Questão de Português — Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática) — Instituto Consulplan 2023
Português›Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática)
Código
qa511892
Banca
Instituto Consulplan
Órgão
Pref Nova Friburgo
Ano
2023
Cargo
Enf ( )
A outra noite
Outro dia fui a São Paulo e resolvi voltar à noite, uma noite de vento sul e chuva, tanto lá como aqui. Quando vinha para
casa de táxi, encontrei um amigo e o trouxe até Copacabana; e contei a ele que lá em cima, além das nuvens, estava um luar
lindo, de Lua cheia; e que as nuvens feias que cobriam a cidade eram, vistas de cima, enluaradas, colchões de sonho, alvas, uma
paisagem irreal.
Depois que o meu amigo desceu do carro, o chofer aproveitou um sinal fechado para voltar-se para mim:
– O senhor vai desculpar, eu estava aqui a ouvir sua conversa. Mas, tem mesmo luar lá em cima?
Confirmei: sim, acima da nossa noite preta e enlamaçada e torpe havia uma outra – pura, perfeita e linda.
– Mas, que coisa...
Ele chegou a pôr a cabeça fora do carro para olhar o céu fechado de chuva. Depois continuou guiando mais lentamente.
Não sei se sonhava em ser aviador ou pensava em outra coisa.
– Ora, sim senhor...
E, quando saltei e paguei a corrida, ele me disse um “boa noite” e um “muito obrigado ao senhor” tão sinceros, tão veementes,
como se eu lhe tivesse feito um presente de rei.
(BRAGA, Rubem. In: Para gostar de ler – Volume II. São Paulo: Ática, 1992.)
A expressão “à noite” indica tempo, exercendo a função sintática de adjunto adverbial, sendo composta por palavra feminina, o que justifica o emprego do acento indicador de crase visto em “Outro dia fui a São Paulo e resolvi voltar à noite, uma noite de vento sul e chuva, tanto lá como aqui.” A mesma justificativa pode ser aplicada à ocorrência de crase no exemplo expresso em:
A“Estava à toa na vida / O meu amor me chamou” (Chico Buarque)
B“Deixa em paz os passarinhos / Deixa em paz à mim!” (Mário Quintana)
C“Ela pensa em casamento / E eu nunca mais fui à escola” (Caetano Veloso)
D“Quando você for se embora, / moça branca como à neve,” (Ferreira Gullar)
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoA — “Estava à toa na vida / O meu amor me chamou” (Chico Buarque)
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Crase em locuções adverbiais femininas
Gabarito: letra A. A questão pede a alternativa em que a crase tem a mesma justificativa do trecho do texto: ocorre em locução adverbial feminina (no texto, "à noite" é adjunto adverbial de tempo). Na alternativa A, "à toa" é também uma locução adverbial feminina (de modo) — a crase se justifica pela mesma regra: expressão formada por palavra feminina. A banca considerou correta a letra A, pois a regra geral (crase em locuções adverbiais femininas) é a mesma; a diferença de circunstância (tempo × modo) não invalida a justificativa.
O comando
O enunciado afirma que, no trecho do texto, "à noite" é adjunto adverbial de tempo e que a crase se justifica por ser expressão formada por palavra feminina. A tarefa é encontrar, nas alternativas, a ocorrência de crase com a mesma justificativa — ou seja, crase em locução adverbial feminina (de tempo, modo, lugar etc.). Não se pede para identificar a função sintática exata, mas sim o motivo do acento grave: palavra feminina formando locução adverbial.
A regra que decide
A crase é a fusão da preposição "a" com o artigo feminino "a". Em locuções adverbiais femininas, a crase é obrigatória, pois há a preposição exigida pela circunstância + o artigo que acompanha o substantivo feminino. Exemplos clássicos: à noite (tempo), à toa (modo), às pressas (modo), à direita (lugar).
No texto, o trecho "resolvi voltar à noite" apresenta a locução adverbial feminina de tempo. A justificativa é a mesma para qualquer locução adverbial feminina, independentemente da circunstância (tempo, modo, lugar). A banca explora a confusão entre a circunstância específica (tempo) e a regra geral (locução adverbial feminina).
Análise das alternativas
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Estava à toa na vida / O meu amor me chamou" (Chico Buarque)
"À toa" é uma locução adverbial feminina de modo (indica como se estava: à toa, sem ocupação). A crase é obrigatória pela mesma regra: expressão formada por palavra feminina. A circunstância é de modo, não de tempo, mas a justificativa é idêntica à do texto — locução adverbial feminina. Portanto, a alternativa está correta.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"Deixa em paz os passarinhos / Deixa em paz à mim!" (Mário Quintana)
Aqui, "à mim" está errado do ponto de vista normativo: antes de pronome pessoal do caso reto ("mim") não se usa crase. O correto seria "a mim" (sem acento grave). A justificativa do texto (locução adverbial feminina) não se aplica. A alternativa contradiz a regra e, portanto, está incorreta.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"Ela pensa em casamento / E eu nunca mais fui à escola" (Caetano Veloso)
"À escola" é um adjunto adverbial de lugar (ou objeto indireto, dependendo da análise), mas a crase ocorre porque "escola" é um substantivo feminino que admite artigo "a" e exige a preposição "a" (ir a algum lugar). A justificativa é a fusão de preposição + artigo, não a formação de uma locução adverbial. A banca quer a mesma justificativa do texto (locução adverbial feminina), e "à escola" não é locução — é um sintagma nominal com artigo. Portanto, incorreta.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"Quando você for se embora, / moça branca como à neve," (Ferreira Gullar)
Aqui, "como à neve" está errado: a expressão correta seria "como a neve" (sem crase), pois "neve" está sendo usada em sentido genérico, sem artigo definido. A crase não se justifica, pois não há fusão de preposição + artigo. A alternativa contradiz a regra e está incorreta.
Conclusão
A única alternativa que apresenta a mesma justificativa do texto é a letra A, pois "à toa" é uma locução adverbial feminina, assim como "à noite". As demais ou erram o uso da crase (B e D) ou apresentam justificativa diferente (C).
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre a circunstância (tempo × modo) e a regra geral de crase em locuções adverbiais femininas. Fique atento: a justificativa é a mesma, independentemente do valor semântico.
PEGA ESSA DICA!
Ao analisar crase, pergunte-se: há fusão de preposição + artigo? A expressão é uma locução adverbial feminina? Se sim, a crase é obrigatória.