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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Quadrix 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa504725
Banca
Quadrix
Órgão
PROCON DF
Ano
2023
Cargo
AADC ( )

Encerro 2020, o ano que anuncia que o tempo das pandemias chegou, com estranhos sintomas. A ideia de fazer mais uma live, mais um meeting pelo Jitsi, Zoom ou Google, ou mesmo pelo WhatsApp, deixa‑me fisicamente enjoada. Escrever, como faço agora, enquanto as notícias e as mensagens pipocam em um canto da tela, deixa‑me tonta e exausta. Amigos me pedem encontros de Natal, happy hours de ano‑novo. Quero. Mas não consigo. Que o excesso de telas cansa e pode causar transtornos e até doenças, sabemos. A experiência atual, porém, vai muito além disso. O home office, as lives e os meetings mudaram o conceito de casa. Ou talvez tenham provocado algo ainda mais radical, ao nos despejar não apenas da casa, mas também da possibilidade de fazer da casa uma casa.


Sim, aqueles que têm a chance de trabalhar no sistema de home office, o que significa trabalhar a partir de sua casa, são privilegiados em um planeta encurralado pelo vírus. Pensar sobre a desigualdade no tempo das pandemias é pensar sobre quem pode desempenhar suas funções profissionais “remotamente” e quem não pode. A maioria dos que não podem trabalhar remotamente é composta dos mesmos que têm mais chances de figurar em todas as piores estatísticas: os mais pobres, os negros, as mulheres.


Afirmar que a pandemia expõe e agrava a desigualdade social, de raça e de gênero é uma obviedade que várias pesquisas comprovaram ao longo de 2020. A iniquidade abissal do Brasil — e, em menor escala, da maioria dos países do planeta — impõe como privilégio aquilo que é um direito básico, o de ser capaz de se proteger de uma ameaça. Assim, é como privilegiada que discuto aqui a experiência de nos descobrir sem casa, uma experiência que não é apenas subjetiva. Apesar das paredes de concreto que nos cercam, sentir‑nos sem casa é uma experiência bem concreta.


Se tornar descasado, no sentido de sem casa, é o que está acontecendo hoje com aqueles que, desde março, fazem home office, expressão em inglês para apontar que a casa, no sentido de lar (home), se tornou também o escritório (office), no sentido de local de trabalho. A expressão home office, porém, é ardilosa. A experiência cotidiana mostra que, se há office, não há home.


Quando o trabalho invade a casa no modo 24 (horas) X 7 (dias) por semana, perdemos a casa. E com ela o descanso, o refúgio, o remanso. E também o espaço de intimidade que só será alcançado pelos de fora se quisermos abrir a porta. Perdemos principalmente a porta. E uma casa sem porta não é uma casa. Mesmo que essa porta seja invisível, caso das pessoas em situação de rua, essa barreira concretizada pela imaginação cumpre o papel simbólico de fazer borda, de dar limite. No modo pandêmico é ao contrário. Mesmo que materialmente exista uma porta de madeira ou mesmo de ferro, grossa e cheia de fechaduras complicadas, seguidamente precedida da porta do prédio e ainda da porta externa do edifício, como hoje vive parte da classe média urbana, ainda assim não há porta nenhuma porque já não há limite para o que invade a casa pelas telas — todas as telas — desde dentro.


Tudo se complica infinitamente mais quando o mundo do trabalho invade a casa. Com a comunicação facilitada e imediata permitida pela tecnologia, os limites que antes eram determinados pela carga horária da jornada passaram a ser ultrapassados ou mesmo ignorados. A precarização das condições de trabalho, o apagamento das fronteiras entre a vida privada e a profissional, o devoramento do tempo e com ele a corrosão da vida já tinham se tornado uma questão crucial da nossa época.


Com o home office, as condições de trabalho se precarizaram ainda mais.


Internet: <https://brasil.elpais.com> (com adaptações)

Texto para o item.

   

Com relação às ideias, aos sentidos e aos aspectos linguísticos do texto, julgue o item.


Depreende‑se da leitura do texto que o home office e a precarização das condições de trabalho, com a perda da privacidade do lar e a invasão das telas, foram as consequências mais graves da pandemia.

