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Questão de Português — Reescrita de Frases. Substituição de Palavras ou Trechos de Texto. — Instituto Consulplan 2024

PortuguêsReescrita de Frases. Substituição de Palavras ou Trechos de Texto.
Código
qa592125
Banca
Instituto Consulplan
Órgão
Pref Timóteo
Ano
2024
Cargo
ACE ( )

A sordidez humana

 

Ando refletindo sobre nossa capacidade para o mal, a sordidez, a humilhação do outro. A tendência para a morte, não para a vida.

 

Para a destruição, não para a criação. Para a mediocridade confortável, não para a audácia e o fervor que podem ser produtivos. Para a violência demente, não para a conciliação e a humanidade. E vi que isso daria livros e mais livros: se um santo filósofo disse que o ser humano é um anjo montado num porco, eu diria que o porco é desproporcionalmente grande para tal anjo.

 

Que lado nosso é esse, feliz diante da desgraça alheia? Quem é esse em nós (eu não consigo fazer isso, mas nem por essa razão sou santa), que ri quando o outro cai na calçada? Quem é esse que aguarda a gafe alheia para se divertir? Ou se o outro é traído pela pessoa amada ainda aumenta o conto, exagera, e espalha isso aos quatro ventos – talvez correndo para consolar falsamente o atingido?

 

O que é essa coisa em nós, que dá mais ouvidos ao comentário maligno do que ao elogio, que sofre com o sucesso alheio e corre para cortar a cabeça de qualquer um, sobretudo próximo, que se destacar um pouco que seja da mediocridade geral? Quem é essa criatura em nós que não tem partido nem conhece lealdade, que ri dos honrados, debocha dos fiéis, mente e inventa para manchar a honra de alguém que está trabalhando pelo bem? Desgostamos tanto do outro que não lhe admitimos a alegria, algum tipo de sucesso ou reconhecimento? Quantas vezes ouvimos comentários como: “Ah, sim ele tem uma mulher carinhosa, mas eu já soube que ele continua muito galinha”. Ou: “Ela conseguiu um bom emprego, deve estar saindo com o chefe ou um assessor dele”. Mais ainda: “O filho deles passou de primeira no vestibular, mas parece que...”. Outras pérolas: “Ela é bem bonita, mas quanto preenchimento, Botox e quanta lipo...”.

 

Detestamos o bem do outro. O porco em nós exulta e sufoca o anjo, quando conseguimos despertar sobre alguém suspeitas e desconfianças, lançar alguma calúnia ou requentar calúnias que já estavam esquecidas: mas como pode o outro se dar bem, ver seu trabalho reconhecido, ter admiração e aplauso, quando nos refocilamos na nossa nulidade? Nada disso! Queremos provocar sangue, cheirar fezes, causar medo, queremos a fogueira.

 

Não todos nem sempre. Mas que em nós espreita esse monstro inimaginável e poderoso, ou simplesmente medíocre e covarde, como é a maioria de nós, ah!, espreita. Afia as unhas, palita os dentes, sacode o comprido rabo, ajeita os chifres, lustra os cascos e, quando pode, dá seu bote. Ainda que seja um comentário aparentemente simples e inócuo, uma pequena lembrança pérfida, como dizer “Ah! Sim, ele é um médico brilhante, um advogado competente, um político honrado, uma empresária capaz, uma boa mulher, mas eu soube que...”, e aí se lança o malcheiroso petardo.

 

A sordidez e a morte cochilam em nós, e nem todos conseguem domesticar isso. Ninguém me diga que o criminoso agiu apenas movido pelas circunstâncias, de resto é uma boa pessoa. Ninguém me diga que o caluniador é um bom pai, um filho amoroso, um profissional honesto, e apenas exala seu mortal veneno porque busca a verdade. Ninguém me diga que somos bonzinhos, e só por acaso lançamos o tiro fatal, feito de aço ou expresso em palavras. Ele nasce desse traço de perversão e sordidez que anima o porco, violento ou covarde, e faz chorar o anjo dentro de nós.

 

(LUFT, Lya. Veja. Em: maio de 2009. Adaptado.)

