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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FUNDATEC 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa507083
Banca
FUNDATEC
Órgão
Pref Sapucaia do Sul
Ano
2023
Cargo
ATrib ( )

Nem bons e nem maus

 

Por Gilmar Marcílio

 

Confesse: você se considera totalmente do bem. Todos pensam assim a respeito de si próprios. Talvez até quem está na cadeia pagando por um crime  hediondo. É difícil estabelecer um juízo crítico quando nos falta distanciamento. Resistamos a essa tendência, sem dúvida imatura. A verdade é que somos uma mescla, um pêndulo inclinando-se ora para um lado, ora para o outro. Ao dizer isso, evito fazer um julgamento de valor afirmando sermos seres potencialmente ruins. As circunstâncias moldam e revelam com clareza os comportamentos. A raiva, constantemente, faz vir à tona sentimentos que julgávamos não fazer parte da nossa natureza. Muitos nem se confrontam com situações de excessiva violência para reagir com destempero. Ninguém sabe como vai se portar, senão diante de circunstâncias concretas. Sem contar o fato de mudarmos tanto com o passar dos anos, a ponto de percebermos que a agressividade foi abafada pela necessidade de agir segundo os códigos de civilidade. Mas ela está aí.

 

Vamos lembrar um exemplo banal. Você está no trânsito e um motorista invade a frente do seu carro. Toca a buzina e ele responde com um gesto obsceno à sua tentativa de lhe mostrar o quão equivocado estava. É vital ter um bom equilíbrio emocional para ignorar isso e ir em frente, plácido e sereno. Mas há uma maneira eficaz de se proteger desse veneno. Basta entender que nada disso foi feito contra a sua pessoa. Provavelmente o tresloucado cometerá mais uma infração logo adiante. Tento pôr em prática essa lição. Acesso meu modo zen de ser e, no máximo, partilho minha indignação ao chegar em casa. Acredite, é péssimo despender energia em algo que daí a cinco minutos será aconselhável esquecer. Aliás, é extremamente indicado não se contaminar por essas miudezas. A vida é maior, muitas vezes descobrimos tardiamente.

 

Guardamos a sensação de estar indo em sentido contrário aos princípios que nos regem. Distinguimos o caminho correto a ser seguido, mas na hora “h” parece que estamos sendo empurrados na direção oposta. Admitamos: anjos e demônios povoam o espaço interior de cada um. Essa história de terceirizar a responsabilidade, achando que só os demais são maus, deveria ser desconsiderada ainda na adolescência. Mas para os padrões atuais, ela se estende excessivamente e daí... O segredo para uma boa conduta é deixar de lado a condescendência e assumir: precisamos trabalhar incessantemente para nos tornarmos melhores.

 

Nada provoca tão forte alegria em mim do que vencer alguma má tendência. Um hábito deplorável, pequenos e persistentes vícios, certa resistência em abandonar algumas prisões mentais, roubando a autonomia para agir. O processo de libertação pode ser longo, mas é bastante prazeroso quando chega ao final. Coloque uma lupa sobre o real e, com honestidade, admita: aqui acertei, ali errei. Este é o certificado de termos chegado à idade adulta.

 

(Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br – texto adaptado especialmente para esta prova).

Considerando o texto principal e a charge apresentada abaixo, analise as seguintes asserções e a relação proposta entre elas:

Imagem associada para resolução da questão

I. A charge tem relação com uma metáfora empregada no texto.

 

POIS

 

II. Ambas as metáforas apresentam o ser humano como presa de anjos e demônios interiores que tentam lhe ditar o que fazer.

 

A respeito dessas asserções, assinale a alternativa correta.

  1. AAs assertivas I e II são verdadeiras, e a II é uma justificativa correta da I.
  2. BAs assertivas I e II são verdadeiras, mas a II não é uma justificativa correta da I.
  3. CA assertiva I é verdadeira, mas a II é falsa.
  4. DA assertiva I é falsa, mas a II é verdadeira.
  5. EAs assertivas I e II são falsas.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — As assertivas I e II são verdadeiras, e a II é uma justificativa correta da I.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Metáfora e relação texto-charge — Gabarito: letra A.

Gabarito: letra A. As duas asserções são verdadeiras, e a II justifica corretamente a I. A charge dialoga com a metáfora dos anjos e demônios empregada no texto, e essa metáfora representa exatamente o que a II afirma: o ser humano como presa de forças interiores que disputam o comando de suas ações. A passagem que ancora essa leitura está no 3º parágrafo do texto.

"Admitamos: anjos e demônios povoam o espaço interior de cada um."