  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Inferência e generalização indevida no texto sobre home office

Gabarito: letra E (Errado). A afirmação de que o home office e a precarização das condições de trabalho, com a perda da privacidade e a invasão das telas, foram as consequências mais graves da pandemia é uma extrapolação: o texto discute esses fenômenos como consequências relevantes, mas não os hierarquiza como os mais graves. A passagem que sustenta essa leitura é o trecho em que a autora afirma que "a precarização das condições de trabalho, o apagamento das fronteiras entre a vida privada e a profissional, o devoramento do tempo e com ele a corrosão da vida já tinham se tornado uma questão crucial da nossa época" — note que ela diz "uma questão crucial", não "a mais grave".

O comando: "depreende-se" pede inferência com pista

O verbo "depreender" indica que a banca quer uma inferência — uma conclusão que o leitor tira a partir de pistas do texto, não uma informação literal. Mas inferência legítima exige que o texto obrigue àquela conclusão. Aqui, a alternativa vai além: ela generaliza e hierarquiza algo que o texto não hierarquiza. A banca adora esse tipo de pegadinha: pega uma ideia verdadeira (o home office precariza e invade a privacidade) e a exagera com um superlativo ("as consequências mais graves").

O texto: o que a autora realmente afirma

O texto é um relato em primeira pessoa sobre como o home office, durante a pandemia, transformou a experiência de "casa" em "escritório", com a perda da privacidade e a invasão das telas. A autora reconhece que "o excesso de telas cansa e pode causar transtornos e até doenças" e que "a precarização das condições de trabalho, o apagamento das fronteiras entre a vida privada e a profissional, o devoramento do tempo e com ele a corrosão da vida já tinham se tornado uma questão crucial da nossa época". Mas ela não afirma que esses sejam os efeitos mais graves da pandemia. Ela apenas os apresenta como consequências importantes, sem estabelecer uma escala de gravidade.

A técnica: inferência legítima × extrapolação

A inferência legítima se apoia em pressupostos — pistas deixadas pelo próprio texto. Por exemplo, quando a autora diz "perdemos a porta", pressupõe-se que antes havia uma porta que delimitava a casa. Já a extrapolação acrescenta informação que não está no texto. Aqui, o superlativo "mais graves" é uma generalização indevida: o texto não compara as consequências da pandemia entre si, nem afirma que o home office seja a pior delas. A banca usa uma palavra absoluta ("mais") para induzir o candidato a aceitar uma hierarquia que o autor não estabeleceu.

NÃO CAIA NESSA!

A banca transforma uma consequência relevante em "a mais grave", usando um superlativo que o texto não sustenta. O texto diz "uma questão crucial", não "a questão mais grave".

PEGA ESSA DICA!

Desconfie de superlativos e quantificadores absolutos ("mais", "sempre", "nunca", "apenas"). Pergunte: o texto compara? O texto hierarquiza? Se não, a alternativa está extrapolando.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa C afirma que "depreende-se da leitura do texto que o home office e a precarização das condições de trabalho, com a perda da privacidade do lar e a invasão das telas, foram as consequências mais graves da pandemia". Essa afirmação é falsa porque o texto não diz que essas são as consequências mais graves. O texto menciona que "a precarização das condições de trabalho, o apagamento das fronteiras entre a vida privada e a profissional, o devoramento do tempo e com ele a corrosão da vida já tinham se tornado uma questão crucial da nossa época", mas "crucial" não é o mesmo que "a mais grave". A alternativa extrapola ao acrescentar uma hierarquia que o autor não estabeleceu. O erro é de generalização indevida.

Alternativa E — ✅ Correta

A alternativa E afirma que o item está errado, e isso está correto. O item é falso porque a afirmação de que o home office e a precarização foram "as consequências mais graves da pandemia" é uma extrapolação. O texto não hierarquiza as consequências; ele apenas as descreve como relevantes. A passagem "uma questão crucial da nossa época" mostra que a autora considera o problema importante, mas não o classifica como o mais grave. Portanto, a alternativa E é a correta.

Conclusão: a questão testa a capacidade de distinguir inferência legítima de extrapolação. A resposta correta é a letra E, pois o item erra ao generalizar e hierarquizar algo que o texto não sustenta. Lembre-se: inferência exige pista no texto; extrapolação é erro.

Gabarito: letra E

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