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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Quadrix 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa504727
Banca
Quadrix
Órgão
PROCON DF
Ano
2023
Cargo
AADC ( )

Encerro 2020, o ano que anuncia que o tempo das pandemias chegou, com estranhos sintomas. A ideia de fazer mais uma live, mais um meeting pelo Jitsi, Zoom ou Google, ou mesmo pelo WhatsApp, deixa‑me fisicamente enjoada. Escrever, como faço agora, enquanto as notícias e as mensagens pipocam em um canto da tela, deixa‑me tonta e exausta. Amigos me pedem encontros de Natal, happy hours de ano‑novo. Quero. Mas não consigo. Que o excesso de telas cansa e pode causar transtornos e até doenças, sabemos. A experiência atual, porém, vai muito além disso. O home office, as lives e os meetings mudaram o conceito de casa. Ou talvez tenham provocado algo ainda mais radical, ao nos despejar não apenas da casa, mas também da possibilidade de fazer da casa uma casa.


Sim, aqueles que têm a chance de trabalhar no sistema de home office, o que significa trabalhar a partir de sua casa, são privilegiados em um planeta encurralado pelo vírus. Pensar sobre a desigualdade no tempo das pandemias é pensar sobre quem pode desempenhar suas funções profissionais “remotamente” e quem não pode. A maioria dos que não podem trabalhar remotamente é composta dos mesmos que têm mais chances de figurar em todas as piores estatísticas: os mais pobres, os negros, as mulheres.


Afirmar que a pandemia expõe e agrava a desigualdade social, de raça e de gênero é uma obviedade que várias pesquisas comprovaram ao longo de 2020. A iniquidade abissal do Brasil — e, em menor escala, da maioria dos países do planeta — impõe como privilégio aquilo que é um direito básico, o de ser capaz de se proteger de uma ameaça. Assim, é como privilegiada que discuto aqui a experiência de nos descobrir sem casa, uma experiência que não é apenas subjetiva. Apesar das paredes de concreto que nos cercam, sentir‑nos sem casa é uma experiência bem concreta.


Se tornar descasado, no sentido de sem casa, é o que está acontecendo hoje com aqueles que, desde março, fazem home office, expressão em inglês para apontar que a casa, no sentido de lar (home), se tornou também o escritório (office), no sentido de local de trabalho. A expressão home office, porém, é ardilosa. A experiência cotidiana mostra que, se há office, não há home.


Quando o trabalho invade a casa no modo 24 (horas) X 7 (dias) por semana, perdemos a casa. E com ela o descanso, o refúgio, o remanso. E também o espaço de intimidade que só será alcançado pelos de fora se quisermos abrir a porta. Perdemos principalmente a porta. E uma casa sem porta não é uma casa. Mesmo que essa porta seja invisível, caso das pessoas em situação de rua, essa barreira concretizada pela imaginação cumpre o papel simbólico de fazer borda, de dar limite. No modo pandêmico é ao contrário. Mesmo que materialmente exista uma porta de madeira ou mesmo de ferro, grossa e cheia de fechaduras complicadas, seguidamente precedida da porta do prédio e ainda da porta externa do edifício, como hoje vive parte da classe média urbana, ainda assim não há porta nenhuma porque já não há limite para o que invade a casa pelas telas — todas as telas — desde dentro.


Tudo se complica infinitamente mais quando o mundo do trabalho invade a casa. Com a comunicação facilitada e imediata permitida pela tecnologia, os limites que antes eram determinados pela carga horária da jornada passaram a ser ultrapassados ou mesmo ignorados. A precarização das condições de trabalho, o apagamento das fronteiras entre a vida privada e a profissional, o devoramento do tempo e com ele a corrosão da vida já tinham se tornado uma questão crucial da nossa época.


Com o home office, as condições de trabalho se precarizaram ainda mais.


Internet: <https://brasil.elpais.com> (com adaptações)

Texto para o item.

   

Com relação às ideias, aos sentidos e aos aspectos linguísticos do texto, julgue o item.

