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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Quadrix 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa504726
Banca
Quadrix
Órgão
PROCON DF
Ano
2023
Cargo
AADC ( )

Encerro 2020, o ano que anuncia que o tempo das pandemias chegou, com estranhos sintomas. A ideia de fazer mais uma live, mais um meeting pelo Jitsi, Zoom ou Google, ou mesmo pelo WhatsApp, deixa‑me fisicamente enjoada. Escrever, como faço agora, enquanto as notícias e as mensagens pipocam em um canto da tela, deixa‑me tonta e exausta. Amigos me pedem encontros de Natal, happy hours de ano‑novo. Quero. Mas não consigo. Que o excesso de telas cansa e pode causar transtornos e até doenças, sabemos. A experiência atual, porém, vai muito além disso. O home office, as lives e os meetings mudaram o conceito de casa. Ou talvez tenham provocado algo ainda mais radical, ao nos despejar não apenas da casa, mas também da possibilidade de fazer da casa uma casa.


Sim, aqueles que têm a chance de trabalhar no sistema de home office, o que significa trabalhar a partir de sua casa, são privilegiados em um planeta encurralado pelo vírus. Pensar sobre a desigualdade no tempo das pandemias é pensar sobre quem pode desempenhar suas funções profissionais “remotamente” e quem não pode. A maioria dos que não podem trabalhar remotamente é composta dos mesmos que têm mais chances de figurar em todas as piores estatísticas: os mais pobres, os negros, as mulheres.


Afirmar que a pandemia expõe e agrava a desigualdade social, de raça e de gênero é uma obviedade que várias pesquisas comprovaram ao longo de 2020. A iniquidade abissal do Brasil — e, em menor escala, da maioria dos países do planeta — impõe como privilégio aquilo que é um direito básico, o de ser capaz de se proteger de uma ameaça. Assim, é como privilegiada que discuto aqui a experiência de nos descobrir sem casa, uma experiência que não é apenas subjetiva. Apesar das paredes de concreto que nos cercam, sentir‑nos sem casa é uma experiência bem concreta.


Se tornar descasado, no sentido de sem casa, é o que está acontecendo hoje com aqueles que, desde março, fazem home office, expressão em inglês para apontar que a casa, no sentido de lar (home), se tornou também o escritório (office), no sentido de local de trabalho. A expressão home office, porém, é ardilosa. A experiência cotidiana mostra que, se há office, não há home.


Quando o trabalho invade a casa no modo 24 (horas) X 7 (dias) por semana, perdemos a casa. E com ela o descanso, o refúgio, o remanso. E também o espaço de intimidade que só será alcançado pelos de fora se quisermos abrir a porta. Perdemos principalmente a porta. E uma casa sem porta não é uma casa. Mesmo que essa porta seja invisível, caso das pessoas em situação de rua, essa barreira concretizada pela imaginação cumpre o papel simbólico de fazer borda, de dar limite. No modo pandêmico é ao contrário. Mesmo que materialmente exista uma porta de madeira ou mesmo de ferro, grossa e cheia de fechaduras complicadas, seguidamente precedida da porta do prédio e ainda da porta externa do edifício, como hoje vive parte da classe média urbana, ainda assim não há porta nenhuma porque já não há limite para o que invade a casa pelas telas — todas as telas — desde dentro.


Tudo se complica infinitamente mais quando o mundo do trabalho invade a casa. Com a comunicação facilitada e imediata permitida pela tecnologia, os limites que antes eram determinados pela carga horária da jornada passaram a ser ultrapassados ou mesmo ignorados. A precarização das condições de trabalho, o apagamento das fronteiras entre a vida privada e a profissional, o devoramento do tempo e com ele a corrosão da vida já tinham se tornado uma questão crucial da nossa época.


Com o home office, as condições de trabalho se precarizaram ainda mais.


Internet: <https://brasil.elpais.com> (com adaptações)

Texto para o item.

   

Com relação às ideias, aos sentidos e aos aspectos linguísticos do texto, julgue o item.