Essa frase é uma metáfora: anjos e demônios não existem literalmente dentro de nós; são imagens que representam as tendências boas e más que coexistem em cada pessoa. A charge, ao retratar essa disputa interior, estabelece uma relação direta com essa figura de linguagem. A II, portanto, não apenas é verdadeira, mas explica o porquê da relação apontada na I: é porque ambas as metáforas (a do texto e a da charge) apresentam o ser humano como palco de um conflito entre forças internas que a charge tem relação com a metáfora do texto.

O comando da questão

A questão pede que você analise duas asserções e a relação de justificativa entre elas. Isso é diferente de simplesmente julgar se cada uma é verdadeira ou falsa: é preciso verificar também se a segunda explica a primeira. O verbo "justificativa" no enunciado é a chave: a II deve ser a causa ou o fundamento da I.

O texto e a charge

O texto de Gilmar Marcílio defende que ninguém é totalmente bom ou mau — somos uma mescla, um pêndulo. No 3º parágrafo, o autor usa a metáfora religiosa para sintetizar essa ideia:

"Admitamos: anjos e demônios povoam o espaço interior de cada um."

Aqui, "anjos" e "demônios" não são seres sobrenaturais, mas símbolos das nossas inclinações positivas e negativas. A charge (não reproduzida, mas descrita no enunciado) retrata essa mesma disputa interior, com figuras que puxam o personagem para lados opostos. Assim, a charge ilustra visualmente a metáfora do texto.

A técnica: metáfora e relação texto-imagem

Metáfora é a figura de linguagem em que uma palavra ou expressão é usada fora do seu sentido literal, por comparação implícita (sem conectivo comparativo). Quando o autor diz que "anjos e demônios povoam o espaço interior", ele não está afirmando que existem criaturas celestiais e infernais dentro de nós; está comparando, de forma implícita, nossas tendências boas e más a anjos e demônios.

A charge, por sua vez, concretiza essa metáfora: ela mostra, em imagens, o que o texto diz em palavras. A relação entre texto e charge é de intertextualidade — a charge dialoga com o texto, retomando sua ideia central por meio de outra linguagem (a visual).

Análise das asserções

Asserção I — ✅ Verdadeira

A charge tem relação com uma metáfora empregada no texto. Correta. A metáfora dos "anjos e demônios" é o ponto de contato entre o texto e a charge. A charge representa visualmente essa disputa interior, portanto há relação direta.

Asserção II — ✅ Verdadeira

Ambas as metáforas apresentam o ser humano como presa de anjos e demônios interiores que tentam lhe ditar o que fazer. Correta. O texto diz que "anjos e demônios povoam o espaço interior de cada um", e a charge mostra esse conflito. A palavra "presa" é adequada: o texto fala em "seremos empurrados na direção oposta" e em "roubando a autonomia para agir", o que indica que essas forças internas influenciam (ou até dominam) nossas escolhas.

Relação entre I e II — ✅ A II justifica a I

A II explica por que a charge tem relação com a metáfora do texto: porque ambas representam o mesmo conflito interior. A charge não é uma ilustração aleatória; ela é uma tradução visual da metáfora textual. Portanto, a II é a razão da I.

Alternativas

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

As assertivas I e II são verdadeiras, e a II é uma justificativa correta da I. Exatamente o que foi demonstrado: a charge dialoga com a metáfora do texto (I), e a II explica que ambas representam o ser humano como presa de anjos e demônios interiores, o que fundamenta a relação.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Afirma que a II não justifica a I. Erro: a II é justamente a explicação da I. A charge só tem relação com a metáfora do texto porque ambas compartilham a mesma imagem do conflito interior. A banca tenta confundir o candidato que não percebe o vínculo causal.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Diz que a I é verdadeira, mas a II é falsa. Erro: a II também é verdadeira. A charge e o texto usam a mesma metáfora dos anjos e demônios interiores. Quem marca esta opção provavelmente não relacionou a charge ao texto ou interpretou a charge de forma literal.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Diz que a I é falsa, mas a II é verdadeira. Erro: a I é verdadeira. A charge tem relação com a metáfora do texto, pois ambas tratam do mesmo tema. Esta opção inverte a relação: a charge não é independente do texto; ela o referencia.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Diz que ambas são falsas. Erro: ambas são verdadeiras. O texto traz a metáfora dos anjos e demônios, e a charge a representa visualmente. Esta opção é a mais distante do gabarito, pois nega uma relação evidente.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre a metáfora do texto ("anjos e demônios") e a representação da charge, que pode ser vista como literal (anjos e demônios de verdade) ou como outra figura. Mas a charge é uma ilustração metafórica do texto, não uma cena literal.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de relação texto-charge, pergunte: "qual figura de linguagem do texto a charge representa?" e "essa representação é literal ou simbólica?". Se for simbólica, há metáfora.

Conclusão: a charge é a materialização visual da metáfora dos anjos e demônios presente no texto. A II explica a I, pois é o compartilhamento dessa metáfora que estabelece a relação entre texto e imagem. Gabarito: letra A.

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