 

É correto afirmar, por meio da leitura do primeiro parágrafo, que o mal‑estar físico causado pelo excesso de telas é o tópico frasal.

  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Tópico frasal: o mal-estar físico é apenas um sintoma, não a ideia central

Gabarito: E (Errado). A assertiva restringe o tópico frasal do primeiro parágrafo a um detalhe — o mal-estar físico causado pelo excesso de telas — quando a ideia central é outra: a perda da casa provocada pelo home office e pelas telas. Como se lê no fechamento do parágrafo: "O home office, as lives e os meetings mudaram o conceito de casa. Ou talvez tenham provocado algo ainda mais radical, ao nos despejar não apenas da casa, mas também da possibilidade de fazer da casa uma casa."

O comando

A questão pede que você julgue se o mal-estar físico é o tópico frasal do primeiro parágrafo. Isso é uma questão de compreensão (localizar a ideia central), não de inferência. Você precisa identificar qual é a ideia-núcleo do parágrafo e verificar se ela corresponde ao que a assertiva afirma. O tópico frasal é a frase que sintetiza o parágrafo, geralmente no início, mas nem sempre — aqui, ele está no final.

O texto

O primeiro parágrafo começa com um relato pessoal: a autora sente enjoo, tontura e exaustão por causa das telas. Mas isso é apenas a porta de entrada para o tema. O parágrafo evolui: primeiro, o mal-estar físico; depois, a constatação de que "o excesso de telas cansa"; e, por fim, a tese: o home office e as telas mudaram o conceito de casa e nos despejaram dela. O tópico frasal é essa última ideia, que abrange todo o parágrafo e dialoga com o restante do texto (a discussão sobre a perda da casa).

A técnica

Para achar o tópico frasal, pergunte: qual é a ideia que o parágrafo inteiro desenvolve? O mal-estar físico é um sintoma — ele serve para introduzir o problema, mas não é o problema em si. O parágrafo não se limita a descrever o mal-estar; ele o usa como ponto de partida para uma reflexão mais ampla. A assertiva, ao afirmar que o mal-estar é o tópico frasal, restringe o alcance do parágrafo, transformando um detalhe em ideia central. Isso é um erro clássico de generalização indevida (no caso, uma restrição).

NÃO CAIA NESSA!

A banca oferece um sintoma (mal-estar físico) como se fosse a causa/ideia central. O candidato que lê o parágrafo superficialmente pode cair na armadilha, pois o mal-estar é o primeiro elemento mencionado. Mas o tópico frasal é a conclusão do parágrafo, não o início.

Análise da assertiva

Tópico frasal
  • 1O que é
    • Ideia-núcleo do parágrafo
    • Sintetiza o conteúdo
    • Pode estar no início, meio ou fim
  • 2Como identificar
    • Perguntar: qual ideia o parágrafo desenvolve?
    • Distinguir sintoma de ideia central
  • 3Erro comum da banca
    • Oferecer detalhe/sintoma como tópico frasal
    • Restringir o alcance do parágrafo
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Assertiva — ❌ Errada ⟵ GABARITO

A assertiva afirma que "o mal-estar físico causado pelo excesso de telas é o tópico frasal". Isso está errado porque o tópico frasal é a perda da casa, como se vê no trecho final:

"O home office, as lives e os meetings mudaram o conceito de casa. Ou talvez tenham provocado algo ainda mais radical, ao nos despejar não apenas da casa, mas também da possibilidade de fazer da casa uma casa."

O mal-estar físico é apenas um sintoma relatado no início, que serve de gancho para introduzir o tema. A ideia central do parágrafo — e do texto como um todo — é a desconstrução do lar pelo trabalho remoto. Portanto, a assertiva restringe indevidamente o tópico frasal a um detalhe.

Conclusão

Gabarito: E (Errado). Para acertar questões de tópico frasal, sempre identifique a ideia que o parágrafo inteiro desenvolve, não apenas o primeiro elemento mencionado. O tópico frasal pode estar no início, no meio ou no fim — o que importa é que ele sintetize o parágrafo. Aqui, o mal-estar é só o sintoma; a doença é a perda da casa.

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