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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FUNDATEC 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa592340
Banca
FUNDATEC
Órgão
Pref Jari
Ano
2024
Cargo
Ag ( )

“Ainda não se acostumou, mãe?”

 

Por Martha Medeiros

 

Parece que foi ontem. Ela estava sentada à mesa conosco, nossa versão de “éramos seis”: eu, ela, o pai dela, a avó, a irmã e o namorado da irmã. Pedi para a Clair, minha funcionária há 32 anos, que preparasse uma lasanha inesquecível para o almoço de despedida. Depois de três semanas visitando a família, minha filha mais velha voltaria para sua própria casa. Menos de 24 horas depois, já tinha aterrissado na França, onde vive. Que invenção, o avião [II]. Perdi a conta de quantas vezes os preparativos para sua estada se repetiram [III]: fazer uma faxina caprichada em seu antigo quarto, abastecer a despensa com feijão, doce de leite, guaraná e pão de queijo, buscá-la no aeroporto, levá-la ao aeroporto. Mas, recorrente mesmo, é o nosso diálogo antes de ela desaparecer por trás do portão de embarque. Trocamos um longo abraço e ao me ver meio desenxabida, sempre pergunta: “Ainda não se acostumou, mãe?”. Não sou de lamúrias: me acostumei, sim. Já são muitos anos de distância geográfica – e viva a tecnologia. Trocamos WhatsApp regulares e, através de chamadas de vídeo, percebo pelo seu olhar se está alegre ou preocupada. É quase como estar junto. Sou madura. Não faço drama.

 

Quem dera houvesse mais beijos e abraços entre nós, mas as demandas pessoais dela são prioridade. Se viver fora do Brasil atende suas necessidades de expansão e conhecimento, vou eu fazer chantagem emocional? Quero que avance, que cresça, que se divirta e que, quando as tristezas surgirem (surgem em qualquer lugar do mundo), ela me ligue para a gente segurar a onda juntas. É possível ficar perto de quem está longe, distância não é um conceito exato.

 

A conexão que importa é a da sintonia. Não posso desconsiderar seus desejos e menosprezar sua coragem de enfrentar a vida em outro idioma e mantendo outras relações. Parentes são abrigos, cais, plataformas de lançamento e recepção, mas crescemos mesmo através do que nos é estranho. Infelizmente, ninguém estimula pais e mães a pensarem assim. Aprendemos que, quanto maior o sofrimento pela ausência deles, maior é o amor. Então as queixas de saudade se acumulam e os filhos lá fora, coitados, que se virem com a culpa por terem partido.

 

Se defendo minha liberdade, tenho que defender a liberdade da minha prole também – e apoiá-la. Não sofro, não me escabelo, sei que ela está bem, e quando está mal, não é por viver em um país estrangeiro, mas por questões emocionais que atingem a todos, onde quer que se esteja. Confio no amor que demonstro através da minha confiança e torcida. E os aviões estão aí para recuperar os abraços e beijos quando essa maturidade toda começa a fraquejar.

 

Embarco depois de amanhã. É a vez dela de botar a mesa para mim.

 

(Disponível em: www.gauchazh.clicrbs.com.br/donna/colunistas/martha-medeiros/noticia/2024/02/ainda-nao-se-acostumou-mae-cls3dvasz001z012b2y6wgcvn.html – texto adaptado).

Texto

   

Analise as assertivas abaixo sobre o texto:

 

I. É possível inferir que a autora tem duas filhas.

 

II. Tendo em vista o trecho “Que invenção, o avião” e a frase que o precede, infere-se que a escritora demonstra uma visão negativa a respeito das vantagens desse meio de transporte.

 

III. Pelo fragmento “Perdi a conta de quantas vezes os preparativos para sua estada se repetiram” infere-se que a autora se esqueceu das outras vezes em que preparou a casa para receber a filha.

 

Quais estão corretas?

  1. AApenas I.
  2. BApenas II.
  3. CApenas III.
  4. DApenas I e II.
  5. EApenas II e III.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — Apenas I.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Inferência textual: distinguindo o que o texto autoriza do que o candidato inventa

Gabarito: letra A (Apenas I). A única assertiva correta é a I, pois o texto permite inferir que a autora tem duas filhas — a mais velha, que vive na França, e outra, mencionada no trecho “a irmã e o namorado da irmã”. As assertivas II e III são incorretas porque extrapolam: a II inverte o sentido da exclamação “Que invenção, o avião” (que é de admiração, não de crítica), e a III interpreta literalmente a expressão “Perdi a conta”, que é uma hipérbole, não um esquecimento real. Como se lê no texto: “minha filha mais velha voltaria para sua própria casa” e “a irmã e o namorado da irmã”.

