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Questão de Português — Regência Nominal e Verbal (Casos Gerais) — Instituto Consulplan 2024

PortuguêsRegência Nominal e Verbal (Casos Gerais)
Código
qa592100
Banca
Instituto Consulplan
Órgão
Pref Timóteo
Ano
2024
Cargo
ACS ( )

Bolinho de feijão

 

(Paulo Mendes Campos.)

 

Uma vez, ao sair dum labirinto burocrático, psiquicamente entorpecido, reparei que eram onze horas de manhã limpa e amena. Suspirei para a mulher que estava a meu lado: Que pena!

 

Que pena, sim, pois é bem ridículo renascer às onze horas de manhã limpa e amena, e não existir um só antro na cidade, no qual uma alma leve possa comer um bolinho de feijão! É uma das contradições da civilização! Intolerável que uma cidade devore oceanos de peixes, rebanhos de bifes, enxurradas de cereais e hortaliças, sem poder ofertar ao consumidor um pratinho de bolinhos de feijão. Fazendo minhas as palavras sombrias de um russo, no banho de luz da Praça Marechal Âncora, ameacei a humanidade: Mundo louco, feliz em tua loucura, o teu despertar será terrível!

 

Mas a mulher que andava a meu lado era gringa, e perguntou-me: What is a bolinho de feijão?

 

Well... um bolinho de feijão! Um bolinho de feijão é feito de feijão-fradinho. Parece com acarajé, mas não é bem acarajé. Um bolinho de feijão é uma coisa que você come muito na infância, e mais ainda na adolescência, quando descobre a cerveja, e depois fica a procurar, em vão, por todos os cantos do mundo. Um bolinho de feijão às vezes é a joie de vivre, para mim é le temps retrouvé, e era o que a Gioconda queria quando sorriu. Um bolinho de feijão é quase o que os germanos chamam de Gesamtkunstwerk, ou seja, uma perfeita e orgânica obra de arte. Um bolinho de feijão é o maná (o quente) que este céu agora nos promete, mas não encontraremos jamais!

 

Dessa vez, a estrangeira que ia a meu lado também suspirou: Que pena! E a seguir: Poor little thing! (Pobrezinho!)

 

Mas eu não sou um quadro de Leonardo e, por isso mesmo, tomei a mulher pela mão: Vou te mostrar o que é um bolinho de feijão!

 

Mudando de rota (em Leblonema não há bolinho de feijão), cruzamos a praça, caímos à esquerda em General Justo, e comprei duas passagens no Aeroporto Santos Dumont.

 

Em Belo Horizonte – expliquei em voz baixa para a minha alienada – ainda há bolinhos de feijão. Não tanto quanto no meu tempo, é claro, pois a era dos enlatados corrompeu as paciências culinárias. Mas há! Sei de um bar na rua da Bahia – o Ignacio's – que, neste mesmo instante, está a frigir bolinhos de feijão da melhor qualidade. Daqui a uma hora de voo e 25 minutos de táxi, eu te apresentarei, mulher, ao bolinho de feijão.

 

Dei bom-dia ao proprietário e escolhi o melhor lugar. Expliquei a boa técnica para a companheira: a gente não deve ir chegando e pedindo logo um prato de bolinhos de feijão. Não. Deve tomar um ar de quem não quer nada, mas de quem pode subitamente ter uma ideia fabulosa. Como se os bolinhos nem existissem, pedir o melhor uísque escocês, para apanhar a boa boca. Ir bebendo com tranquilidade, falando de coisas sem importância, para distrair a ideia. Depois, no momento de pedir o segundo uísque...

 

Foi o que fizemos. Falamos sobre as guerras da Ásia e outras trivialidades, bebericando devagar, com aquele gosto das esperanças certas. Acendi um cigarrinho e chamei o garçom:

 

– O senhor agora, por favor, vai trazer mais dois uísques e um pratinho com aqueles bolinhos de feijão.

 

– O doutor vai desculpar, mas o bolinho de feijão está em falta.

 

Como Franz Kafka, não entendi mais nada. Passar duas horas numa repartição pública, descobrir de repente na luz da manhã que Deus existe, o avião existe, o bolinho de feijão existe... E o bolinho de feijão estava em falta! Meu primeiro ódio foi linguístico, contra aquela expressão idiota: nada do que a gente quer devia estar em falta. Em seguida, com a fleuma dos arruinados, perguntei ao rapaz:

 

– Por que o bolinho de feijão está em falta?

 

– Porque a cozinheira que sabia fazer bolinho de feijão partiu pra cima dum garçom, de faca na mão; o patrão mandou ela embora.

 

– Mas, meu amigo, não faz sentido: se a cozinheira, que sabe fazer bolinho de feijão, partiu de faca na mão pra cima do garçom, que não sabe fazer bolinho de feijão, quem devia ir embora é o garçom.

 

– Mas acontece, doutor, que a cozinheira não tinha razão.

 

– Meu caro, o bolinho de feijão tem razões que a própria razão desconhece... A prova disso é esta: acabamos de chegar do Rio para comer bolinho de feijão. Não é só isso: esta senhora nasceu na Europa para conhecer um dia o bolinho de feijão de Minas Gerais... Vê se quebra o galho, meu chapa.

