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Questão de Português — Partícula "Se" — Avança SP 2023

PortuguêsPartícula "Se"
Código
qa507961
Banca
Avança SP
Órgão
FMSRC
Ano
2023
Cargo
Ana ( )

Caso de divórcio (I)

 

O divórcio é necessário. Todos conhecem dezenas de casos que convenceriam até um arcebispo. Eu mesmo conheço meia dúzia. Vou contar uns três ou quatro. O nome dele é Morgadinho. Baixo, retaco, careca precoce. Você conhece o tipo. No carnaval se fantasia de legionário romano e no futebol de praia dá pau que não é fácil. Frequenta o clube e foi lá que conheceu sua mulher, mais alta do que ele, morena, linda, as unhas do pé pintadas de roxo. Na noite de núpcias, ele lhe declarou.

 

― Se você algum dia me enganar, eu te esgoelo.

 

― Ora, Morgadinho…

 

Ela se chama Fátima Araci. Ou é Mara Sirlei? Não, Fátima Araci. Não é que ela não goste do Morgadinho, é que nunca prestou muita atenção no marido. Na cerimônia do casamento já dava para notar. O olhar dela passava dois centímetros acima da careca do Morgadinho. Ela estava maravilhada com o próprio casamento e o Morgadinho era um simples acessório daquele dia inesquecível. Como um castiçal ou um coroinha. No álbum de fotografias do casamento que ela guardou junto com a grinalda, há esta constatação terrível: o Morgadinho não aparece. Aparece o coroinha mas não aparece o Morgadinho. Um ou dois meses depois do casamento, o Morgadinho sugeriu que ela lhe desse um apelido. Um nome secreto, carinhoso, para ser usado na intimidade, algo que os unisse ainda mais, sei lá. Ela prometeu que ia pensar no assunto. O Morgadinho insistiu.

 

― Eu te chamo de Fafá e você me chama de qualquer coisa.

 

― Vamos ver.

 

Uma semana depois, Morgadinho voltou ao assunto.

 

― Já pensaste num apelido para mim, Fafá?

 

― Ainda não.

 

Três semanas depois, ele mesmo deu um palpite.

 

― Quem sabe Momo?

 

― Não.

 

― Gagá? Fofura? ― Tomou coragem e, rindo meio sem jeito, arriscou:

 

― Tigre?

 

Ela nem riu. Pediu que ele tivesse paciência. Estava lendo o Sétimo Céu. Tinha tempo. O Morgadinho não desistiu. Às vezes, chegava em casa com uma novidade.

 

― Que tal este: “Barrilzinho”?

 

― Não gosto.

 

Outra vez, os dois estavam passando por um quintal e ouviram uma criança chamando um cachorro.

 

― Pitoco. Vem, Pitoco.

 

Morgadinho virou-se para a mulher, cheio de esperança, mas ela fez que não com a cabeça. Finalmente (passava um ano do casamento e nada de apelido), Morgadinho perdeu a paciência. Estavam os dois na cama. Ela pintava as unhas do pé.

 

― Você não me ama.

 

― Ora, Morgadinho…

 

― Até hoje não pensou num apelido para mim.

 

― Está bem, sabe o que tu és? Um xaropão. Taí teu apelido. Xaropão.

 

O Morgadinho já tinha enfrentado várias levas de policiais a tapa. Uma vez desmontara um bar depois de um mal-entendido e saíra para a rua dando cadeiradas em meio mundo. Homens, mulheres e crianças. Mas naquela noite virou-se para o lado e chorou no travesseiro. Aí a mulher, com cuidado para não estragar o esmalte, chegou perto do seu ouvido e disse, rindo:

 

― Xaropãozinho… ― Rindo. Rindo!

 

Luís Fernando Verissimo. Ed Mort – todas as histórias. 1ª Ed. São Paulo: Objetiva, 2011.

Considere as seguintes sentenças, retiradas do texto:

 

I. “No carnaval se fantasia de legionário romano e no futebol de praia dá pau que não é fácil.”

 

II. “― Se você algum dia me enganar, eu te esgoelo.”

 

Nas sentenças dadas, a palavra “se” atua, respectivamente, como:

  1. Apronome reflexivo e conjunção integrante.
  2. Bconjunção integrante e conjunção condicional.
  3. Cpronome reflexivo e conjunção condicional.
  4. Dpronome reflexivo e pronome reflexivo.
  5. Econjunção integrante e conjunção integrante.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — pronome reflexivo e conjunção condicional.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Funções do "se" no texto: pronome reflexivo e conjunção condicional

Gabarito: letra C. Na sentença I, o "se" é pronome reflexivo (equivale a "a si mesmo"); na sentença II, é conjunção condicional (equivale a "caso"). A prova está no próprio texto: em "se fantasia", o sujeito pratica e sofre a ação; em "Se você algum dia me enganar", o "se" introduz uma hipótese para a ameaça "eu te esgoelo".

