A importância da arte e da arte de resistir no ano da pandemia
Por Milena Schäfer
O encontro pelas telas marcou 2020 e com o fazer artístico não foi diferente. O olhar foi intermediado pela câmera, o aplauso deu lugar aos emojis, e todas as camadas da subjetividade dos encontros acomodaram-se, em tom de urgência, no enquadramento audiovisual. Para quem encontra na arte o sentido da vida e vive com o sustento de cada apresentação, parar realmente não foi uma opção. No desenrolar dessa cena trágica, os artistas também foram duramente impactados, mas não nos abandonaram. Alguns ligaram as câmeras pela primeira vez e confirmaram que a presença virtual, embora não seja ideal, é melhor do que a ausência. Sob espetáculos cancelados, teatros interditados e luzes apagadas, a arte não silenciou. Pelo contrário, cantou feito cigarra, espalhando-se a ponto de atingir o tão merecido status de "essencial".
A importância da arte para a sobrevivência da espécie humana não é novidade, mas virou certeza absoluta nos meses de isolamento. Sozinha, em um apartamento cheio de vazio, vi cada canto ser suavemente preenchido pelas obras que pude acessar. Não foi uma, nem 20; foram incontáveis as vezes que encontrei no botão de play a salvação para suportar dias tão difíceis. Que atire a primeira pedra quem foi capaz de ficar sem ler um livro, escutar uma música ou assistir uma livezinha sequer. Pois é, 2020 foi o ano das lives.
Quem foi que disse que as cigarras não trabalham? Mesmo paralisadas, muitas conseguiram sair da casca, alçando voos. Disseminaram-se pela rede online as oficinas, os ensaios remotos, os espetáculos e os shows filmados. O caos também foi inspiração para criar, gerou uma necessidade ainda maior de expressar. Financiamentos coletivos deram visibilidade arte periférica.
No acesso facilitado pelo controle remoto, algumas plateias tornaram-se, até mesmo, mais numerosas do que antes. No acesso facilitado plataformas digitais, a cena cultural, que já era potente, ganhou mais diversidade. E as comunidades começaram a se ver, a reconhecerem-se de verdade.
No "Ano das Trevas", renascemos a cada dia inspirados por músicas, coreografias, imagens, histórias e representações. Tudo feito por estas cigarras que, na concepção de cada obra, também nos ensinam a arte de resistir.
(Disponível em: www.gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro/cultura-e-lazer/noticia/2020/12/a-importancia-da-artee- da-arte-de-resistir-no-ano-da-pandemia-ckj2tgvgg000p017whdowgm1m.html – texto adaptado especialmente para esta prova).
Considerando o emprego do acento indicativo de crase, assinale a alternativa que preenche, correta e respectivamente, as lacunas tracejadas.
Aa – à – às
Bà – à – às
Cà – a – às
Dà – a – as
Ea – à – as
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GabaritoA — a – à – às
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Crase: preposição + artigo feminino — Gabarito: letra A.
Gabarito: letra A. A sequência correta é a – à – às: na primeira lacuna, o "a" é apenas preposição exigida pelo verbo "dar" (dar visibilidade a algo), sem artigo; na segunda, ocorre crase porque o verbo "chegar" exige preposição "a" e o substantivo "plataformas" admite o artigo feminino "as" (chegar às plataformas); na terceira, o verbo "assistir" (no sentido de ver) exige preposição "a" e o substantivo "obras" admite o artigo "as" (assistir às obras). A alternativa A é a única que preenche corretamente as três lacunas.
Desenvolvimento
O comando
A questão pede que você preencha as lacunas do texto com o acento indicativo de crase, correta e respectivamente. Isso significa que você deve analisar cada lacuna isoladamente, verificando se há a fusão da preposição "a" com o artigo feminino "a(s)" ou com o "a" inicial de pronomes demonstrativos. A crase não é um acento decorativo: ela só ocorre quando há a contração de duas vogais idênticas — a preposição "a" (exigida por um verbo ou nome) + o artigo "a/as" ou o pronome demonstrativo "a" (que acompanha um substantivo feminino).
