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Questão de Português — Reescrita de Frases. Substituição de Palavras ou Trechos de Texto. — Avança SP 2023

PortuguêsReescrita de Frases. Substituição de Palavras ou Trechos de Texto.
Código
qa509947
Banca
Avança SP
Órgão
Pref SM Arcanjo
Ano
2023
Cargo
ATI (SM Arcanjo)

Felicidade Clandestina

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria. Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”. Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia. Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria. Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam. No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez. Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo. E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra. Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados. Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler! E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer. Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo. Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.   

Clarice Lispector

Texto

   

Considere o seguinte trecho: “Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo.” As palavras em destaque podem ser substituídas, sem grande prejuízo de significado, pelas seguintes palavras, respectivamente:

  1. Apressa e perversidade.
  2. Bfereza e crueldade.
  3. Cvelocidade e egoísmo.
  4. Draiva e prazer.
  5. Eagressividade e satisfação.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — fereza e crueldade.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Sinônimos de "calma ferocidade" no Contexto

Gabarito: letra B. As palavras "calma" e "ferocidade" podem ser substituídas, respectivamente, por "fereza" e "crueldade", pois ambas preservam o sentido de tranquilidade aparente e maldade deliberada que a narradora atribui à menina. A passagem que ancora essa leitura é a descrição do comportamento da antagonista: "Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo", em que "ferocidade" é sinônimo de "crueldade" e "calma" indica a ausência de pressa ou agitação.

O comando pede uma substituição vocabular sem prejuízo de significado — tarefa de compreensão (recorrência), pois a resposta está na relação de sinonímia entre os termos, não em deduções externas. O foco está no sentido denotativo das palavras no contexto: "calma" = serenidade, tranquilidade; "ferocidade" = crueldade, selvageria, brutalidade. A banca testa se o candidato reconhece os sinônimos adequados, evitando antônimos e palavras de campo semântico próximo, mas não equivalente.

No texto, a menina "gorda, baixa, sardenta" é descrita como alguém que "toda era pura vingança" e que "exerceu com calma ferocidade o seu sadismo" — ou seja, ela praticava a maldade de forma deliberada e serena, sem pressa, o que torna a tortura psicológica ainda mais cruel. A substituição por "fereza" (sinônimo de ferocidade) e "crueldade" (sinônimo de ferocidade/sadismo) mantém intacto esse sentido.

A técnica para resolver: teste cada par de sinônimos perguntando se ambos preservam o sentido original no contexto. "Calma" não pode virar "pressa" (antônimo), "velocidade" (antônimo) ou "raiva" (emoção diferente). "Ferocidade" não pode virar "egoísmo" (defeito moral distinto), "prazer" (consequência, não a ação) ou "satisfação" (sentimento positivo). A única dupla que mantém o sentido é "fereza" e "crueldade".

1Teste o par completo
Ambos devem ser sinônimos
Um sinônimo não salva a alternativa
2Erros comuns da banca
Antônimos (pressa, velocidade)
Campo semântico próximo (raiva, prazer)
3Técnica
Grifar as palavras
Buscar sinônimos diretos
Substituição vocabular
LEVELsoulevel.com.br
Substituição vocabular: Teste o par completo (Ambos devem ser sinônimos, Um sinônimo não salva a alternativa); Erros comuns da banca (Antônimos (pressa, velocidade), Campo semântico próximo (raiva, prazer)); Técnica (Grifar as palavras, Buscar sinônimos diretos)

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Pressa" é antônimo de "calma" — troca o sentido por completo. "Perversidade" é sinônimo de ferocidade, mas o primeiro termo já invalida a alternativa. A banca oferece um sinônimo correto (perversidade) para atrair o candidato que não confere o par inteiro.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Fereza" é sinônimo direto de "ferocidade" (ambas derivam do mesmo radical e significam brutalidade, selvageria). "Crueldade" é sinônimo de "ferocidade" no contexto de sadismo — a menina age com maldade deliberada. O par preserva integralmente o sentido de "calma ferocidade": tranquilidade aparente + maldade intensa.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Velocidade" é antônimo de "calma" (pressa × serenidade). "Egoísmo" é um defeito moral distinto — a menina não é egoísta, é cruel. Nenhum dos dois termos mantém o sentido original.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Raiva" é uma emoção passageira, não o estado de tranquilidade que "calma" expressa. "Prazer" é a consequência do sadismo, não a ação em si — a menina sente prazer, mas "ferocidade" descreve a intensidade da maldade, não o sentimento resultante. A alternativa troca o sentido por uma leitura psicológica externa.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Agressividade" é um traço de personalidade, não o estado de serenidade que "calma" indica. "Satisfação" é um sentimento positivo, oposto à conotação negativa de "ferocidade". A dupla não preserva o sentido de maldade deliberada e tranquila.

NÃO CAIA NESSA!

A banca oferece antônimos (pressa, velocidade) e palavras de campo semântico próximo, mas não equivalente (raiva, prazer, agressividade, satisfação) para confundir quem não confere o par inteiro. A armadilha está em aceitar um sinônimo correto isolado (perversidade, na letra A) sem verificar o outro termo.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de substituição vocabular, teste sempre o par completo — um sinônimo correto não salva a alternativa se o outro termo for antônimo ou de sentido distinto. Grife as palavras destacadas e busque sinônimos diretos, não associações temáticas.

Gabarito: letra B — única alternativa em que ambos os termos são sinônimos fiéis de "calma" e "ferocidade" no contexto do texto.

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