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Questão de Português — Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc) — Avança SP 2024

PortuguêsCoerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)
Código
qa592128
Banca
Avança SP
Órgão
CM Embu-Guaçu
Ano
2024
Cargo
AAG ( )

Solidão

 

Finalmente liberadas as gravações que a Nasa fez das experiências realizadas com o tenente da Marinha John Smith para testar o comportamento humano em condições de completo isolamento durante longos períodos de tempo, iguais ao que o homem terá que enfrentar na exploração do espaço. O tenente Smith foi escolhido pelas suas perfeitas condições físicas e mentais. Foi colocado dentro de um simulador de voo com comida bastante para dois anos e os instrumentos que normalmente levaria numa missão, inclusive um computador. Todos os dias Smith teria que fazer um relatório verbal para que seu estado fosse avaliado. O que segue são trechos das gravações feitas dos seus relatórios.

 

Primeiro dia. “Meu nome é John Smith. Estou ótimo. Passei todo o dia me familiarizando com este meu pequeno lar. Já desafiei o computador para uma partida de xadrez. Acho que nos daremos muito bem. (Risadas.) Só tenho uma queixa: esta comida em bisnagas não se parece nada com a comida de mamãe... (Risadas.) Dois mais dois são quatro. Encerro.”

 

Uma semana depois. “John Smith aqui. Continuo muito bem. Ainda não consegui vencer nenhuma partida de xadrez deste computador. Acho que ele está trapaceando. (Risadas.) Três vezes três é nove. Encerro.”

 

Um mês depois. “(Risadas.) Meu nome é John maldito Smith. Tudo bem. Um pouco entediado, mas tudo bem. Consegui finalmente ganhar uma do computador, embora ele negue. Vou ter que derrotá-lo de novo para convencer este cretino. Calculei mal e já comi todas as bisnagas de torta de maçã. Agora só tem o maldito limão. Duas vezes três são, deixa ver. Seis. Quer dizer... Não. Está certo. Seis. Encerro.”

 

Dois meses depois. “Vocês sabem quem eu sou. John qualquer coisa. Não aguento mais a arrogância deste computador. Ele não é humano! Insiste que me deu xeque-mates inexistentes e se recusa a admitir que está errado. Tivemos uma briga feia hoje. Dois mais dois são... sei lá. Encerro.”

 

Quatro meses. “Alô. Tenho provas irrefutáveis de que o computador está tentando boicotar esta missão! Ouvi claramente ele dizer alguma coisa desagradável sobre mamãe. (...) Não me responsabilizo pelo que possa acontecer. Estou muito bem, lúcido e bem-disposto. Com licença que estão batendo na porta."

 

Sexto mês. “Meu nome é Smith. Maggie Smith. Por hoje é só.”

 

Oitavo mês. “(Risadas.)”

 

Nono mês. “Smith aqui. Aconteceu o inevitável. Matei o computador. Estávamos com um problema, onde colocar as bisnagas vazias, e ele fez uma sugestão deselegante. Agora está morto. Não tenho remorsos. Ontem recebi a visita de um vendedor de enciclopédias. Não sei como ele conseguiu entrar aqui. Dois mais dois geralmente é nove. Encerro.” Décimo mês. “Meu nome é Brown ou Taylor. Um mais um é umum. Dois mais dois, não. Iniciei um projeto importantíssimo. Com as bisnagas vazias e partes do computador, estou construindo uma mulher.” Um ano. “Redford aqui. Sinto falta de um espelho para poder ver a minha barba, que está bem comprida. A mulher que fiz de bisnagas vazias e partes do falecido computador ficou ótima mas, infelizmente, nossos gênios não combinavam. Ela foi para casa de seus pais. Dois mais dois...”

 

Décimo quarto mês. “Minha barba está tentando boicotar a missão! Faz um estranho barulho eletrônico e várias vezes já tentou me estrangular. Deve ser comunista. Começaram a chegar as enciclopédias que comprei. Tenho jogado xadrez comigo mesmo e ganho sempre.”

Décimo quinto mês. “Aqui fala Zaratustra. Atenção. Encontrei pegadas humanas dentro da cabine. Estou investigando. Mandarei um relatório depois. Duas vezes três é demais. Encerro.”

 

No dia seguinte. “Grande notícia. Há outro ser humano dentro da cabine! Seu nome é Smith, John Smith, mas como o encontrei numa terça-feira o chamarei de ‘Quinta’. Ele não fala, mas joga xadrez como um mestre. (Risadas.) Talvez tenha que matá-lo.” Neste ponto, os cientistas da Nasa acharam melhor abrir a cápsula. Encontraram Smith com as mãos em volta do próprio pescoço, gritando: “Trapaceiro! Trapaceiro!”.

 

VERISSIMO, L. F. Verissimo antológico:

meio século de crônicas, ou coisa parecida. São Paulo: Objetiva, 2020.

Texto para responder à questão.

