Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Quadrix 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa504729
Banca
Quadrix
Órgão
PROCON DF
Ano
2023
Cargo
AADC ( )

Encerro 2020, o ano que anuncia que o tempo das pandemias chegou, com estranhos sintomas. A ideia de fazer mais uma live, mais um meeting pelo Jitsi, Zoom ou Google, ou mesmo pelo WhatsApp, deixa‑me fisicamente enjoada. Escrever, como faço agora, enquanto as notícias e as mensagens pipocam em um canto da tela, deixa‑me tonta e exausta. Amigos me pedem encontros de Natal, happy hours de ano‑novo. Quero. Mas não consigo. Que o excesso de telas cansa e pode causar transtornos e até doenças, sabemos. A experiência atual, porém, vai muito além disso. O home office, as lives e os meetings mudaram o conceito de casa. Ou talvez tenham provocado algo ainda mais radical, ao nos despejar não apenas da casa, mas também da possibilidade de fazer da casa uma casa.


Sim, aqueles que têm a chance de trabalhar no sistema de home office, o que significa trabalhar a partir de sua casa, são privilegiados em um planeta encurralado pelo vírus. Pensar sobre a desigualdade no tempo das pandemias é pensar sobre quem pode desempenhar suas funções profissionais “remotamente” e quem não pode. A maioria dos que não podem trabalhar remotamente é composta dos mesmos que têm mais chances de figurar em todas as piores estatísticas: os mais pobres, os negros, as mulheres.


Afirmar que a pandemia expõe e agrava a desigualdade social, de raça e de gênero é uma obviedade que várias pesquisas comprovaram ao longo de 2020. A iniquidade abissal do Brasil — e, em menor escala, da maioria dos países do planeta — impõe como privilégio aquilo que é um direito básico, o de ser capaz de se proteger de uma ameaça. Assim, é como privilegiada que discuto aqui a experiência de nos descobrir sem casa, uma experiência que não é apenas subjetiva. Apesar das paredes de concreto que nos cercam, sentir‑nos sem casa é uma experiência bem concreta.


Se tornar descasado, no sentido de sem casa, é o que está acontecendo hoje com aqueles que, desde março, fazem home office, expressão em inglês para apontar que a casa, no sentido de lar (home), se tornou também o escritório (office), no sentido de local de trabalho. A expressão home office, porém, é ardilosa. A experiência cotidiana mostra que, se há office, não há home.


Quando o trabalho invade a casa no modo 24 (horas) X 7 (dias) por semana, perdemos a casa. E com ela o descanso, o refúgio, o remanso. E também o espaço de intimidade que só será alcançado pelos de fora se quisermos abrir a porta. Perdemos principalmente a porta. E uma casa sem porta não é uma casa. Mesmo que essa porta seja invisível, caso das pessoas em situação de rua, essa barreira concretizada pela imaginação cumpre o papel simbólico de fazer borda, de dar limite. No modo pandêmico é ao contrário. Mesmo que materialmente exista uma porta de madeira ou mesmo de ferro, grossa e cheia de fechaduras complicadas, seguidamente precedida da porta do prédio e ainda da porta externa do edifício, como hoje vive parte da classe média urbana, ainda assim não há porta nenhuma porque já não há limite para o que invade a casa pelas telas — todas as telas — desde dentro.


Tudo se complica infinitamente mais quando o mundo do trabalho invade a casa. Com a comunicação facilitada e imediata permitida pela tecnologia, os limites que antes eram determinados pela carga horária da jornada passaram a ser ultrapassados ou mesmo ignorados. A precarização das condições de trabalho, o apagamento das fronteiras entre a vida privada e a profissional, o devoramento do tempo e com ele a corrosão da vida já tinham se tornado uma questão crucial da nossa época.


Com o home office, as condições de trabalho se precarizaram ainda mais.


Internet: <https://brasil.elpais.com> (com adaptações)

Texto para o item.

   

Com relação às ideias, aos sentidos e aos aspectos linguísticos do texto, julgue o item.

 

O argumento de que o home office tem alterado o sentido de casa era válido apenas no contexto da pandemia, pois foi o isolamento social que apagou as fronteiras entre a vida profissional e a pessoal, além de tirar o limite imposto pela porta, no sentido figurado.

