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Questão de Português — Conjunção — Instituto Consulplan 2024

PortuguêsConjunção
Código
qa592118
Banca
Instituto Consulplan
Órgão
Pref Timóteo
Ano
2024
Cargo
ACE ( )

A sordidez humana

 

Ando refletindo sobre nossa capacidade para o mal, a sordidez, a humilhação do outro. A tendência para a morte, não para a vida.

 

Para a destruição, não para a criação. Para a mediocridade confortável, não para a audácia e o fervor que podem ser produtivos. Para a violência demente, não para a conciliação e a humanidade. E vi que isso daria livros e mais livros: se um santo filósofo disse que o ser humano é um anjo montado num porco, eu diria que o porco é desproporcionalmente grande para tal anjo.

 

Que lado nosso é esse, feliz diante da desgraça alheia? Quem é esse em nós (eu não consigo fazer isso, mas nem por essa razão sou santa), que ri quando o outro cai na calçada? Quem é esse que aguarda a gafe alheia para se divertir? Ou se o outro é traído pela pessoa amada ainda aumenta o conto, exagera, e espalha isso aos quatro ventos – talvez correndo para consolar falsamente o atingido?

 

O que é essa coisa em nós, que dá mais ouvidos ao comentário maligno do que ao elogio, que sofre com o sucesso alheio e corre para cortar a cabeça de qualquer um, sobretudo próximo, que se destacar um pouco que seja da mediocridade geral? Quem é essa criatura em nós que não tem partido nem conhece lealdade, que ri dos honrados, debocha dos fiéis, mente e inventa para manchar a honra de alguém que está trabalhando pelo bem? Desgostamos tanto do outro que não lhe admitimos a alegria, algum tipo de sucesso ou reconhecimento? Quantas vezes ouvimos comentários como: “Ah, sim ele tem uma mulher carinhosa, mas eu já soube que ele continua muito galinha”. Ou: “Ela conseguiu um bom emprego, deve estar saindo com o chefe ou um assessor dele”. Mais ainda: “O filho deles passou de primeira no vestibular, mas parece que...”. Outras pérolas: “Ela é bem bonita, mas quanto preenchimento, Botox e quanta lipo...”.

 

Detestamos o bem do outro. O porco em nós exulta e sufoca o anjo, quando conseguimos despertar sobre alguém suspeitas e desconfianças, lançar alguma calúnia ou requentar calúnias que já estavam esquecidas: mas como pode o outro se dar bem, ver seu trabalho reconhecido, ter admiração e aplauso, quando nos refocilamos na nossa nulidade? Nada disso! Queremos provocar sangue, cheirar fezes, causar medo, queremos a fogueira.

 

Não todos nem sempre. Mas que em nós espreita esse monstro inimaginável e poderoso, ou simplesmente medíocre e covarde, como é a maioria de nós, ah!, espreita. Afia as unhas, palita os dentes, sacode o comprido rabo, ajeita os chifres, lustra os cascos e, quando pode, dá seu bote. Ainda que seja um comentário aparentemente simples e inócuo, uma pequena lembrança pérfida, como dizer “Ah! Sim, ele é um médico brilhante, um advogado competente, um político honrado, uma empresária capaz, uma boa mulher, mas eu soube que...”, e aí se lança o malcheiroso petardo.

 

A sordidez e a morte cochilam em nós, e nem todos conseguem domesticar isso. Ninguém me diga que o criminoso agiu apenas movido pelas circunstâncias, de resto é uma boa pessoa. Ninguém me diga que o caluniador é um bom pai, um filho amoroso, um profissional honesto, e apenas exala seu mortal veneno porque busca a verdade. Ninguém me diga que somos bonzinhos, e só por acaso lançamos o tiro fatal, feito de aço ou expresso em palavras. Ele nasce desse traço de perversão e sordidez que anima o porco, violento ou covarde, e faz chorar o anjo dentro de nós.

 

(LUFT, Lya. Veja. Em: maio de 2009. Adaptado.)

