Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Instituto Consulplan 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa506992
Banca
Instituto Consulplan
Órgão
Pref Nova Friburgo
Ano
2023
Cargo
ACE ( )
Restos de Carnaval


          Não, não deste último Carnaval. Mas não sei por que este me transportou para a minha infância e para as quartas-feiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete. Uma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao Carnaval. Até que viesse o outro ano.
          E quando a festa ia se aproximando, como explicar a agitação íntima que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu.
          No entanto, na realidade, eu dele pouco participava. Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado. Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem.
          E as máscaras? Eu tinha medo, mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. À porta do meu pé de escada, se um mascarado falava comigo, eu de súbito entrava no contato indispensável com o meu mundo interior, que não era feito só de duendes e príncipes encantados, mas de pessoas com o seu mistério. Até meu susto com os mascarados, pois, era essencial para mim.
          Não me fantasiavam: no meio das preocupações com minha mãe doente, ninguém em casa tinha cabeça para Carnaval de criança. Mas eu pedia a uma de minhas irmãs para enrolar aqueles meus cabelos lisos que me causavam tanto desgosto e tinha então a vaidade de possuir cabelos frisados pelo menos durante três dias por ano. Nesses três dias, ainda, minha irmã acedia ao meu sonho intenso de ser uma moça – eu mal podia esperar pela saída de uma infância vulnerável – e pintava minha boca de batom bem forte, passando também ruge nas minhas faces. Então eu me sentia bonita e feminina, eu escapava da meninice.
           Mas houve um Carnaval diferente dos outros. Tão milagroso que eu não conseguia acreditar que tanto me fosse dado, eu, que já aprendera a pedir pouco. É que a mãe de uma amiga minha resolvera fantasiar a filha e o nome da fantasia era no figurino rosa. Para isso comprara folhas e folhas de papel crepom cor-de-rosa, com as quais, suponho, pretendia imitar as pétalas de uma flor. Boquiaberta, eu assistia pouco a pouco à fantasia tomando forma e se criando. Embora de pétalas o papel crepom nem de longe lembrasse, eu pensava seriamente que era uma das fantasias mais belas que jamais vira.
           Foi quando aconteceu, por simples acaso, o inesperado: sobrou papel crepom, e muito. E a mãe de minha amiga – talvez atendendo a meu apelo mudo, ao meu mudo desespero de inveja, ou talvez por pura bondade, já que sobrara papel – resolveu fazer para mim também uma fantasia de rosa com o que restara de material. Naquele Carnaval, pois, pela primeira vez na vida, eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma.
           Mas por que exatamente aquele Carnaval, o único de fantasia, teve que ser tão melancólico? De manhã cedo no domingo eu já estava de cabelos enrolados para que até de tarde o frisado pegasse bem. Mas os minutos não passavam, de tanta ansiedade. Enfim, enfim! Chegaram três horas da tarde: com cuidado para não rasgar o papel, eu me vesti de rosa.
          Quando eu estava vestida de papel crepom todo armado, ainda com os cabelos enrolados e ainda sem batom e ruge – minha mãe de súbito piorou muito de saúde, um alvoroço repentino se criou em casa e mandaram-me comprar depressa um remédio na farmácia. Fui correndo vestida de rosa – mas o rosto ainda nu não tinha a máscara de moça que cobriria minha tão exposta vida infantil – fui correndo, correndo, perplexa, atônita, entre serpentinas, confetes e gritos de Carnaval. A alegria dos outros me espantava.
             Quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se, minha irmã me penteou e pintou-me. Mas alguma coisa tinha morrido em mim. E, como nas histórias que eu havia lido sobre fadas que encantavam e desencantavam pessoas, eu fora desencantada; não era mais uma rosa, era de novo uma simples menina. Desci até a rua e ali de pé eu não era uma flor, era um palhaço pensativo de lábios encarnados. Na minha fome de sentir êxtase, às vezes começava a ficar alegre mas com remorso lembrava-me do estado grave de minha mãe e de novo eu morria.
           Só horas depois é que veio a salvação. E se depressa agarrei-me a ela é porque tanto precisava me salvar. Um menino de uns 12 anos, o que para mim significava um rapaz, esse menino muito bonito parou diante de mim e, numa mistura de carinho, grossura, brincadeira e sensualidade, cobriu meus cabelos, já lisos, de confete: por um instante ficamos nos defrontando, sorrindo, sem falar. E eu então, mulherzinha de 8 anos, considerei pelo resto da noite que enfim alguém me havia reconhecido: eu era, sim, uma rosa.

(LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro. Rocco. 1999. Jornal do Brasil. Em: 16/03/1968.)
A necessidade de sentir-se feliz era tão reprimida que fez com que a menina desenvolvesse dentro de si um medo, mesmo que momentâneo, que a fazia temer não realizar seu desejo. De certa forma, ela contrapõe sua alegria à enfermidade e isso fazia com que dentro dela, algo se desfalecesse. Tal fato pode ser confirmado em:
  1. ANaquele Carnaval, pois, pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma.”
  2. BE eu então, mulherzinha de 8 anos, considerei pelo resto da noite que enfim alguém me havia reconhecido: eu era, sim, uma rosa.”
  3. CNa minha fome de sentir êxtase, às vezes começava a ficar alegre mas com remorso lembrava-me do estado grave de minha mãe e de novo eu morria.”
  4. DEu tinha medo, mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara.”
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — “Na minha fome de sentir êxtase, às vezes começava a ficar alegre mas com remorso lembrava-me do estado grave de minha mãe e de novo eu morria.”

