Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Instituto Consulplan 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa508021
Banca
Instituto Consulplan
Órgão
Pref Jequié
Ano
2023
Cargo
Ate Far ( )

Notícia de jornal

 

Leio no jornal a notícia de que um homem morreu de fome. Um homem de cor branca, trinta anos presumíveis, pobremente vestido, morreu de fome, sem socorros, em pleno centro da cidade, permanecendo deitado na calçada durante setenta e duas horas, para finalmente morrer de fome. Morreu de fome.

 

Depois de insistentes pedidos de comerciantes, uma ambulância do Pronto Socorro e uma radiopatrulha foram ao local, mas regressaram sem prestar auxílio ao homem, que acabou morrendo de fome.

 

Um homem que morreu de fome. O comissário de plantão (um homem) afirmou que o caso (morrer de fome) era alçada da Delegacia de Mendicância, especialista em homens que morrem de fome. E o homem morreu de fome.

 

O corpo do homem que morreu de fome foi recolhido ao Instituto Médico Legal sem ser identificado. Nada se sabe dele, senão que morreu de fome. Um homem morre de fome em plena rua, entre centenas de passantes. Um homem caído na rua. Um bêbado. Um vagabundo. Um mendigo, um anormal, um tarado, um pária, um marginal, um proscrito, um bicho, uma coisa – não é homem. E os outros homens cumprem seu destino de passantes, que é o de passar. Durante setenta e duas horas todos passam, ao lado do homem que morre de fome, com um olhar de nojo, desdém, inquietação e até mesmo piedade, ou sem olhar nenhum, e o homem continua morrendo de fome, sozinho, isolado, perdido entre os homens, sem socorro e sem perdão.

 

Não é de alçada do comissário, nem do hospital, nem da radiopatrulha, por que haveria de ser da minha alçada? Que é que eu tenho com isso? Deixa o homem morrer de fome.

 

E o homem morre de fome. De trinta anos presumíveis. Pobremente vestido. Morreu de fome, diz o jornal. Louve-se a insistência dos comerciantes, que jamais morrerão de fome, pedindo providências às autoridades. As autoridades nada mais puderam fazer senão remover o corpo do homem. Deviam deixar que apodrecesse, para escarmento dos outros homens. Nada mais puderam fazer senão esperar que morresse de fome.

 

E ontem, depois de setenta e duas horas de inanição em plena rua, no centro mais movimentado da cidade do Rio de Janeiro, um homem morreu de fome. Morreu de fome.

 

(SABINO, Fernando. A mulher do vizinho. Editora Sabiá. 1997.

Adaptado.)

O objetivo comunicativo desta crônica é:
  1. AEnfatizar as circunstâncias vivenciadas pelas pessoas em situação de rua considerando sua miserabilidade e penúria.
  2. BEvidenciar o absurdo que é a naturalização da morte em plena cidade movimentada diante de um público que não se comove.
  3. CCriticar a ambulância do Pronto Socorro e a radiopatrulha que não prestaram assistência ao homem por ele ser apenas um “mendigo”.
  4. DTestemunhar repugnância em relação à sociedade que não prevê as políticas públicas responsáveis por inibir ou precaver tal situação.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — Evidenciar o absurdo que é a naturalização da morte em plena cidade movimentada diante de um público que não se comove.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Objetivo comunicativo da crônica de Fernando Sabino

Gabarito: letra B. A crônica de Fernando Sabino tem como objetivo comunicativo evidenciar o absurdo que é a naturalização da morte em plena cidade movimentada diante de um público que não se comove — e a prova está na repetição obsessiva de "morreu de fome" e na descrição dos passantes que "cumprem seu destino de passantes, que é o de passar". O texto não se limita a relatar um fato; ele denuncia, com ironia, a indiferença coletiva diante de uma morte que deveria chocar, mas que é tratada como algo corriqueiro.

O comando pede o objetivo comunicativo, ou seja, a intenção central do autor ao escrever o texto. Isso é diferente de pedir um detalhe específico ou uma informação explícita: exige que o candidato identifique a tese que atravessa toda a crônica. Para isso, é preciso ler o texto como um todo, percebendo o movimento argumentativo: o autor narra a morte de um homem, mostra a inércia das autoridades e dos passantes, e ironiza a burocracia que trata o caso como "alçada da Delegacia de Mendicância". O efeito acumulado é a denúncia da naturalização da morte.

