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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Quadrix 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa509174
Banca
Quadrix
Órgão
CRM TO
Ano
2023
Cargo
Ass ( )

Há uma fratura ética em nosso cotidiano que é a acomodação. Isto é, a percepção de que as coisas são como são. Não por serem do melhor modo, mas porque do modo como são não demandam esforço. A postura do “não mexa, é melhor assim” é muito marcante. O que justifica essa condição acomodada? O hábito. E o que é o hábito? É aquilo que, feito de maneira repetitiva, ganha função de norma. Em vez de ser uma possibilidade, se torna um imperativo. O escritor norte‑americano Mark Twain dizia que “hábitos não são coisas que se jogam pela janela, você tem de pegar e empurrar pela escada degrau por degrau”. Isso vale para hábito alimentar, de estudo, de sono, de leitura. Para se desvencilhar de um mau hábito ou para adquirir bons hábitos, é preciso um esforço intenso. Qual é o fundamento do mau hábito? A passividade e o repouso que ele oferece. Fazer do mesmo modo, acreditando que aquele é o único modo de ser feito, me oferece tranquilidade para continuar fazendo do mesmo jeito. Esse nível de repetitividade acalma, mas pode gerar passividade e, portanto, ausência de vitalidade. O teólogo Erasmo de Roterdã (1466‑1536), em sua obra Colóquios, escreveu: “Não há nada de tão absurdo que o hábito não torne aceitável”. Ele chama atenção para o poder do hábito de configurar uma regra. Quando o hábito vira regra, ele perde a natureza de ser um dos modos de fazer para ser uma conduta contínua. A frase “com o tempo você se acostuma” expressa um modo de fazer que se instalou e se tornou regra. Isso está presente em nosso dia a dia. Paga‑se IPVA e paga‑se pedágio. Pagam‑se o INSS e o seguro de saúde privado. Toma‑se algo como normal. Não se deve tomar aquilo que é comum como normal. Isso é comum, não é normal. Normal é estar na norma, e normal seria o contrário. Pela norma, eu não poderia ser bitributado. Ter dois pagamentos para a mesma atividade configura desperdício. Isso seria a norma. Mas nós entendemos que aquilo que seria comum seja entendido como normal. É normal colar, é normal o professor desconsiderar um risco de perturbação do ambiente, é normal a família não participar das reuniões, é normal haver gozação em sala de aula. Isso é comum, não é normal. Ao se tornar um hábito, ele precisa ser impedido; é preciso recusá‑lo.

 

Internet: <mscortella.com.br> (com adaptações).

Texto para o item     Acerca das ideias, dos sentidos e das propriedades linguísticas do texto, julgue o item   De acordo com o primeiro parágrafo do texto, a percepção de que as coisas são como são é cultural e essa percepção não pode ser alterada.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

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Fratura ética e acomodação: a percepção de que as coisas são como são

Gabarito: letra E (Errado). A afirmação de que a percepção de que as coisas são como são é cultural e não pode ser alterada contradiz o texto, que defende exatamente o contrário: essa percepção é fruto do hábito e pode e deve ser recusada. Como se lê no primeiro parágrafo, o autor afirma que "a postura do 'não mexa, é melhor assim' é muito marcante" e, ao final, conclui: "Ao se tornar um hábito, ele precisa ser impedido; é preciso recusá-lo." Ou seja, o texto não apenas diz que a percepção é cultural (o que é verdade), mas também que ela pode ser alterada — o que torna a segunda parte da assertiva falsa.

O comando: compreensão e inferência

O enunciado pede para julgar uma afirmação sobre o texto. Isso é uma questão de compreensão (o que o texto diz) com um toque de inferência (o que se pode concluir). A banca não quer que você decore o texto, mas que verifique se a afirmação proposta está de acordo com as ideias do autor. A palavra-chave é "de acordo com o primeiro parágrafo": você deve buscar no parágrafo a passagem que sustenta ou refuta a afirmação.

O texto: tema, tese e movimento argumentativo

O texto trata da acomodação como uma "fratura ética" do cotidiano. O autor explica que a percepção de que "as coisas são como são" é uma forma de acomodação, justificada pelo hábito. O hábito, por sua vez, é definido como "aquilo que, feito de maneira repetitiva, ganha função de norma". O autor critica essa acomodação e defende que é preciso esforço para mudar: "Para se desvencilhar de um mau hábito ou para adquirir bons hábitos, é preciso um esforço intenso." No final do primeiro parágrafo, ele é categórico: "Ao se tornar um hábito, ele precisa ser impedido; é preciso recusá-lo." Portanto, a tese central é que a acomodação pode e deve ser combatida.

A técnica: cuidado com a extrapolação

A armadilha da questão está na segunda parte da afirmação: "essa percepção não pode ser alterada". O texto não diz isso — pelo contrário, ele afirma que é possível mudar, desde que haja esforço. A banca tenta fazer você extrapolar a ideia de que a acomodação é algo enraizado e, portanto, imutável. Mas o texto é claro ao defender a possibilidade de mudança. Sempre que uma alternativa contiver palavras absolutas como "não pode", "sempre", "nunca", "apenas", desconfie: elas costumam restringir ou generalizar indevidamente o que o texto diz.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A afirmação está errada porque, embora o texto diga que a percepção de que as coisas são como são é cultural (ou seja, fruto do hábito), ele não diz que ela não pode ser alterada. Pelo contrário, o autor afirma que é preciso esforço para mudar e conclui que o hábito "precisa ser impedido; é preciso recusá-lo". A alternativa extrapola o texto ao acrescentar a ideia de imutabilidade, que não está presente. O erro é de generalização indevida: transforma uma característica (a acomodação é comum) em uma impossibilidade (não pode ser alterada).

PEGA ESSA DICA!

Ao julgar itens de compreensão, grife as palavras absolutas ("não pode", "sempre", "nunca") e pergunte: o texto autoriza essa generalização? Se não, o item está errado.

Conclusão: a assertiva é errada porque contradiz o texto, que defende a possibilidade de mudança. A banca tentou fazer você aceitar uma extrapolação, mas o texto é claro: a acomodação pode ser recusada. Gabarito: letra E (Errado).

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