O comando da questão

A questão pede a classificação morfossintática da palavra "se" em duas ocorrências específicas do texto. Isso é diferente de interpretar o sentido global: aqui, o foco é a função gramatical que o "se" exerce em cada frase. Para resolver, você precisa aplicar a técnica de substituição e observar o contexto sintático — não basta ler o texto por cima.

O texto e o contexto das ocorrências

No trecho do conto, temos duas frases com "se":

"No carnaval se fantasia de legionário romano e no futebol de praia dá pau que não é fácil."

"Se você algum dia me enganar, eu te esgoelo."

Na primeira, o verbo "fantasiar" é usado de forma pronominal: "fantasiar-se" significa "vestir-se", "colocar fantasia em si mesmo". O sujeito (Morgadinho) pratica a ação e a sofre — ele é, ao mesmo tempo, agente e paciente. Por isso, o "se" é pronome reflexivo, exercendo função de objeto direto (equivale a "a si mesmo").

Na segunda, o "se" inicia uma oração que expressa uma condição para a ação da oração principal: "se você me enganar" é a hipótese que, se realizada, desencadeia "eu te esgoelo". O "se" pode ser substituído por "caso" sem alterar o sentido: "Caso você algum dia me engane, eu te esgoelo". Isso caracteriza a conjunção condicional.

A técnica que decide

Para distinguir as funções do "se", use estas substituições:

  • Pronome reflexivo: substitua por "a si mesmo" / "a si própria". Ex.: "ele se feriu" → "ele feriu a si mesmo".

  • Conjunção condicional: substitua por "caso". Ex.: "Se chover, não saio" → "Caso chova, não saio".

  • Conjunção integrante: substitua a oração por "isso". Ex.: "Não sei se ele vem" → "Não sei isso".

Aplicando ao texto:

  • "se fantasia" → "fantasia a si mesmo" → reflexivo.

  • "Se você me enganar" → "Caso você me engane" → condicional.

Análise das alternativas

1Pronome reflexivo
Equivale a "a si mesmo"
Ação recai no próprio sujeito
Ex.: "se fantasia"
2Conjunção condicional
Equivale a "caso"
Introduz hipótese
Ex.: "Se você me enganar"
3Conjunção integrante (distrator)
Equivale a "isso"
Oração como termo da principal
Ex.: "não sei se ele vem"
"Se" — funções
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"Se" — funções: Pronome reflexivo (Equivale a "a si mesmo", Ação recai no próprio sujeito, Ex.: "se fantasia"); Conjunção condicional (Equivale a "caso", Introduz hipótese, Ex.: "Se você me enganar"); Conjunção integrante (distrator) (Equivale a "isso", Oração como termo da principal, Ex.: "não sei se ele vem")

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erra ao classificar o segundo "se" como conjunção integrante. A conjunção integrante introduz uma oração que funciona como termo da principal (ex.: "perguntou se viria" = "perguntou isso"). No texto, "Se você me enganar" não é objeto nem sujeito; é uma circunstância de condição. A substituição por "caso" prova o valor condicional.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erra ao classificar o primeiro "se" como conjunção integrante. "Se fantasia" não admite a troca por "isso" ("fantasia isso" não faz sentido). O verbo "fantasiar-se" é pronominal e o "se" é reflexivo, pois a ação recai sobre o próprio sujeito.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Classifica corretamente: pronome reflexivo no primeiro caso ("se fantasia" = "fantasia a si mesmo") e conjunção condicional no segundo ("Se você me enganar" = "Caso você me engane"). É a única alternativa que acerta as duas funções.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erra ao classificar o segundo "se" como pronome reflexivo. Em "Se você algum dia me enganar", o "se" não indica reflexividade — não há ação que recai sobre o sujeito. Ele introduz uma condição, sendo conjunção condicional.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erra ao classificar ambos como conjunção integrante. O primeiro "se" é pronome reflexivo (como visto), e o segundo é condicional. Nenhum dos dois é integrante.

NÃO CAIA NESSA!

A banca oferece "conjunção integrante" como distrator porque é uma função comum do "se", mas ela exige que a oração seja um termo da principal (ex.: "não sei se ele vem"). No texto, o segundo "se" expressa hipótese — teste com "caso" e a pegadinha cai.

PEGA ESSA DICA!

Antes de classificar o "se", pergunte: "posso trocar por 'a si mesmo'?" (reflexivo), "por 'caso'?" (condicional), "por 'isso'?" (integrante). A substituição correta revela a função.

Gabarito: letra C — pronome reflexivo e conjunção condicional, respectivamente.

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