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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FUNDATEC 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa509038
Banca
FUNDATEC
Órgão
Pref BVB
Ano
2023
Cargo
Ag Adm ( )

Matrona

 

Por Cláudio Moreno

 

Uma advogada de São Paulo fez uma interessante observação sobre os sutis mecanismos de nosso idioma: “Professor, na minha profissão, é comum nos referirmos aos advogados de uma ação como patronos da causa — os homens são patronos, as mulheres, é claro, são patronas. Não vejo problema algum nisso, até porque eu acharia esquisito se me chamassem de patronnesse, que é Francês e nada tem a ver com nosso trabalho, já que só se emprega para aquelas senhoras endinheiradas que promovem chás beneficentes. Agora, desculpe a pergunta (pode ser cacoete de advogada, acostumada com leis): se na nossa língua há um monte de “casais” de palavras que deixam bem claro o dualismo entre pai e mãe, como padrinho e madrinha, compadre e comadre, padrasto e madrasta, como é que patrono escapou desta regra, de formar o feminino com um simples – A, como advogada ou promotora? Seria porque, para muitos, matrona tem valor pejorativo?”.

 

Sim, cara advogada, essa deve ter sido uma das razões para a flexão de patrono não seguir o mesmo modelo. Matrona, entre os romanos, no Mundo Antigo, designava uma mulher casada, mãe de família, honesta e ilustre por nascimento, figura digna e respeitável que respondia pela manutenção da casa e da educação moral das crianças. Bluteau, em seu dicionário de 1728, acrescenta: “Em Portugal, também se diz das viúvas”. Com o tempo, no entanto, na medida em que nossa sociedade foi-se escravizando à ditadura fitness, a palavra passou a ser usada com sentido crítico, praticamente ofensivo, para descrever uma mulher corpulenta, ao mesmo tempo em que “amatronar-se” passou a designar o pecado de não seguir os padrões ditos “normais” de pesos e medidas...

 

Além disso, não se pode esperar que uma língua viva siga padrões simétricos, traçados a régua e compasso. A língua, como a água, tem muitos caminhos para escolher, e muitas vezes problemas semelhantes podem receber soluções diferentes. Por isso nem sempre serão válidos raciocínios do tipo “se isso é assim, aquilo também o será”, ou, para ser mais concreto, “se o feminino de padrasto é madrasta, o de patrono deveria ser matrona”. Vários fatores, muitos deles impalpáveis, podem influir na decisão dos milhões de pessoas que vêm usando o Português ao longo dos séculos — que escolheram para patrão o feminino patroa, mantendo aqui o mesmo radical pater (“pai”, em Latim), assim como fizeram com padroeiro e padroeira.

 

Não te espantes também, cara leitora, se alguém do teu ramo propuser o emprego da forma patrono para todo o mundo, independentemente do sexo do profissional. Por que digo isso? Porque regularmente, quando chega a primavera, ocorre aqui em Porto Alegre a tradicional Feira do Livro, uma iniciativa cultural replicada hoje por muitas outras cidades de nosso Estado, e não são raras as consultas que recebo sobre o emprego correto da palavra patrono. Posso afirmar, com certo orgulho, que por aqui a questão está pacificada: quando é homem é patrono, quando é mulher é patrona. Mas sempre aqui e ali aparece alguém que maliciosamente me lembra de que patrono está registrado nos dicionários como substantivo masculino. “E aí, professor? Como o senhor explica essa?”. Muito simples: nossos dicionários precisam corrigir a forma de fornecer informações ao consulente.

 

(Disponível em: gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/claudio-moreno/noticia/2023/04/matrona-clgxrhjob002l016xfq0s0uvx.html – texto adaptado especialmente para esta prova).

Considerando o exposto pelo texto, analise as assertivas a seguir:

 

I. O elemento motivador da redação do texto é uma dúvida do autor em relação ao significado de uma palavra.

 

II. O autor destaca que o significado da palavra “matrona” em uma civilização da antiguidade era positivo.

 

III. Uma língua viva tem parâmetros rígidos e mecanismos concretos que regem sua variação.

 

Quais estão corretas?

