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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Avança SP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa507242
Banca
Avança SP
Órgão
Pref Louveira
Ano
2023
Cargo
Prof ( )

Experiência nova

 

Pegaram o cara em flagrante roubando galinhas de um galinheiro e levaram para a delegacia.

 

— Que vida mansa, hein, vagabundo? Roubando galinha pra ter o que comer sem precisar trabalhar. Vai pra cadeia!

 

— Não era pra mim não. Era pra vender.

 

— Pior. Venda de artigo roubado. Concorrência desleal com o comércio estabelecido. Sem-vergonha!

 

— Mas eu vendia mais caro.

 

— Mais caro?

 

— Espalhei o boato de que as galinhas do galinheiro eram bichadas e as minhas não. E que as do galinheiro botavam ovos brancos enquanto as minhas botavam ovos marrons.

 

— Mas eram as mesmas galinhas, safado.

 

— Os ovos das minhas eu pintava.

 

— Que grande pilantra…

 

Mas já havia um certo respeito no tom do delegado.

 

— Ainda bem que tu vai preso. Se o dono do galinheiro te pega…

 

— Já me pegou. Fiz um acerto com ele. Me comprometi a não espalhar mais boato sobre as galinhas dele, e ele se comprometeu a aumentar os preços dos produtos dele para ficarem iguais aos meus. Convidamos outros donos de galinheiro a entrar no nosso esquema. Formamos um oligopólio. Ou, no caso, um ovigopólio.

 

— E o que você faz com o lucro do seu negócio?

 

— Especulo com dólar. Invisto alguma coisa no tráfico de drogas. Comprei alguns deputados. Dois ou três ministros. Consegui a exclusividade no suprimento de galinhas e ovos para os programas de alimentação do governo e superfaturo os preços.

 

O delegado mandou pedir um cafezinho para o preso e perguntou se a cadeira estava confortável, se ele não queria uma almofada. Depois perguntou:

 

— Doutor, não me leve a mal, mas com tudo isso, o senhor não está milionário?

 

— Trilionário. Sem contar o que eu sonego do Imposto de Renda e o que tenho depositado ilegalmente no exterior.

 

— E, com tudo isso, o senhor continua roubando galinhas?

 

— Às vezes. Sabe como é.

 

— Não sei não, excelência. Me explique.

 

— É que, em todas essas minhas atividades, eu sinto falta de uma coisa. Do risco, entende? Daquela sensação de perigo, de estar fazendo uma coisa proibida, da iminência do castigo. Só roubando galinhas eu me sinto realmente um ladrão, e isso é excitante. Como agora. Fui pego, finalmente. Vou para a cadeia. É uma experiência nova.

 

— O que é isso, excelência? O senhor não vai ser preso não.

 

— Mas fui pego em flagrante pulando a cerca do galinheiro!

 

— Sim. Mas primário, e com esses antecedentes…

 

VERISSIMO, L. F. Verissimo antológico: meio

século de crônicas, ou coisa parecida. São

Paulo: Objetiva, 2020.

Texto para responder à questão.     No texto ‘Experiência nova’, de Luís Fernando Veríssimo, o humor é desencadeado, principalmente:
  1. Apela situação de roubo em um galinheiro.
  2. Bpela admiração do delegado pelo ladrão de galinhas.
  3. Cpelo ladrão de galinhas estar disposto a novos desafios.
  4. Dpelos xingamentos usados pelo delegado para se referir ao ladrão.
  5. Epela educação de ambos os personagens ao longo do diálogo.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — pela admiração do delegado pelo ladrão de galinhas.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Humor em 'Experiência nova', de Veríssimo

Gabarito: letra B. O humor da crônica é desencadeado, principalmente, pela admiração do delegado pelo ladrão de galinhas, que se constrói ao longo do diálogo: o delegado começa tratando o preso como "vagabundo" e termina chamando-o de "excelência", mandando servir cafezinho e perguntando se a cadeira está confortável. Essa mudança de tratamento é o eixo cômico do texto, como se lê no trecho em que o delegado, após ouvir a lista de crimes do ladrão, pergunta: "Doutor, não me leve a mal, mas com tudo isso, o senhor não está milionário?" e, ao final, decide não prendê-lo: "Sim. Mas primário, e com esses antecedentes…".