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O conflito entre a alegria e a culpa: a passagem que o confirma

Gabarito: letra C. A alternativa C é a única que reproduz, em paráfrase, exatamente o que o enunciado descreve: a menina contrapõe sua alegria à enfermidade da mãe e, por isso, algo se desfalece dentro dela. O trecho decisivo é: “Na minha fome de sentir êxtase, às vezes começava a ficar alegre mas com remorso lembrava-me do estado grave de minha mãe e de novo eu morria.” Aqui, o mas marca a oposição entre o impulso de alegria e a lembrança da doença, e o verbo morria traduz o desfalecimento interior — exatamente o que o enunciado chama de “algo se desfalecesse”.

O comando pede que você confirme uma afirmação com um trecho do texto. Isso é uma questão de compreensão literal: a resposta deve estar explícita em uma das alternativas, não deduzida. A banca quer que você localize a passagem que diz o que o enunciado parafraseia. Portanto, o método é: leia o enunciado, identifique as palavras-chave (“contrapõe sua alegria à enfermidade”, “algo se desfalecesse”) e procure o trecho que contenha esses elementos.

No texto, a menina vive um Carnaval especial — pela primeira vez tem uma fantasia de rosa — mas a alegria é interrompida pela piora da mãe. O parágrafo que descreve esse momento é o nono: ela se veste, mas é mandada comprar remédio; depois, quando tudo se acalma, “alguma coisa tinha morrido em mim”. A alternativa C capta exatamente esse movimento: a menina começa a ficar alegre, mas o remorso pela mãe doente a faz “morrer” de novo. É a única que une os dois polos — alegria e culpa — no mesmo trecho.

A técnica para resolver é simples: teste cada alternativa perguntando: “este trecho fala da oposição entre alegria e doença?”. As alternativas A, B e D falam de outros aspectos (a realização do desejo, o reconhecimento, o medo das máscaras) e, por isso, não confirmam a afirmação do enunciado. A C, ao contrário, é uma paráfrase fiel — reescreve com outras palavras o que o texto diz literalmente.

PEGA ESSA DICA!

Grife no enunciado as palavras que resumem a ideia (“contrapõe”, “enfermidade”, “desfalecesse”) e procure por sinônimos no texto: “remorso” = culpa, “estado grave de minha mãe” = enfermidade, “morria” = desfalecer. Se a alternativa não tiver esses elementos, descarte.

Alternativa A — ❌ Incorreta

“Naquele Carnaval, pois, pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma.”

Este trecho fala da realização do desejo — a menina finalmente terá uma fantasia e poderá “ser outra”. Não há nenhuma menção à enfermidade da mãe nem ao conflito entre alegria e culpa. A alternativa tangencia o tema: fala de um momento feliz, mas não do embate interior que o enunciado descreve. Erro: fuga ao tema.

Alternativa B — ❌ Incorreta

“E eu então, mulherzinha de 8 anos, considerei pelo resto da noite que enfim alguém me havia reconhecido: eu era, sim, uma rosa.”

Aqui, a menina se sente reconhecida pelo menino que a cobre de confete — é um momento de afirmação pessoal, não de conflito com a doença. Não há oposição entre alegria e enfermidade. A alternativa extrapola ao sugerir que isso confirma o enunciado, pois o trecho não aborda o remorso nem o desfalecimento. Erro: extrapolação.

Alternativa C — ✅ Correta

“Na minha fome de sentir êxtase, às vezes começava a ficar alegre mas com remorso lembrava-me do estado grave de minha mãe e de novo eu morria.”

Este é o trecho que confirma a afirmação do enunciado. O mas estabelece a oposição entre a alegria (“fome de sentir êxtase”) e a culpa (“remorso” pela mãe doente). O verbo morria é a metáfora do desfalecimento interior — exatamente o que o enunciado chama de “algo se desfalecesse”. A alternativa é uma paráfrase fiel do texto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

“Eu tinha medo, mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara.”

Este trecho fala do medo das máscaras e da suspeita de que o rosto humano é uma máscara. Não há relação com a enfermidade da mãe nem com o conflito entre alegria e culpa. A alternativa contradiz o enunciado ao trocar o objeto do conflito: aqui o medo é “vital e necessário”, não um desfalecimento. Erro: troca de conceito.

Conclusão: a banca pede a passagem que confirma a ideia de que a menina contrapõe sua alegria à doença da mãe. A única que faz isso é a letra C, pois contém os três elementos-chave: alegria (“fome de êxtase”), culpa (“remorso”) e desfalecimento (“morria”). As demais falam de outros aspectos e não sustentam a afirmação.

Gabarito: letra C

Link permanente: /questoes/qa506992