 

Considere o excerto: “Consegui finalmente ganhar uma do computador, embora ele negue.” Nesse contexto, a palavra “uma” desempenha a função de:

  1. Aretomar o referente “partida de xadrez” anteriormente mencionado.
  2. Bespecificar a expressão “do computador”.
  3. Cmodificar a ação denotada pelo verbo “ganhar”.
  4. Dprovocar ambiguidade, já que mais de um referente é recuperado no texto.
  5. Eindeterminar o referente implícito relacionado ao verbo “ganhar”.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — retomar o referente “partida de xadrez” anteriormente mencionado.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Coesão Referencial: a função anafórica de "uma"

Gabarito: letra A. No trecho "Consegui finalmente ganhar uma do computador, embora ele negue", a palavra "uma" retoma o referente "partida de xadrez", mencionado anteriormente no texto. A prova está na passagem do primeiro dia: "Já desafiei o computador para uma partida de xadrez" — é essa "partida de xadrez" que o pronome "uma" recupera anaforicamente, evitando a repetição do substantivo.

O comando: função da palavra no contexto

A questão pede que você identifique a função coesiva da palavra "uma" no excerto. Isso não é uma pergunta de compreensão literal, mas de coesão referencial: como um termo do texto se liga a outro para evitar repetição e garantir continuidade. O verbo do enunciado — "desempenha a função de" — aponta para o papel que a palavra exerce na arquitetura do texto, não para seu sentido isolado.

O texto: onde mora a resposta

A crônica de Verissimo narra a deterioração mental de John Smith no isolamento. No primeiro dia, ele diz: "Já desafiei o computador para uma partida de xadrez". Uma semana depois, repete a ideia: "Ainda não consegui vencer nenhuma partida de xadrez deste computador". No relato de um mês, surge o trecho da questão: "Consegui finalmente ganhar uma do computador".

A palavra "uma" é um pronome substantivo — ela substitui o substantivo "partida" (de xadrez), que já foi nomeado duas vezes antes. Esse é o mecanismo clássico de anáfora: um termo que retoma um referente anterior, evitando repetição desnecessária. Veja o esquema:

A técnica: pronome substantivo × pronome adjetivo

A pegadinha central da questão está em distinguir duas funções possíveis do numeral/pronome "uma":

  • Pronome substantivo: substitui um substantivo já mencionado. Ex.: "Comprei uma caneta. A uma era azul." (aqui, "uma" = "caneta")

  • Pronome adjetivo: acompanha um substantivo, modificando-o. Ex.: "Comprei uma caneta." (aqui, "uma" modifica "caneta")

No trecho, "uma" não acompanha nenhum substantivo — está sozinha, funcionando como núcleo do objeto direto de "ganhar". Por isso, é pronome substantivo, e seu referente é "partida de xadrez".

PEGA ESSA DICA!

Para testar se um pronome é substantivo ou adjetivo, pergunte: "ele substitui um nome?" Se sim, é substantivo. Se acompanha um nome, é adjetivo.

Análise das alternativas

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa afirma que "uma" retoma o referente "partida de xadrez" anteriormente mencionado. Isso está exatamente correto. No texto, o referente aparece duas vezes antes do trecho:

"Já desafiei o computador para uma partida de xadrez."

"Ainda não consegui vencer nenhuma partida de xadrez deste computador."

Quando Smith diz "ganhar uma", ele está se referindo a "uma partida de xadrez". A palavra "uma" é um pronome substantivo que retoma anaforicamente esse referente, evitando a repetição do sintagma completo. É o mecanismo clássico de coesão referencial.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Afirma que "uma" especifica a expressão "do computador". Isso é um erro de função sintática. "Do computador" é um adjunto adverbial de origem (ou complemento nominal), indicando contra quem Smith jogou. "Uma" não modifica "computador" — ela se refere à partida. A alternativa confunde o referente: troca "partida de xadrez" por "computador".

Alternativa C — ❌ Incorreta

Afirma que "uma" modifica a ação denotada pelo verbo "ganhar". Isso seria função de advérbio (ex.: "ganhar bem"), não de pronome. "Uma" não modifica o verbo; ela é o objeto direto de "ganhar" — aquilo que se ganha. A alternativa atribui classe gramatical errada ao termo.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Afirma que "uma" provoca ambiguidade, já que mais de um referente é recuperado no texto. Não há ambiguidade: o referente é único e claro — "partida de xadrez". O texto não oferece outro candidato plausível para "uma" (não poderia ser "bisnaga" nem "partida de outro jogo"). A alternativa inventa uma ambiguidade inexistente.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Afirma que "uma" indetermina o referente implícito relacionado ao verbo "ganhar". Pelo contrário: o referente é determinado — está explícito no texto ("partida de xadrez"). "Uma" não indetermina; ela retoma um referente já conhecido. A alternativa inverte o mecanismo: anáfora determina, não indetermina.

Conclusão

A questão testa sua capacidade de reconhecer o mecanismo de coesão referencial anafórica. A palavra "uma" é um pronome substantivo que retoma "partida de xadrez", evitando repetição. As demais alternativas erram ao confundir a função (modificar verbo, especificar computador), inventar ambiguidade ou indeterminação. Gabarito: letra A.

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