O comando pede que se identifique o principal elemento que desencadeia o humor. Isso exige uma leitura global do texto, percebendo o movimento de construção da graça: não é o roubo em si, nem os xingamentos, mas a progressiva reverência do delegado diante da "carreira" do ladrão. A resposta mora na virada de tom do delegado, que passa de autoridade a admirador.

O texto é uma crônica narrativa com diálogo. O narrador apresenta a cena: um ladrão é pego roubando galinhas. O delegado o xinga, mas, à medida que o ladrão revela seu "currículo" (oligopólio, especulação, tráfico, compra de políticos, superfaturamento), o delegado muda de postura. O clímax do humor está na inversão de papéis: o ladrão vira "excelência" e o delegado vira seu admirador, chegando a libertá-lo. A graça está nessa subversão da expectativa: quem deveria ser punido é tratado com deferência.

A técnica para resolver é identificar o eixo da narrativa: o que move a história e gera o efeito cômico. Não basta localizar um elemento isolado (o roubo, os xingamentos); é preciso perceber a relação entre os personagens e como ela se transforma. O humor nasce da quebra de expectativa — o leitor espera que o ladrão seja punido, mas o delegado o admira e o solta. Essa inversão é o coração da crônica.

NÃO CAIA NESSA!

A banca oferece alternativas que descrevem elementos presentes no texto (roubo, xingamentos, desafios), mas que são secundários — o humor não está neles, mas na reação do delegado. A alternativa correta é a que capta o movimento central da narrativa.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar o humor em uma crônica, pergunte: "o que quebra a expectativa do leitor?" A resposta é o eixo cômico. Aqui, é a admiração do delegado por um ladrão.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A situação de roubo em um galinheiro é o ponto de partida da narrativa, mas não é o que gera o humor. O roubo é apenas o cenário inicial; a graça está na conversa que se segue. O texto não faz piada com o ato de roubar galinhas em si, mas com a reação do delegado ao descobrir o "currículo" do ladrão. A alternativa tangencia o tema: fala de um elemento presente, mas não do que desencadeia o humor.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A admiração do delegado pelo ladrão é o eixo cômico do texto. Isso fica explícito na mudança de tratamento: o delegado começa chamando-o de "vagabundo" e termina chamando-o de "excelência", mandando servir cafezinho e perguntando se a cadeira está confortável. O trecho decisivo é:

"O delegado mandou pedir um cafezinho para o preso e perguntou se a cadeira estava confortável, se ele não queria uma almofada."

E, ao final, o delegado decide não prendê-lo:

"Sim. Mas primário, e com esses antecedentes…"

A graça está na inversão de papéis: o ladrão, que deveria ser punido, é tratado com deferência e admiração. Essa é a principal fonte de humor.

Alternativa C — ❌ Incorreta

O ladrão estar disposto a novos desafios é um detalhe da sua fala final ("Só roubando galinhas eu me sinto realmente um ladrão"), mas não é o que desencadeia o humor. A alternativa extrapola: transforma um elemento secundário em principal. O humor não está na disposição do ladrão, mas na reação do delegado a essa disposição.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Os xingamentos do delegado ("vagabundo", "sem-vergonha", "pilantra") aparecem no início do diálogo, mas são superados pela admiração que se segue. O humor não está nos xingamentos, mas na mudança de tom — do xingamento à reverência. A alternativa restringe o alcance do texto: foca em um elemento inicial, ignorando o movimento central.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A educação de ambos os personagens é uma característica superficial do diálogo (o ladrão trata o delegado com respeito, o delegado passa a tratá-lo com deferência), mas não é o que gera o humor. A alternativa tangencia o tema: fala de um aspecto do diálogo, mas não do que o torna cômico. O humor está na subversão da hierarquia, não na polidez em si.

Conclusão: o humor da crônica é desencadeado pela admiração do delegado pelo ladrão, que inverte a relação de poder esperada. As demais alternativas apontam elementos presentes no texto, mas secundários — não são o eixo cômico. Ao resolver questões de humor, identifique o movimento central da narrativa: o que quebra a expectativa do leitor.

Gabarito: letra B

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