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Questão de Português — Figuras de Linguagem — Instituto Consulplan 2023

PortuguêsFiguras de Linguagem
Código
qa505067
Banca
Instituto Consulplan
Órgão
IF PA
Ano
2023
Cargo
Asst ( )

As cores do silêncio

 

Bem, chega de falar de política. Hoje vou falar de uma coisa silenciosa chamada pintura.

 

Porque acho que a vida é inventada por nós – mas, claro, dentro das possibilidades reais – creio também, consequentemente, que o acaso desempenha um papel importante nessa invenção. E na arte também, sem dúvidas.

 

Mas o artista, para inventar sua obra, trabalha dentro de determinados princípiosb que descobre e de que se vale para impor sua inventividade poética sobre o acaso.

 

No fundo a criação artística é resultado da opção que o artista faz entre sua necessidade de criar e os fatores casuais que envolvem a criação. Em suma, ele torna necessário o que era mera probabilidade.

 

Descubro esses pensamentos ao rever um álbum de obras de Van Gogh. Embora já as conhecesse de longa data, descubro nelas, ainda sim, que a pintura dele é de fato diferente de tudo o que se pintava antes. Todo mundo hoje sabe disso, claro, mas tive a impressão de que só então, ao rever suas telas, percebia por quê.

 

E isso me levou a refletir sobre o que era a pintura, antes dele, feita pelos impressionistasc. Já falei aqui da diferença entre a pintura de ateliê – realizada dentro de casa – e a pintura impressionista, feita ao ar livre.

 

Os pintores impressionistas descobriram a cor da paisagem sob a luz solar, a vibração da luz sobre a superfície das coisas. E, ao descobri‐las, descobriram também que o colorido da paisagem muda com o passar das horas: descobriram o tempo. É exemplo disso a série de quadros em que Monet mostra a catedral de Rouen em momentos diferentes do dia.

 

A descoberta da realidade que muda a cada minuto gerou uma pintura de pinceladas fluentes, que provocariam em Cézanne uma reação contrária: ele queria que a nova pintura se ajustasse a uma estrutura permanente, que ele admirava nas obras dos museus.

 

Daí sua opção inovadora, que geraria o cubismo, nascido dessa visão que queria mudar o mundo em pintura, de tal modo que as maçãs que ele pintou não pretendiam ser a cópia da maçã real: eram pintura.

 

Não sei que efeito teve essa nova visão da pintura sobre Van Gogh. A verdade é que, no começo, ele quis fazer da pintura a cópia dramática do sofrimento humano, particularmente dos mineiros de Borinage. Van Gogh que vai fascinar as pessoas e mudar a linguagem pictórica surge depois que ele conhece a pintura dos impressionistas e especialmente do impressionismo pontilhista.

 

Essa mudança da pintura de Van Gogh, que abandona as cores soturnas para entregar‐se ao colorido vibrante dos quadros neoimpressionistas é surpreendente, mas, sem dúvida, própria de uma personalidade que oscila entre atitudes e reações extremadas.

 

De qualquer modo, por mais surpreendente que seja essa mudança em seu modo de pintar, ela corresponde a uma necessidade indiscutível, legítima, tal a extraordinária força expressiva que constatamos nesses quadros. A conclusão inevitável é que foi na pintura que a personalidade complexa e angustiada de Van Gogh encontrou afinal o modo feliz de inventar‐se. Pintando, ele era saudável.

 

Mas é necessário acentuar que, a partir da incursão do pontilhismo, Van Gogh descobre seu próprio caminho, tornando- se criador de um universo pictórico que me fascina e fascina a todos que dele tomam conhecimento. E, no meu caso pelo menos, quanto mais o frequento, mais novo o descubro.

 

A verdade é que descobri o que eu já sabia, mas não sabia tantoa. É que, na sua pintura, os capinzais, os arbustos, os roseirais, os pinheiros, o céu estrelado, não são os que conhecemos: são uma outra realidade por ele criada, feita de pastas de cor, de pinceladas inesperadas que transformam a paisagem num mundo gráfico‐pictórico, enfim, em algo que só existe ali, nas telas por ele pintadas.

 

Não sei se consigo expressá‐lo: o que está em suas telas não é a paisagem real. Como Cézanne, mas em outra linguagem, ele mudou o mundo em pintura e a pintura em fascinante delíriod. A natureza é bela, mas a beleza de suas telas é outra, é invenção humana.

 

(GULLAR, Ferreira. As cores do silêncio. Folha de São Paulo. Agosto de 2014.)

A metonímia é uma figura de linguagem ou de palavra caracterizada pela substituição de um termo por outro, havendo entre eles algum tipo de ligação. Evidencia tal figura de linguagem o seguinte trecho literal:
  1. A “A verdade é que descobri o que eu já sabia, mas não sabia tanto.”
  2. B“Mas o artista, para inventar sua obra, trabalha dentro de determinados princípios [...]”
  3. C“E isso me levou a refletir sobre o que era a pintura, antes dele, feita pelos impressionistas.”
  4. D“Como Cézanne, mas em outra linguagem, ele mudou o mundo em pintura e a pintura em fascinante delírio.”
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GabaritoD — “Como Cézanne, mas em outra linguagem, ele mudou o mundo em pintura e a pintura em fascinante delírio.”