 

A autora fez uso da liberdade poética para apresentar o sentido da palavra “descasado” no desenvolvimento do texto, ao explicar a ideia central de que o trabalho em casa tira o lar da pessoa.

  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Certo

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Sentido figurado e tese central: o uso de “descasado” no texto

Gabarito: C (Certo). O item está correto porque a autora realmente emprega a palavra “descasado” em sentido figurado — não literal — para expressar a ideia central de que o trabalho em casa, no regime de home office, tira o lar da pessoa. Essa leitura é autorizada pelo próprio texto, especialmente no trecho em que ela afirma: “Se tornar descasado, no sentido de sem casa, é o que está acontecendo hoje com aqueles que, desde março, fazem home office”.

O comando: compreensão, não inferência

O enunciado pede que se julgue a afirmação sobre as ideias e os sentidos do texto. Trata-se de uma questão de compreensão — a resposta está explícita no texto, bastando localizar a passagem que sustenta a leitura. Não há necessidade de deduzir nada além do que está escrito; a tarefa é verificar se a paráfrase apresentada no item corresponde ao que o texto realmente diz.

O texto: tese e movimento argumentativo

O texto é um artigo de opinião em que a autora reflete sobre os efeitos do home office durante a pandemia. A tese central é que o trabalho remoto, ao invadir a casa, destrói o sentido de lar — a casa deixa de ser refúgio, descanso e intimidade. Essa ideia é desenvolvida ao longo dos parágrafos, mas é no quarto parágrafo que ela se explicita com a palavra “descasado”:

“Se tornar descasado, no sentido de sem casa, é o que está acontecendo hoje com aqueles que, desde março, fazem home office, expressão em inglês para apontar que a casa, no sentido de lar (home), se tornou também o escritório (office), no sentido de local de trabalho. A expressão home office, porém, é ardilosa. A experiência cotidiana mostra que, se há office, não há home.”

Aqui, a autora cria um neologismo — “descasado” — para nomear a perda do lar. O sentido é figurado, pois não se trata de perder a casa material (as paredes continuam lá), mas de perder a função simbólica de lar. Isso fica claro no parágrafo seguinte:

“Quando o trabalho invade a casa no modo 24 (horas) X 7 (dias) por semana, perdemos a casa. E com ela o descanso, o refúgio, o remanso. E também o espaço de intimidade que só será alcançado pelos de fora se quisermos abrir a porta. Perdemos principalmente a porta. E uma casa sem porta não é uma casa.”

Portanto, o item está correto porque:

  • A autora usa “descasado” em sentido figurado (não literal);

  • Esse uso serve para explicar a ideia central de que o trabalho em casa tira o lar da pessoa.

Análise do item

O item afirma que a autora “fez uso da liberdade poética para apresentar o sentido da palavra ‘descasado’ no desenvolvimento do texto, ao explicar a ideia central de que o trabalho em casa tira o lar da pessoa”.

  • “Liberdade poética”: embora o termo possa sugerir algo subjetivo, o texto confirma que a autora cria um sentido novo para a palavra, o que é uma forma de liberdade expressiva — ela não está usando o dicionário, mas construindo um conceito.

  • “Explicar a ideia central”: o texto explicitamente associa “descasado” à perda do lar, como visto no trecho citado.

  • “Trabalho em casa tira o lar”: é exatamente o que o texto afirma: “se há office, não há home”.

Não há extrapolação nem opinião embutida — o item apenas parafraseia o que o texto diz. A banca não acrescenta nada que não esteja no texto.

Conclusão

O item está certo porque a leitura proposta é fiel ao texto: a autora usa “descasado” em sentido figurado para expressar a tese de que o home office destrói o lar. A resposta é C (Certo).

PEGA ESSA DICA!

Em questões de compreensão, desconfie de itens que acrescentam informações de fora do texto. Aqui, o item apenas reescreve o que está dito — por isso, está correto. Sempre confronte a afirmação com o trecho exato que a sustenta.

Gabarito: letra C (Certo).

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