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Questão de Português — Figuras de Linguagem — FUNDATEC 2023

PortuguêsFiguras de Linguagem
Código
qa508186
Banca
FUNDATEC
Órgão
GHC
Ano
2023
Cargo
Aux ( )

A questão refere-se ao texto abaixo.

 

Preferiria congelar nos 50, mas deter o tempo como?

 

Por Martha Medeiros

 

Tem pessoas que adoram obras, estão sempre derrubando uma parede, trocando um piso, consertando um telhado, às vezes tudo isso ao mesmo tempo. Eu? Nem que tivesse energia e dinheiro sobrando. Minha especialidade na vida é evitar incomodação. Sou craque em manter as coisas como as encontro – a não ser que representem algum risco. Só de imaginar as negociações de prazo, o entra-e-sai de funcionários e o barulho, desisto e me apego à tese de que o tempo deixa tudo mais bonito.

 

Parece desculpa para a preguiça, mas há um fundamento. As coisas gastas desenvolvem um valor, digamos, atmosféricoA). Ganham ranhuras, trocam de cor e se revestem, por fim, com a aura sofisticada da permanência. Resistiram a modismos e ansiedades, viraram testemunhas do que foi vivido ao seu redorB). Acho isso de uma elegância rara, pena que só valorizada lá longe, na Europa.

 

Este texto deveria ser publicado em algum folheto de antiquário, eu sei, ou de um museu. Sou bem retrô em relação a certos assuntos. Gosto de novidades, desde que a ebulição aconteça dentro da minha cabeçaC), sem necessidade de um caminhão de mudanças. Tive poucos endereços na vida. Preservo amizades feitas no colégio. Conto mês a mês os aniversários de relacionamento, e quanto mais ele resiste íntegro e satisfatório, mais me orgulho. Quase gosto de estar envelhecendo.

 

Quase. Preferiria congelar nos 50, mas deter o tempo como? Cada um é livre para fazer o que desejaD), eu faço nada. No que diz respeito à vaidade pessoal, sigo a mesma cartilha das paredes, pisos e telhados: deixo tudo como estáE). Invisto em maquiagem leve, tonalizante nos cabelos e exercícios físicos – de agulhas, passo longe. Até aqui, dispensei procedimentos rejuvenescedores, como botox, preenchimentos ou lifting (o “valor atmosférico” do meu rosto confirma). Nunca fui estonteante, o que ajuda a envelhecer sem pânico. Não há tanto a perder, afinal, e o que se ganha fica visível de outra forma.

 

Mulheres lindas de nascença talvez sofram mais para aceitar com tranquilidade o desgaste da própria aparência. E as apaixonadas por obras, essas nem querem saber: têm conta nas clínicas de estética e trocam de pele como quem troca de tapete. Não posso garantir que um dia não venha também a ceder meu corpo a reformas (mesmo o corpo sendo uma casa provisória: não o deixaremos de herança para ninguém). Mas ainda prefiro defender a tese de que o tempo costuma, sim, deixar tudo mais bonito. É quando a dignidade prevalece.

 

Alterações físicas nos abalam, mas devemos reagir a elas com calma, sem exagerar na camuflagem. Nada adianta fazermos das nossas casas – corpo e residência – lugares belos para se fotografar, mas que dão a impressão de não haver nenhum morador dentro.

 

(Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/donna/colunistas/martha-medeiros – texto adaptado especialmente para esta prova).

Assinale a alternativa na qual NÃO haja o emprego de linguagem figurada.

  1. A“As coisas gastas desenvolvem um valor, digamos, atmosférico”.
  2. B“viraram testemunhas do que foi vivido ao seu redor” .
  3. C“desde que a ebulição aconteça dentro da minha cabeça”.
  4. D“Cada um é livre para fazer o que deseja” .
  5. E“sigo a mesma cartilha das paredes, pisos e telhados: deixo tudo como está”.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — “Cada um é livre para fazer o que deseja” .

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Linguagem figurada: denotação × conotação

Gabarito: letra D. A alternativa D é a correta porque a frase “Cada um é livre para fazer o que deseja” é uma afirmação literal, denotativa, sem qualquer recurso expressivo — não há metáfora, comparação implícita ou desvio de sentido. As demais alternativas empregam linguagem figurada (conotativa): em A, “valor atmosférico” atribui às coisas gastas uma qualidade abstrata e simbólica; em B, “viraram testemunhas” personifica objetos inanimados; em C, “ebulição” metaforiza a agitação mental; em E, “cartilha” metaforiza um conjunto de princípios. A banca pede a alternativa sem figura de linguagem, e só a letra D é literal.