“O que é essa coisa em nós, que dá mais ouvidos ao comentário maligno do que ao elogio, que sofre com o sucesso alheio e corre para cortar a cabeça de qualquer um, sobretudo próximo, que se destacar um pouco que seja da mediocridade geral?”. A expressão evidenciada pode ser substituída, sem alteração semântica, por:

  1. AAliás.
  2. BSimilarmente.
  3. CAcima de tudo.
  4. DDe modo consequente.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Acima de tudo.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Substituição de “sobretudo” sem alteração de sentido

Gabarito: letra C. A expressão “sobretudo” no trecho tem valor de realce ou prioridade — indica que, entre todos, o caso mais relevante é o do “próximo” que se destaca. A substituição por “Acima de tudo” preserva exatamente esse sentido de destaque, como se lê no trecho: “corre para cortar a cabeça de qualquer um, sobretudo próximo, que se destacar um pouco que seja da mediocridade geral”. As demais alternativas introduzem relações semânticas diferentes (retificação, comparação, consequência), o que alteraria o sentido original.

O comando da questão

O enunciado pede uma substituição sem alteração semântica. Isso significa que a expressão escolhida deve manter o mesmo valor lógico e argumentativo no contexto. Não se trata de sinônimo perfeito em qualquer contexto, mas de equivalência naquele trecho específico. A banca quer que você perceba o papel da expressão “sobretudo” dentro da frase: ela restringe e enfatiza um caso particular entre vários.

O papel de “sobretudo” no texto

No trecho, a autora lista comportamentos da “coisa em nós” que se alegra com a desgraça alheia. A expressão “sobretudo” introduz uma ênfase: entre todos os alvos da inveja, o mais grave é quando a vítima é alguém próximo. Veja:

“corre para cortar a cabeça de qualquer um, sobretudo próximo, que se destacar um pouco que seja da mediocridade geral”

Aqui, “sobretudo” equivale a “principalmente”, “especialmente”, “acima de tudo”. Ela não estabelece comparação, nem consequência, nem retificação — apenas destaca um elemento da lista.

A técnica de substituição

Para resolver, teste cada alternativa substituindo no trecho e verifique se o sentido permanece. A correta é a que mantém a ênfase; as erradas introduzem relações novas:

  • Aliás — retifica ou acrescenta uma informação nova, quebrando a ideia de destaque.

  • Similarmente — estabelece comparação, o que não existe no original.

  • Acima de tudo — mantém a ênfase, é a correta.

  • De modo consequente — introduz consequência, relação que não está presente.

Análise das alternativas

Alternativa A — ❌ Incorreta

“Aliás” tem valor de retificação ou acréscimo — usado para corrigir ou acrescentar uma informação. No trecho, não há retificação; há ênfase. Substituir “sobretudo” por “aliás” mudaria o sentido para algo como “qualquer um, aliás próximo”, o que não faz sentido no contexto. Erro: troca de valor semântico (realce → retificação).

Alternativa B — ❌ Incorreta

“Similarmente” indica comparação — “de modo semelhante”. O texto não compara o “próximo” com outros; apenas o destaca. A substituição introduziria uma relação de semelhança inexistente. Erro: introduz relação de comparação (fora do escopo).

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

“Acima de tudo” é uma expressão de realce/prioridade, exatamente o valor de “sobretudo”. No trecho, a autora quer dizer que, entre todos, o caso mais grave é quando o alvo é alguém próximo. A substituição preserva o sentido e a ênfase. Correta: mantém o valor semântico de destaque.

Alternativa D — ❌ Incorreta

“De modo consequente” expressa consequência — “como resultado”. O trecho não estabelece uma relação de causa e efeito; apenas destaca um caso. A substituição criaria uma relação lógica que não existe no original. Erro: introduz relação de consequência (fora do escopo).

Fechamento

A questão testa a percepção do valor semântico de conectivos e expressões. Ao substituir, pergunte: “essa troca mantém a relação que o autor estabeleceu?”. Se a alternativa introduz uma relação nova (comparação, consequência, retificação), está errada. Gabarito: letra C.

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