A técnica para resolver é: qual alternativa resume a intenção global do texto? A letra B é a única que capta essa intenção. As demais ou restringem o alcance (A, C, D) ou acrescentam opiniões que o autor não externou (D). Vamos analisar cada uma.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa A afirma que o objetivo é "enfatizar as circunstâncias vivenciadas pelas pessoas em situação de rua considerando sua miserabilidade e penúria". O texto realmente descreve o homem como "pobremente vestido" e "morrendo de fome", mas isso é detalhe, não o objetivo central. O autor não se detém na condição social do homem como tema principal; ele usa essa condição para criticar a indiferença coletiva. A alternativa restringe o alcance do texto, transformando um elemento periférico em objetivo. Além disso, o texto não fala de "pessoas em situação de rua" em geral, mas de um caso específico — a generalização é indevida.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa B é a única que sintetiza a tese do texto. O autor repete à exaustão "morreu de fome" — a repetição é um recurso estilístico que enfatiza o absurdo de uma morte que ocorre "em pleno centro da cidade" e "entre centenas de passantes". A passagem decisiva é:

"E os outros homens cumprem seu destino de passantes, que é o de passar. Durante setenta e duas horas todos passam, ao lado do homem que morre de fome, com um olhar de nojo, desdém, inquietação e até mesmo piedade, ou sem olhar nenhum, e o homem continua morrendo de fome, sozinho, isolado, perdido entre os homens, sem socorro e sem perdão."

Aqui está a chave: os passantes não se comovem — passam, olham com nojo ou desdém, ou nem olham. O autor não se limita a narrar; ele denuncia que a morte virou algo natural, banal. A ironia está em frases como "Louve-se a insistência dos comerciantes, que jamais morrerão de fome" — elogio irônico que escancara a hipocrisia. Portanto, o objetivo é evidenciar o absurdo da naturalização da morte, exatamente o que B diz.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa C diz que o objetivo é "criticar a ambulância do Pronto Socorro e a radiopatrulha que não prestaram assistência ao homem por ele ser apenas um 'mendigo'". O texto menciona que a ambulância e a radiopatrulha "regressaram sem prestar auxílio", e que o comissário disse que o caso era "alçada da Delegacia de Mendicância". Mas isso é parte da crítica, não o objetivo central. O autor critica a burocracia e a desumanização de forma mais ampla — não apenas esses órgãos, mas toda a sociedade que passa indiferente. A alternativa restringe o foco a um aspecto específico, quando o texto tem um alcance maior. Além disso, o texto não diz que eles agiram "por ele ser apenas um 'mendigo'" — isso é uma inferência que o texto não autoriza explicitamente; o comissário apenas afirma que o caso era de outra delegacia, sem explicitar o motivo.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa D afirma que o objetivo é "testemunhar repugnância em relação à sociedade que não prevê as políticas públicas responsáveis por inibir ou precaver tal situação". O texto tem um tom de denúncia, mas não fala em "políticas públicas" — isso é uma extrapolação. O autor não menciona soluções ou responsabilidades do Estado nesse sentido; ele se limita a descrever a indiferença e a burocracia. A palavra "repugnância" também é forte demais: o autor usa ironia e indignação, mas não chega a "testemunhar repugnância" de forma explícita. A alternativa acrescenta opinião que não está no texto, misturando o ponto de vista do candidato com o do autor.

Conclusão: A questão pede o objetivo comunicativo, que é a tese do texto. A letra B é a única que sintetiza a intenção global: denunciar a naturalização da morte e a indiferença dos passantes. As demais ou restringem o alcance (A, C) ou extrapolam com ideias que o texto não traz (D).

PEGA ESSA DICA!

Para questões de "objetivo comunicativo", pergunte-se: "qual é a intenção central do autor?" — não se deixe levar por detalhes ou críticas específicas. A tese costuma estar na repetição de palavras-chave e no tom do texto (aqui, a ironia).

NÃO CAIA NESSA!

A banca oferece alternativas que tocam em temas presentes no texto (miserabilidade, crítica às autoridades, políticas públicas), mas que não captam a intenção global. A correta exige síntese, não um detalhe.

Gabarito: letra B

Link permanente: /questoes/qa508021