 

O Inácio veio falar comigo e repeti para ele minha estupefação, no caso da cozinheira, e minha indeclinável urgência em comer alguns bolinhos de feijão. O homem comoveu-se, mandando um menino percorrer os botequins da capital. Aguardamos em silêncio.

 

Meia hora depois, três bolinhos de feijão, murchos e frios como as graças fanadas na véspera, eram colocados na mesa.

 

Ela comeu um; eu comi outro; dividimos o último irmãmente. E voltamos para o Leblon.

 

(CAMPOS, Paulo Mendes.

Os bares morrem numa quarta-feira: crônicas. Editora Ática, 1980.)

Considere o trecho: “[...] sem poder ofertar ao consumidor um pratinho de bolinhos de feijão.”. É correto afirmar que o verbo sublinhado, em relação à sua predicação, é classificado como:

  1. AIntransitivo.
  2. BBitransitivo.
  3. CTransitivo direto, apenas.
  4. DTransitivo indireto, apenas.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — Bitransitivo.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Predicação do verbo "ofertar" no trecho

Gabarito: letra B. O verbo "ofertar" é bitransitivo (transitivo direto e indireto), pois exige dois complementos: um objeto direto ("um pratinho de bolinhos de feijão") e um objeto indireto ("ao consumidor"). A passagem que comprova é:

"sem poder ofertar ao consumidor um pratinho de bolinhos de feijão"

O verbo "ofertar" significa "dar", "oferecer" — quem oferta, oferta algo (objeto direto) a alguém (objeto indireto). A alternativa B é a única que reconhece essa dupla transitividade.

O comando da questão

A questão pede a classificação da predicação do verbo "ofertar" no contexto. Predicação verbal é a relação que o verbo estabelece com seus complementos: se ele precisa de complemento (transitivo) ou não (intransitivo), e se esse complemento vem com preposição (indireto) ou sem (direto). Aqui, o foco é identificar os dois complementos do verbo no trecho — não é uma questão de interpretação de texto, mas de análise sintática aplicada ao texto.

O verbo "ofertar" no trecho

No trecho, o sujeito é "uma cidade" (implícito: "sem poder ofertar..."). O verbo "ofertar" pede:

  • Objeto direto (sem preposição): "um pratinho de bolinhos de feijão" — o que se oferta.

  • Objeto indireto (com preposição "a"): "ao consumidor" — a quem se oferta.

Como o verbo exige dois complementos, um direto e um indireto, ele é classificado como bitransitivo (ou transitivo direto e indireto, VTDI).

A técnica que decide

Para classificar a transitividade de um verbo, pergunte: quem? e o quê? para o objeto direto; a quem?, de quê?, com quê? para o objeto indireto. No caso:

  • Ofertar o quê? → "um pratinho de bolinhos de feijão" (OD).

  • Ofertar a quem? → "ao consumidor" (OI).

Se o verbo responde às duas perguntas, é bitransitivo. Se respondesse só à primeira, seria transitivo direto; só à segunda, transitivo indireto; a nenhuma, intransitivo.

Análise das alternativas

1Objeto direto (sem preposição)
"um pratinho de bolinhos de feijão"
Pergunta: ofertar o quê?
2Objeto indireto (com preposição "a")
"ao consumidor"
Pergunta: ofertar a quem?
3Classificação
Bitransitivo (VTDI)
Não é intransitivo
Não é só transitivo direto
Não é só transitivo indireto
Verbo "ofertar" (bitransitivo)
LEVELsoulevel.com.br
Verbo "ofertar" (bitransitivo): Objeto direto (sem preposição) ("um pratinho de bolinhos de feijão", Pergunta: ofertar o quê?); Objeto indireto (com preposição "a") ("ao consumidor", Pergunta: ofertar a quem?); Classificação (Bitransitivo (VTDI), Não é intransitivo, Não é só transitivo direto, Não é só transitivo indireto)

Alternativa A — ❌ Incorreta

Intransitivo — o verbo intransitivo não exige complemento (ex.: "dormir", "nascer"). "Ofertar" exige dois complementos, como visto. A alternativa contradiz o texto, pois ignora os complementos presentes.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Bitransitivo — o verbo "ofertar" apresenta objeto direto ("um pratinho de bolinhos de feijão") e objeto indireto ("ao consumidor"). É a classificação correta, pois o verbo rege dois complementos.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Transitivo direto, apenas — a alternativa restringe a transitividade, desconsiderando o objeto indireto "ao consumidor". O verbo não é apenas transitivo direto; ele também exige o complemento preposicionado.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Transitivo indireto, apenas — a alternativa restringe a transitividade, desconsiderando o objeto direto "um pratinho de bolinhos de feijão". O verbo não é apenas transitivo indireto; ele também exige o complemento sem preposição.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre o verbo "ofertar" (bitransitivo) e a possibilidade de interpretá-lo como transitivo direto apenas, ignorando o objeto indireto "ao consumidor".

PEGA ESSA DICA!

Ao classificar a predicação, sublinhe os complementos do verbo e pergunte: "o quê?" e "a quem?". Se houver dois complementos, um sem preposição e outro com preposição, o verbo é bitransitivo.

Conclusão: a única alternativa inteiramente sustentada pelo texto é a letra B, pois o verbo "ofertar" exige dois complementos — objeto direto e objeto indireto —, caracterizando-o como bitransitivo.

Gabarito: letra B

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