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Metonímia em "As cores do silêncio"

Gabarito: letra D. A alternativa D é a única que apresenta metonímia, pois nela ocorre a substituição de um termo por outro com relação de contiguidade (proximidade de sentido): "ele mudou o mundo em pintura" — o autor usa "mundo" para se referir à realidade representada nas telas, não ao planeta físico. Essa relação de substituição por proximidade é a essência da metonímia, como se lê no trecho: "Como Cézanne, mas em outra linguagem, ele mudou o mundo em pintura e a pintura em fascinante delírio."

O comando pede que se identifique o trecho em que ocorre metonímia, figura de palavra caracterizada pela substituição de um termo por outro com o qual mantém uma relação de proximidade (causa/efeito, autor/obra, parte/todo, continente/conteúdo, etc.). Diferente da metáfora, que se baseia em comparação implícita (relação de semelhança), a metonímia se apoia em uma relação real de contiguidade — os termos pertencem ao mesmo campo de referência. Para resolver, é preciso identificar, em cada alternativa, se há essa substituição por proximidade ou apenas sentido figurado por semelhança.

No texto, o autor discorre sobre a pintura de Van Gogh e sua revolução na linguagem pictórica. No trecho da alternativa D, ele afirma que Van Gogh, como Cézanne, "mudou o mundo em pintura" — ou seja, transformou a realidade (o mundo) em pintura (a representação artística). Aqui, "mundo" não designa o planeta, mas a realidade visível que o artista reinterpreta. Há, portanto, uma substituição: o termo "mundo" é usado no lugar de "realidade representada", estabelecendo uma relação de contiguidade (o mundo é o conteúdo da pintura). Essa é a metonímia.

A técnica para distinguir metonímia de metáfora é verificar se a substituição se baseia em proximidade real (metonímia) ou em semelhança subjetiva (metáfora). No trecho D, não há comparação implícita; há uma relação de parte/todo ou conteúdo/continente: o mundo (todo) é usado para designar a realidade que a pintura retrata (parte). Já nas demais alternativas, ou não há substituição, ou há apenas sentido figurado por semelhança (metáfora), como em "fascinante delírio" — que, isolado, seria metáfora, mas no contexto da alternativa D, o núcleo é a substituição de "mundo" por "realidade".

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre metonímia e metáfora. Em "fascinante delírio" há metáfora, mas a alternativa D é metonímica porque o termo "mundo" substitui "realidade representada" por contiguidade. Não se deixe levar pela palavra "delírio".

1Substituição por contiguidade
Causa/efeito
Autor/obra
Parte/todo
Continente/conteúdo
2Exemplo (alternativa D)
"Mundo" no lugar de "realidade representada"
3Distinção da metáfora
Metonímia: proximidade real
Metáfora: semelhança subjetiva
Metonímia
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Metonímia: Substituição por contiguidade (Causa/efeito, Autor/obra, Parte/todo, Continente/conteúdo); Exemplo (alternativa D) ("Mundo" no lugar de "realidade representada"); Distinção da metáfora (Metonímia: proximidade real, Metáfora: semelhança subjetiva)

Alternativa A — ❌ Incorreta

"A verdade é que descobri o que eu já sabia, mas não sabia tanto."

Este trecho apresenta um paradoxo ("descobri o que eu já sabia") e uma antítese ("sabia" × "não sabia tanto"), mas não há substituição de termos por contiguidade. A alternativa tangencia o tema: fala de uma figura de linguagem, mas não da metonímia.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Mas o artista, para inventar sua obra, trabalha dentro de determinados princípios [...]"

Aqui não há figura de linguagem; a frase é denotativa, descreve o processo de criação artística de forma literal. Não há substituição de termos, portanto não é metonímia. A alternativa contradiz o que se pede: apresenta um trecho sem qualquer recurso expressivo.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"E isso me levou a refletir sobre o que era a pintura, antes dele, feita pelos impressionistas."

O trecho é denotativo e coesivo (o pronome "isso" retoma a ideia anterior), mas não há substituição de termos por proximidade. A alternativa tangencia o tema: fala de pintura, mas não apresenta metonímia.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Como Cézanne, mas em outra linguagem, ele mudou o mundo em pintura e a pintura em fascinante delírio."

Aqui, "mundo" é usado no lugar de "realidade representada" — há metonímia por contiguidade (o mundo é o conteúdo da pintura). O autor não compara o mundo a algo; ele substitui o termo "realidade" por "mundo", estabelecendo uma relação de proximidade. Essa é a essência da metonímia: substituição por relação real de contiguidade.

Conclusão: a metonímia exige substituição por proximidade real (parte/todo, autor/obra, continente/conteúdo). No trecho D, "mundo" substitui "realidade representada" — relação de contiguidade. Nas demais, ou não há figura, ou há metáfora/paradoxo. Gabarito: letra D.

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