Questão de Português — Crase — FUNDATEC 2024
- Código
- qa592222
- Banca
- FUNDATEC
- Órgão
- PalcoParaná
- Ano
- 2024
- Cargo
- Fisio ( )
Exercício físico como deleite?
Por Carlos Alberto Gianotti Dia desses, falei com um velho colega e amigo ultramaratonista para saber como ele havia se saído na recente Travessia Torres-Tramandaí. A resposta veio taxativa: "Simplesmente desisti, abandonei a prova na altura da Praia do Barco e fui tomar uma cerveja, porque cheguei conclusão de que corria por obrigação, e não por prazer."
Sei que meu amigo chegaria a Tramandaí entre os melhores, não só em sua categoria. Mas parou ao sentir ou a falta de prazer no que estava a fazer, ou o tormento da obrigação. Sim, concluir uma prova, como meta, é a obrigação. Disputá-la, o sacrifício. Ao término, e só então, há o prazer de haver cumprido o percurso. No caso, parece, houve, além de algo estranhável, ou um erro de avaliação ou de autoengano momentâneo (o mais provável), por alguém acostumado a treinos de longas distâncias, horas fio. Corridas de fundo não se constituem em prazer, mas em disciplina, esforço, sacrifício. Logo, não há deleite.
Há, entre os vídeos que se acumulam na internet, um essencialmente pedagógico relativo prática do fundismo, com o doutor Dráuzio Varella, conhecido médico, escritor e maratonista, com cujo conteúdo concordo plenamente, depois de eu, hoje aos 71 anos, já ter corrido por mais de 36 anos cerca de 48 mil quilômetros. Diz Dráuzio que o exercício físico não é algo "natural" para o ser humano, sendo ele o único animal que o pratica. A tendência das pessoas é de permanecer quietinhas, gastando energia apenas para reprodução da espécie, para conseguir alimentos (no caso dos humanos, o tal trabalho) e para escapar de predadores da espécie (no Brasil, fugir da bandidagem). Diz o médico que nunca ninguém viu, em um zoológico, girafa fazendo alongamento ou leão correndo maratona.
Ora, essa conversa bacana de que correr pelos parques ou pelas ruas é um momento edificante espiritual e físico pode ser faltar com a verdade para os ouvintes ou para si mesmo. Prática esportiva continuada requer disciplina, logo é sacrifício. Creio que não houve uma vez nesses meus anos de fundista em que me preparasse para sair a treinar e que não tenha, antes da partida, conjecturado comigo mesmo: "Por que estou fazendo isso?". Claro que há benefícios físicos e psíquicos notórios na prática periódica do exercício físico, mas daí a dizer que se trata de um prazer é um grande autoengano.
(Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/esportes/noticia/2018/02/carlos-alberto-gianotti-exercicio-fisico-como-deleite-cjddnqo9a07sj01kevloi0rqm.html – texto adaptado especialmente para esta prova).
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