Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FUNDATEC 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa509040
Banca
FUNDATEC
Órgão
Pref BVB
Ano
2023
Cargo
ACI ( )

Síndrome da quinta série

 

Por Mario Corso

 

Digo síndrome da quinta série apenas por ser a designação mais usada pelos cientistas. Há quem fale em doença, maldição, mistério, espectro. Não há consenso quanto à nomenclatura, já o fenômeno é bem descrito. Trata-se de uma escolha – consciente ou não – em estabilizar o próprio horizonte cognitivo na quinta série. Isto não significa que o sujeito não possa seguir até a universidade e além. O que está em jogo é “Idade Mental e Intelectual” de quinta série, também conhecida por IMI5ª.

 

Atenção, não confundir com HIMI5ª, a versão atenuada. Diz-se daqueles em que as sequelas atingem o Humor, apenas isso está travado na quinta série. São pessoas que se alteram com temas ao redor de partes íntimas do corpo, ou então fazendo bullying com quem é mais frágil. Em resumo, humor de quem recém descobriu o sexo, com a coragem de quem chuta cachorro morto.

 

Mas voltando à IMI5ª, qual sua essência? Os eruditos divergem, a hipótese mais aceita seria a de que o ideal democrático foi deturpado para fins não políticos. Neste caso: “a minha ignorância vale tanto quanto o seu conhecimento”. Ou seja, a opinião de qualquer um tem o mesmo peso que a de um especialista.

 

Pesquisadores franceses ressaltam a predominância do pensamento intuitivo sobre o científico. Exemplo, o terraplanismo é óbvio, senão as coisas do lado de baixo cairiam! E eles também sublinham o entendimento pela concretude da palavra. Exemplo, os nazistas seriam de esquerda, não pelo que acreditavam e por como agiam, mas por terem a palavra socialista no nome do partido.

 

Cientistas ingleses focam na generalização abusiva. Aqueles que refutam a ciência porque com o primo – ou tio, ou vizinho – foi diferente. Exemplo, meu vizinho teve covid e não deu nada, ele usou chá de guaco. Logo, covid é leve e se tivessem usado chá de guaco, não teria acontecido nada disso.

 

Para pesquisadores americanos, a questão está no conjunto das operações acima e ainda na incapacidade de usar mais do que duas variáveis. Para os IMI5ªs, as variáveis de um sistema não são as em que a realidade opera, mas as que ele tem na cabeça. Por exemplo, a Terra não está aquecendo porque o inverno foi frio. Além de ser contra-intuitivo, os outros termos da equação não existiriam.

 

A síndrome IMI5ª é insidiosa, onde menos se espera ela pode estar atuando. Desconfie de quem fala muito dela, ou tenta entender à  sua lógica, porque isso é muito quinta série.

 

(Disponível em: gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/mario-corso/noticia/2023/07/sindrome-da-quinta-seriecljop0cfo00c80150bsazka1f. html – texto adaptado especialmente para esta prova).

Considerando o exposto pelo texto, analise as assertivas abaixo:

 

I. A definição de IMI5ª refere-se a uma síndrome que atinge somente os homens.

 

II. Pode-se dizer que o autor fez uso direto de ironia em várias passagens para construir seu texto.

 

III. Para tentar conferir veracidade ao que apresenta, o autor pretende apresentar opiniões de especialistas de outros países.

 

Quais estão corretas?

  1. AApenas I.
  2. BApenas II.
  3. CApenas I e II.
  4. DApenas I e III.
  5. EApenas II e III.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — Apenas II.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Síndrome da quinta série: ironia e estratégia argumentativa

Gabarito: letra B. A única assertiva correta é a II, pois o texto é construído com ironia em várias passagens — como em “com a coragem de quem chuta cachorro morto” e “o terraplanismo é óbvio, senão as coisas do lado de baixo cairiam”. A assertiva I é falsa porque o texto não restringe a síndrome a homens (fala genericamente em “o sujeito”, “pessoas”, “aqueles”); a III é falsa porque o autor não pretende conferir veracidade ao que diz citando especialistas — ele os menciona para criticar a síndrome, não para validar sua tese.

O comando pede que você analise as assertivas e marque as corretas — ou seja, é uma questão de compreensão/interpretação em que cada item deve ser confrontado com o texto. Não há inferência sofisticada: basta verificar se o que cada assertiva afirma está sustentado (ou não) pelas palavras do autor. O erro clássico aqui é extrapolar: ler algo que o texto não diz e “completar” com o senso comum.