O texto
O texto fala sobre a importância da arte durante a pandemia, destacando como os artistas se adaptaram ao meio virtual. As lacunas estão em trechos específicos que exigem análise de regência verbal e nominal. Vejamos cada uma:
"Financiamentos coletivos deram visibilidade ___ arte periférica" — o verbo "dar" é transitivo direto e indireto (VTDI): quem dá, dá algo a alguém. O complemento indireto é "arte periférica", que exige a preposição "a". Como "arte" é um substantivo feminino usado em sentido genérico (não específico), não há artigo definido "a" antes dele. Portanto, temos apenas a preposição "a", sem crase. Se houvesse artigo, seria "à arte periférica" (dar visibilidade à arte periférica específica), mas o texto não traz essa especificação.
"No acesso facilitado ___ plataformas digitais" — o verbo "chegar" (implícito na locução "acesso facilitado") exige a preposição "a" (quem chega, chega a algum lugar). O substantivo "plataformas" é feminino plural e admite o artigo "as". Temos, então, a fusão: preposição "a" + artigo "as" = às. A crase é obrigatória.
"assistir ___ obras que pude acessar" — o verbo "assistir" no sentido de "ver", "presenciar" é transitivo indireto (VTI) e exige a preposição "a" (quem assiste, assiste a algo). O substantivo "obras" é feminino plural e admite o artigo "as". Temos a fusão: preposição "a" + artigo "as" = às. A crase é obrigatória.
A técnica/regra que decide
A crase é a fusão da preposição "a" com o artigo feminino "a(s)" ou com o "a" inicial de pronomes demonstrativos (aquele, aquela, aquilo) e relativos (a qual, as quais). Para saber se há crase, você deve verificar dois requisitos simultâneos:
O termo regente exige a preposição "a";
O termo regido é feminino e admite o artigo "a/as".
Se um dos dois faltar, não há crase. No caso da primeira lacuna, falta o artigo (a palavra "arte" está em sentido genérico). Nas outras duas, ambos os requisitos estão presentes.
PEGA ESSA DICA!
Para testar se há crase, substitua o termo feminino por um masculino equivalente. Se aparecer "ao", há crase; se aparecer apenas "a", não há. Ex.: "dar visibilidade ao projeto" (masculino) → "dar visibilidade a arte" (feminino, sem crase, pois não aparece "ao"). "chegar ao local" → "chegar às plataformas" (aparece "ao", logo há crase).
O gancho
Teste cada alternativa perguntando: o texto autoriza a crase? A primeira lacuna não tem artigo, logo não há crase. As outras duas têm artigo e preposição, logo há crase. A única alternativa que respeita essa lógica é a A.
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A sequência a – à – às está correta. Na primeira lacuna, "a" é apenas preposição (sem artigo, pois "arte" está em sentido genérico). Na segunda, "às" é a fusão da preposição "a" com o artigo "as" (chegar às plataformas). Na terceira, "às" é a fusão da preposição "a" com o artigo "as" (assistir às obras). A alternativa preenche corretamente as três lacunas.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A sequência à – à – às erra na primeira lacuna. Colocar "à" ali implicaria a existência de artigo definido antes de "arte periférica", o que não ocorre no texto. O trecho "deram visibilidade à arte periférica" daria a entender que se trata de uma arte específica, mas o texto fala de forma genérica. Erro: generalização indevida (aplica crase onde não há artigo).
Alternativa C — ❌ Incorreta
A sequência à – a – às erra na primeira e na segunda lacuna. Na primeira, o mesmo erro da alternativa B (crase sem artigo). Na segunda, falta a crase: "acesso facilitado a plataformas" sem o acento grave, o que é incorreto, pois há preposição + artigo. Erro: contradiz o texto (omite crase obrigatória).
Alternativa D — ❌ Incorreta
A sequência à – a – as erra na primeira, segunda e terceira lacunas. Na primeira, crase indevida. Na segunda, falta crase. Na terceira, falta crase: "assistir as obras" sem acento grave, o que é incorreto, pois há preposição + artigo. Erro: contradiz o texto (omite crases obrigatórias).
Alternativa E — ❌ Incorreta
A sequência a – à – as erra na terceira lacuna. Na primeira, acerta (sem crase). Na segunda, acerta (com crase). Na terceira, falta crase: "assistir as obras" sem acento grave, o que é incorreto. Erro: contradiz o texto (omite crase obrigatória).
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre crase obrigatória e facultativa. A primeira lacuna é a pegadinha: muitos candidatos marcam "à" por acharem que "dar visibilidade" exige crase, mas o artigo está ausente. Lembre-se: crase só ocorre com a fusão de preposição + artigo, e o artigo só aparece se o substantivo estiver determinado.