  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Home office e o sentido de casa: o que o texto realmente afirma

Gabarito: ERRADO (E). O item afirma que o argumento sobre o home office alterar o sentido de casa era válido apenas no contexto da pandemia, pois foi o isolamento social que apagou as fronteiras entre vida profissional e pessoal e tirou o limite da porta. O texto, porém, diz o contrário: o apagamento das fronteiras já tinha se tornado uma questão crucial da nossa época antes da pandemia, e o que tira o limite da porta é o trabalho invadindo a casa pelas telas, não o isolamento em si. Como se lê no 6º parágrafo: "A precarização das condições de trabalho, o apagamento das fronteiras entre a vida privada e a profissional, o devoramento do tempo e com ele a corrosão da vida já tinham se tornado uma questão crucial da nossa época."

O comando pede um julgamento de compreensão/interpretação: o candidato deve verificar se a afirmação do item é fiel ao que o texto sustenta. Não se trata de inferir algo novo, mas de conferir se o item contradiz ou restringe indevidamente o alcance do que o autor escreveu. A técnica é simples: grife no texto as passagens que tratam de (1) quando o fenômeno começou e (2) qual foi a causa apontada para a perda da casa — e compare com o que o item diz.

O texto desenvolve uma tese clara: o home office, ao fazer o trabalho invadir a casa em regime 24x7, destrói o sentido de lar — perde-se a porta, o limite, o refúgio. Essa tese é apresentada como algo que já vinha se desenhando antes da pandemia, e não como uma novidade absoluta trazida pelo isolamento. Veja o trecho decisivo:

"A precarização das condições de trabalho, o apagamento das fronteiras entre a vida privada e a profissional, o devoramento do tempo e com ele a corrosão da vida já tinham se tornado uma questão crucial da nossa época."

A palavra "já" é a chave: indica que o fenômeno precedia a pandemia. O item, ao dizer que o argumento era válido "apenas no contexto da pandemia", restringe indevidamente o alcance temporal do que o autor afirma. Além disso, o item atribui ao isolamento social a causa do apagamento das fronteiras, mas o texto aponta o trabalho invadindo a casa pelas telas como o agente:

"Quando o trabalho invade a casa no modo 24 (horas) X 7 (dias) por semana, perdemos a casa. E com ela o descanso, o refúgio, o remanso."

E, sobre a porta, o texto diz que ela se perde porque não há mais limite para o que invade a casa pelas telas — não porque o isolamento a tenha tirado:

"ainda assim não há porta nenhuma porque já não há limite para o que invade a casa pelas telas — todas as telas — desde dentro."

Portanto, o item erra ao (1) limitar o fenômeno à pandemia e (2) trocar a causa: não foi o isolamento, mas a invasão do trabalho via telas.

Análise do item — ❌ ERRADO

O item comete dois erros clássicos de interpretação:

  1. Restringe o alcance temporal: diz que o argumento era válido "apenas no contexto da pandemia", mas o texto afirma que o apagamento das fronteiras já era uma questão crucial da época antes dela. A palavra "já" é a prova textual.

  1. Troca a causa: atribui ao isolamento social o apagamento das fronteiras e a perda do limite da porta. O texto, porém, aponta o trabalho invadindo a casa pelas telas como o responsável. O isolamento pode ter intensificado, mas não é a causa apontada.

NÃO CAIA NESSA!

A banca adora restringir o alcance de uma afirmação do texto com palavras como "apenas", "somente", "só". Quando aparecerem, confronte com o texto: o autor disse que era exclusivo daquele contexto? Se não, a alternativa está errada.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de certo/errado, grife os advérbios de tempo ("já", "ainda", "sempre") e os quantificadores ("apenas", "todos", "nenhum"). Eles costumam ser o ponto de virada.

Conclusão: o item está ERRADO porque contradiz o texto ao restringir o fenômeno à pandemia e ao atribuir ao isolamento social uma causa que o texto não lhe dá. A resposta correta é a letra E.

Gabarito: letra E (ERRADO).

Link permanente: /questoes/qa504729