O texto é uma crítica bem-humorada a um fenômeno que o autor chama de “síndrome da quinta série” (IMI5ª): a ideia de que a opinião de qualquer um vale tanto quanto a de um especialista. O autor não está defendendo a síndrome nem apresentando pesquisas sérias — ele está zombando dela. Por isso, cada menção a “pesquisadores franceses”, “cientistas ingleses” etc. é uma estratégia irônica: ele usa o discurso científico para ridicularizar o anti-intelectualismo, não para dar credibilidade ao que diz.

A ironia é a figura central da questão. Ela ocorre quando se diz o contrário do que se quer dar a entender, geralmente com tom de zombaria. No texto, ela aparece em:

  • “com a coragem de quem chuta cachorro morto” — ironia: a “coragem” é, na verdade, covardia.

  • “o terraplanismo é óbvio, senão as coisas do lado de baixo cairiam” — ironia: o autor reproduz o “argumento” terraplanista para mostrar como ele é absurdo.

  • “meu vizinho teve covid e não deu nada, ele usou chá de guaco” — ironia: o autor usa o exemplo para ridicularizar a generalização abusiva.

  • “Desconfie de quem fala muito dela, ou tenta entender à sua lógica, porque isso é muito quinta série” — ironia final: o autor se inclui na crítica, pois está “falando muito dela”.

A assertiva III é a mais traiçoeira. Ela diz que o autor “pretende apresentar opiniões de especialistas de outros países” para “conferir veracidade”. Isso contradiz o tom do texto: os especialistas são citados para serem alvo da crítica, não para dar sustentação. O autor não está dizendo “vejam, os cientistas concordam comigo”; ele está dizendo “vejam como até os cientistas percebem esse absurdo”. A intenção é ridicularizar, não validar.

Análise das assertivas
  • 1I. Atinge somente homens
    • Incorreta
      • Texto fala genericamente
      • "Somente" restringe sem base
  • 2II. Uso de ironia
    • Correta
      • "Coragem de quem chuta cachorro morto"
      • "Terraplanismo é óbvio"
      • "Chá de guaco"
  • 3III. Cita especialistas para dar veracidade
    • Incorreta
      • Cita para criticar, não validar
      • Intenção é irônica
LEVEL · soulevel.com.br

Item I — ❌ Incorreta

A assertiva afirma que a IMI5ª “atinge somente os homens”. O texto não diz isso. Em nenhum momento há restrição de gênero. O autor fala de “o sujeito”, “pessoas”, “aqueles”, “os IMI5ªs” — termos genéricos, que não distinguem homens e mulheres. A palavra “somente” é o sinal de alerta: ela restringe indevidamente o alcance do texto. O erro é de generalização/restrição.

Item II — ✅ Correta

O texto é repleto de ironia. O autor usa o recurso para criticar a síndrome e os que a têm. Veja os exemplos:

“humor de quem recém descobriu o sexo, com a coragem de quem chuta cachorro morto”

A “coragem” aqui é, na verdade, covardia — o autor diz o contrário do que quer dar a entender. Outro exemplo:

“o terraplanismo é óbvio, senão as coisas do lado de baixo cairiam”

O autor reproduz o argumento terraplanista para mostrar como ele é absurdo — o que ele quer dizer é o oposto do que está escrito. A ironia é evidente e perpassa todo o texto.

Item III — ❌ Incorreta

A assertiva diz que o autor cita especialistas para “conferir veracidade” ao que apresenta. Isso contradiz o texto. Os especialistas são mencionados para serem criticados — o autor usa o discurso científico para ridicularizar a síndrome, não para dar credibilidade à sua tese. Veja:

“Pesquisadores franceses ressaltam a predominância do pensamento intuitivo sobre o científico. Exemplo, o terraplanismo é óbvio...”

O autor não está dizendo “os cientistas concordam comigo”; ele está dizendo “vejam como até os cientistas percebem esse absurdo”. A intenção é irônica, não validadora. O erro é de contradição com o tom do texto.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre citar especialistas (o que o texto faz) e usar especialistas para dar credibilidade (o que o texto não faz). O autor os cita para criticar, não para validar.

PEGA ESSA DICA!

Desconfie de palavras absolutas como “somente”, “sempre”, “todos”. Elas quase sempre restringem indevidamente o que o texto diz. E, em textos irônicos, pergunte-se: o autor está dizendo isso ou zombando disso?

Conclusão: apenas a assertiva II está correta. A I restringe indevidamente o alcance do texto; a III inverte a intenção do autor, que cita especialistas para criticar, não para validar. Portanto, o gabarito é a letra B.

Gabarito: letra B

Link permanente: /questoes/qa509040