  1. AApenas I.
  2. BApenas II.
  3. CApenas I e II.
  4. DApenas I e III.
  5. EApenas II e III.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — Apenas II.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Análise das assertivas sobre o texto "Matrona" — Gabarito: letra B.

Gabarito: letra B (Apenas II). A única assertiva correta é a II, pois o texto afirma explicitamente que, entre os romanos, "matrona" designava uma "figura digna e respeitável", ou seja, um sentido positivo. A assertiva I está errada porque o elemento motivador do texto é a dúvida de uma advogada (não do autor) sobre a flexão de gênero de "patrono". A assertiva III está errada porque o texto afirma o oposto: uma língua viva não segue padrões rígidos e simétricos.

Desenvolvimento: o que a questão pede e como resolver

O comando pede que você analise cada assertiva e marque a alternativa que reúna as corretas. Isso é uma questão de compreensão (recorrência): a resposta está explícita no texto, e cada assertiva deve ser testada contra o que está escrito, sem inferências ou acréscimos de fora. A técnica é simples: para cada item, pergunte "o texto diz isso?" e localize a passagem que confirma ou refuta.

O texto de Cláudio Moreno é uma crônica argumentativa sobre a língua. O ponto de partida é a pergunta de uma advogada: por que o feminino de "patrono" não é "matrona"? O autor responde com duas razões: (1) o sentido pejorativo que "matrona" adquiriu com o tempo e (2) o fato de que línguas vivas não seguem padrões simétricos. A tese central está no terceiro parágrafo: "não se pode esperar que uma língua viva siga padrões simétricos, traçados a régua e compasso".

A pegadinha da questão está na assertiva I: ela troca o sujeito da dúvida. O texto começa com "Uma advogada de São Paulo fez uma interessante observação" e a pergunta é dela, não do autor. Já a assertiva III inverte completamente a tese do autor, que defende justamente o contrário da rigidez.

Assertivas sobre o texto
  • 1I. Dúvida do autor
    • Errada: dúvida é da advogada
  • 2II. "Matrona" na antiguidade
    • Correta: sentido positivo (digna e respeitável)
  • 3III. Língua viva com padrões rígidos
    • Errada: texto nega rigidez
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Item I — ❌ Incorreta

"Uma advogada de São Paulo fez uma interessante observação sobre os sutis mecanismos de nosso idioma: 'Professor, na minha profissão, é comum nos referirmos aos advogados de uma ação como patronos da causa...'"

A assertiva diz que o elemento motivador é "uma dúvida do autor". O texto mostra que a dúvida é da advogada, que pergunta ao professor (o autor). O autor apenas responde à dúvida dela. Portanto, a assertiva troca o sujeito — erro de troca de referente. O elemento motivador é a dúvida da advogada, não do autor.

Item II — ✅ Correta

"Matrona, entre os romanos, no Mundo Antigo, designava uma mulher casada, mãe de família, honesta e ilustre por nascimento, figura digna e respeitável"

A assertiva afirma que o significado de "matrona" em uma civilização da antiguidade era positivo. O texto confirma: "figura digna e respeitável". A palavra "digna" e "respeitável" são claramente positivas. A assertiva é uma paráfrase fiel do trecho. Correta.

Item III — ❌ Incorreta

"não se pode esperar que uma língua viva siga padrões simétricos, traçados a régua e compasso"

A assertiva afirma que uma língua viva tem "parâmetros rígidos e mecanismos concretos que regem sua variação". O texto diz exatamente o oposto: a língua não segue padrões rígidos e simétricos. A palavra "rígidos" é o oposto de "muitos caminhos para escolher". A assertiva contradiz o texto — erro de contradição.

Conclusão

Apenas o item II está correto. A assertiva I erra ao atribuir ao autor a dúvida que é da advogada; a assertiva III inverte a tese central do texto. Portanto, a resposta é a letra B.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de assertivas, grife o sujeito de cada afirmação (quem fez/perguntou) e desconfie de palavras absolutas como "rígidos", "sempre", "nunca" — elas costumam sinalizar uma generalização ou contradição.

Gabarito: letra B

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