Tendo em vista o contexto textual em “Quem é esse em nós (eu não consigo fazer isso, mas nem por essa razão sou santa), que ri quando o outro cai na calçada?”, é possível afirmar que os termos sublinhados indicam, respectivamente:

  1. AOposição e tempo.
  2. BCausa e explicação.
  3. CContraste e finalidade.
  4. DCompensação e proporção.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — Oposição e tempo.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Conjunções no contexto: o valor de "mas" e "quando"

Gabarito: letra A. No trecho "Quem é esse em nós (eu não consigo fazer isso, mas nem por essa razão sou santa), que ri quando o outro cai na calçada?", o "mas" estabelece oposição (adversativa) e o "quando" indica tempo (temporal). A banca cobra exatamente o valor semântico que cada conectivo assume no contexto, e a alternativa A é a única que nomeia corretamente essas duas relações.

O comando da questão

O enunciado pede que você identifique, no contexto textual, o valor semântico dos termos sublinhados. Isso significa que não basta decorar a classificação gramatical isolada: é preciso observar como a palavra funciona na frase e que relação lógica ela estabelece entre as ideias. Em questões de conjunção, a banca quase sempre explora a polissemia — um mesmo conectivo pode ter sentidos diferentes conforme o contexto (ex.: "quando" pode ser temporal, condicional, etc.).

O texto e o trecho em análise

O texto de Lya Luft é uma reflexão sobre a capacidade humana para o mal, a sordidez e a humilhação do outro. No trecho citado, a autora questiona: "Quem é esse em nós (eu não consigo fazer isso, mas nem por essa razão sou santa), que ri quando o outro cai na calçada?".

  • "mas": introduz uma quebra de expectativa — a autora diz que não consegue fazer aquilo (rir da desgraça alheia), mas isso não a torna santa. Há uma oposição entre "não fazer isso" e "não ser santa".

  • "quando": indica o momento em que a ação ocorre — "ri quando o outro cai". É uma relação de tempo.

A técnica para resolver

  1. Identifique a classe e o valor do conectivo: "mas" é conjunção coordenativa adversativa (oposição); "quando" é conjunção subordinativa temporal (tempo).

  2. Teste a substituição: troque "mas" por "porém" (mantém o sentido) e "quando" por "no momento em que" (mantém o sentido). Isso confirma os valores.

  3. Desconfie de alternativas que trocam o sentido: "causa", "finalidade", "proporção" não se aplicam a esses conectivos no contexto.

Análise das alternativas

1"mas"
Conjunção adversativa
Valor: oposição
Substituição: "porém"
2"quando"
Conjunção temporal
Valor: tempo
Substituição: "no momento em que"
3Técnica de resolução
Identificar classe e valor
Testar substituição
Desconfiar de sentidos trocados
Conectivos no contexto
LEVELsoulevel.com.br
Conectivos no contexto: "mas" (Conjunção adversativa, Valor: oposição, Substituição: "porém"); "quando" (Conjunção temporal, Valor: tempo, Substituição: "no momento em que"); Técnica de resolução (Identificar classe e valor, Testar substituição, Desconfiar de sentidos trocados)

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Oposição e tempo. O "mas" é adversativo, expressando oposição entre as ideias; o "quando" é temporal, indicando o momento em que se ri. No trecho:

"(eu não consigo fazer isso, mas nem por essa razão sou santa), que ri quando o outro cai na calçada?"

A oposição está em "não consigo fazer isso" × "não sou santa"; o tempo está em "ri" + "quando o outro cai". A alternativa está inteiramente sustentada pelo texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Causa e explicação. O "mas" não indica causa (não há relação de causa e efeito entre "não consigo fazer isso" e "não ser santa"); o "quando" não explica nada — apenas situa temporalmente a ação. A alternativa troca o valor semântico dos conectivos.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Contraste e finalidade. "Contraste" é sinônimo de oposição, então a primeira parte até poderia ser aceita, mas "finalidade" está errada: o "quando" não expressa propósito (não é "para que"). A alternativa erra na segunda parte.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Compensação e proporção. "Compensação" não é o valor de "mas" (que é oposição, não compensação); "proporção" também não é o valor de "quando" (que é tempo, não proporcionalidade). A alternativa inventa relações que não existem no contexto.

Conclusão

A questão testa a leitura contextual dos conectivos. A regra de ouro: nunca decore o valor de uma conjunção fora do contexto — sempre verifique a relação lógica que ela estabelece entre as ideias. No trecho, "mas" opõe e "quando" temporaliza. Portanto, Gabarito: letra A.

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