O comando

O enunciado pede a alternativa em que NÃO haja emprego de linguagem figurada. Isso muda tudo: não se busca a mais expressiva ou a mais bonita, mas a única que permanece no sentido próprio, denotativo. A tarefa é de reconhecimento de figuras de linguagem — identificar quando uma palavra ou expressão sai do seu sentido literal e ganha um sentido simbólico, contextual.

O texto

O texto de Martha Medeiros é uma crônica sobre a relação com o tempo, o envelhecimento e a vaidade. A autora defende a tese de que “o tempo deixa tudo mais bonito” e que as coisas gastas ganham um “valor atmosférico”. Todo o texto é construído com linguagem figurada: ela compara o corpo a uma casa, fala em “cartilha das paredes, pisos e telhados”, em “ebulição dentro da cabeça”. A questão explora exatamente essa característica estilística.

A técnica que decide

Denotação é o sentido literal, de dicionário, que independe do contexto. Conotação é o sentido figurado, simbólico, que depende do contexto para ser compreendido. A pegadinha central é confundir uma frase que parece figurada com uma que é figurada. A alternativa D é a única que não cria nenhuma imagem, nenhuma comparação implícita, nenhuma personificação — é uma constatação direta e objetiva.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre o que é literal e o que é figurado. As alternativas A, B, C e E usam metáforas e personificações; a D é a única que permanece no sentido próprio. A armadilha é o candidato achar que “livre para fazer o que deseja” é figurado por estar num texto poético — mas a frase em si é denotativa.

Linguagem figurada
  • 1Denotação (literal)
    • Sentido de dicionário
    • Independe do contexto
  • 2Conotação (figurada)
    • Metáfora
      • "Valor atmosférico"
      • "Ebulição na cabeça"
      • "Cartilha"
    • Personificação
      • "Viraram testemunhas"
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Alternativa A — ❌ Incorreta

“As coisas gastas desenvolvem um valor, digamos, atmosférico”

Aqui há metáfora: “valor atmosférico” não é um valor físico, mensurável, mas uma qualidade simbólica — a aura, a sofisticação que o tempo confere às coisas. A palavra “atmosférico” sai do seu sentido literal (relativo à atmosfera) e ganha um sentido figurado de “envolvente”, “que cerca”. É linguagem conotativa.

Alternativa B — ❌ Incorreta

“viraram testemunhas do que foi vivido ao seu redor”

personificação (prosopopeia): objetos inanimados (as coisas gastas) são tratados como testemunhas, seres humanos que presenciam e poderiam relatar. Atribuir a objetos a capacidade de testemunhar é um desvio do sentido literal — é figura de linguagem.

Alternativa C — ❌ Incorreta

“desde que a ebulição aconteça dentro da minha cabeça”

metáfora: “ebulição” refere-se literalmente ao ato de ferver, mas aqui metaforiza a agitação de ideias, a efervescência mental. A autora não quer dizer que sua cabeça ferve de fato, mas que as novidades acontecem como uma ebulição — sentido figurado.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

“Cada um é livre para fazer o que deseja”

A frase é denotativa, literal: afirma, de forma direta, que cada pessoa tem liberdade para agir conforme sua vontade. Não há metáfora, comparação implícita, personificação ou qualquer desvio de sentido. As palavras são usadas em seu sentido próprio, de dicionário. É a única alternativa sem linguagem figurada.

Alternativa E — ❌ Incorreta

“sigo a mesma cartilha das paredes, pisos e telhados: deixo tudo como está”

metáfora: “cartilha” é literalmente um livro de primeiras letras, mas aqui metaforiza um conjunto de princípios ou regras a seguir. A autora não segue uma cartilha de verdade; segue uma conduta, um modo de agir — sentido figurado.

Fechamento

A regra de ouro: pergunte-se se a palavra pode ser entendida literalmente ou se exige uma interpretação simbólica. Se exige, é conotação. A alternativa D é a única que dispensa qualquer interpretação figurada — é pura denotação.

Gabarito: letra D

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