar as pessoas que seriam partidárias extremistas, exaltadas e acríticas de uma causa religiosa ou política. O grande perigo do fanático consiste exatamente na certeza absoluta e incontestável que ele tem a respeito de suas verdades. Detentor de uma verdade supostamente revelada especialmente para ele pelo seu deus (portanto não uma verdade qualquer, mas A Verdade), o fanático não tem como aceitar quaisquer discussões ou questionamentos racionais com relação àquilo que apresenta como o seu conhecimento: a origem divina de suas certezas não permite que os argumentos apresentados por simples mortais se contraponham a elas.
Jaime Pinsky e Carla Bassanezi Pinsky. “Fanatismo, fanatismos”. In: Jaime Pinsky e Carla Bassanezi Pinsky (orgs.). Faces do fanatismo. São Paulo: Editora Contexto, 2004, p. 9‑10 (com adaptações).
Texto para o item.
Considerando os sentidos e os aspectos gramaticais do texto, julgue o item.
É correto inferir que um fanático se caracteriza pela ausência de dúvidas quanto ao seu conhecimento e, por isso, é indiferente aos questionamentos feitos por outras pessoas quanto a esse conhecimento.
CCerto
EErrado
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GabaritoC — Certo
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Inferência sobre o fanático: ausência de dúvidas e indiferença a questionamentos
Gabarito: Certo (C). A afirmação é uma inferência legítima — e não uma extrapolação — porque se ancora diretamente em duas passagens do 2º parágrafo: a "certeza absoluta e incontestável" que o fanático tem de suas verdades e a afirmação de que "o fanático não tem como aceitar quaisquer discussões ou questionamentos racionais" quanto ao seu conhecimento. O texto autoriza, portanto, concluir que o fanático não tem dúvidas (certeza absoluta) e que é indiferente/refratário aos questionamentos alheios (não aceita discussões).
O comando: "É correto inferir"
O verbo "inferir" no enunciado muda tudo: a banca não pede uma informação literalmente escrita, mas uma dedução ancorada em pistas do texto. Isso significa que a resposta correta pode (e deve) ir um pouco além da superfície — desde que o texto obrigue àquela conclusão. Se a questão pedisse "de acordo com o texto", a resposta teria de ser uma paráfrase quase literal; aqui, basta que a conclusão seja logicamente decorrente do que está escrito.
O texto: tese e movimento argumentativo
O texto distingue o uso banalizado de "fanático" ("fanático por caipirinha") do sentido forte do termo: o fanático propriamente dito é o partidário extremista de uma causa religiosa ou política. O 2º parágrafo é o coração da questão — é onde o autor define o que caracteriza o fanático:
"O grande perigo do fanático consiste exatamente na certeza absoluta e incontestável que ele tem a respeito de suas verdades."
E, logo em seguida:
"o fanático não tem como aceitar quaisquer discussões ou questionamentos racionais com relação àquilo que apresenta como o seu conhecimento"
A certeza absoluta é a pista para a ausência de dúvidas; a impossibilidade de aceitar questionamentos é a pista para a indiferença (no sentido de não dar acolhida) aos questionamentos alheios. A inferência do item apenas reescreve com outras palavras exatamente essa relação de causa e consequência que o texto estabelece.
A técnica: inferência legítima × extrapolação
A linha que separa o certo do errado aqui é a presença de pista textual. Inferência legítima é aquela que se apoia em um pressuposto — uma informação implícita, mas marcada linguisticamente no texto. Veja o paralelo:
"parou de fumar" pressupõe que fumava;
"certeza absoluta e incontestável" pressupõe ausência de dúvida;
"não tem como aceitar questionamentos" pressupõe indiferença/refratariedade a eles.
Extrapolação seria, por exemplo, afirmar que o fanático odeia quem o questiona, ou que age com violência — isso o texto não diz. Mas o item não chega a tanto: ele apenas explicita o que já está implícito nas palavras do autor. Por isso, é inferência válida.
Análise do item
1Pista textual (pressuposto)
2Conclusão decorrente
3[+] Inferência válida
4Dado novo (fora do texto)
5[-] Extrapolação
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Item — ✅ CERTO
A afirmação tem duas partes, e ambas encontram respaldo no texto:
"ausência de dúvidas quanto ao seu conhecimento" — o texto fala em "certeza absoluta e incontestável". Quem tem certeza absoluta não duvida. A paráfrase é fiel.
"indiferente aos questionamentos feitos por outras pessoas" — o texto diz que o fanático "não tem como aceitar quaisquer discussões ou questionamentos racionais". Ser incapaz de aceitar questionamentos equivale, na prática, a ser indiferente a eles — não os acolhe, não os considera.
Além disso, o item estabelece uma relação de causa e consequência ("e, por isso") que o texto também sustenta: é porque tem certeza absoluta (origem divina de suas verdades) que o fanático não aceita discussões. O texto diz:
"a origem divina de suas certezas não permite que os argumentos apresentados por simples mortais se contraponham a elas."
Ou seja: a certeza (de origem divina) é a causa da recusa aos argumentos alheios. O item apenas nomeia essa relação.
NÃO CAIA NESSA!
A banca poderia ter tentado fazer você marcar "Errado" por achar que "indiferente" é forte demais. Mas o texto não diz que o fanático ignora os questionamentos — diz que não tem como aceitá-los. A indiferença aqui é consequência lógica da certeza absoluta, e não uma informação nova. Não confunda inferência com extrapolação: a inferência explica o que o texto já sugere; a extrapolação acrescenta o que ele não diz.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de inferência, pergunte-se: "o texto obriga a essa conclusão, ou ela depende de algo que está fora do texto?". Se a conclusão decorre das palavras do autor (mesmo que implicitamente), é inferência válida. Se você precisou "imaginar" um dado novo, é extrapolação — e aí a alternativa está errada.
Conclusão: o item é uma inferência correta, pois traduz, com outras palavras, a relação de causa e consequência que o texto estabelece entre a certeza absoluta do fanático e sua incapacidade de aceitar questionamentos. Não há extrapolação, restrição indevida ou opinião embutida — apenas leitura atenta do 2º parágrafo.