O comando: o que a banca pede

O enunciado usa o verbo “infere-se” — isso muda tudo. Inferência não é o que está escrito literalmente, mas uma dedução ancorada em pistas do texto. A banca não quer que você “adivinhe” nem que use seu conhecimento de mundo; quer que você encontre a conclusão que o texto obriga a tirar. Cada assertiva deve ser testada com a pergunta: o texto me dá uma pista que me leva a essa conclusão, ou eu estou acrescentando algo de fora?

O texto: tema e movimento argumentativo

O texto é uma crônica de Martha Medeiros sobre a saudade da filha que mora na França. A autora defende uma tese: é possível manter a proximidade afetiva mesmo com a distância geográfica, e a maturidade consiste em apoiar a liberdade dos filhos. O trecho-chave para a questão está no primeiro parágrafo, quando ela descreve o almoço de despedida: “eu, ela, o pai dela, a avó, a irmã e o namorado da irmã”. A menção à irmã da filha é a pista que autoriza a inferência da assertiva I.

A técnica: inferência legítima × extrapolação

A linha que separa o certo do errado é exatamente esta: inferência legítima se apoia em um pressuposto — uma pista deixada pelo próprio texto. Por exemplo, “minha filha mais velha” pressupõe que existe (ou existiu) outra filha. Já a extrapolação acrescenta informação que o texto não dá, mesmo que a conclusão pareça “razoável” no mundo real. As assertivas II e III são exemplos clássicos de extrapolação: a II lê a exclamação “Que invenção, o avião” como crítica, quando o contexto mostra admiração; a III transforma uma hipérbole (“Perdi a conta”) em fato literal.

Inferência textual
  • 1Inferência legítima
    • Apoia-se em pista do texto
    • Pressuposto (ex.: "mais velha" → outra filha)
    • Assertiva I correta
  • 2Extrapolação (erro)
    • Acrescenta informação de fora
    • Assertiva II (inverte sentido: admiração ≠ crítica)
    • Assertiva III (hipérbole ≠ esquecimento real)
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Assertiva I — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A assertiva I afirma: “É possível inferir que a autora tem duas filhas.” O texto autoriza essa inferência em duas passagens:

“minha filha mais velha voltaria para sua própria casa”

“eu, ela, o pai dela, a avó, a irmã e o namorado da irmã”

A expressão “mais velha” pressupõe que há pelo menos uma filha mais nova. E a menção à “irmã” da filha confirma: a autora tem, no mínimo, duas filhas. A inferência é legítima porque se apoia em pistas textuais — não é invenção do leitor.

Assertiva II — ❌ Incorreta

A assertiva II afirma que a exclamação “Que invenção, o avião” demonstra “uma visão negativa a respeito das vantagens desse meio de transporte”. Isso contradiz o texto. A frase vem logo após a autora dizer que a filha “já tinha aterrissado na França, onde vive” — e a exclamação é de admiração pela rapidez do avião, que permite a filha estar longe e perto ao mesmo tempo. O tom é positivo, não negativo. A banca tenta fazer você ler a exclamação como ironia, mas o contexto não autoriza. Erro: contradiz o texto / extrapolação.

Assertiva III — ❌ Incorreta

A assertiva III afirma que “Perdi a conta de quantas vezes os preparativos para sua estada se repetiram” significa que a autora se esqueceu das outras vezes. Isso é uma leitura literal de uma expressão figurada. “Perdi a conta” é uma hipérbole — um exagero para dizer que foram muitas vezes, não que ela esqueceu. O texto deixa claro que ela lembra muito bem dos preparativos: “fazer uma faxina caprichada em seu antigo quarto, abastecer a despensa com feijão, doce de leite, guaraná e pão de queijo, buscá-la no aeroporto, levá-la ao aeroporto”. Erro: extrapolação / leitura literal de expressão figurada.

Conclusão

A questão ensina uma lição valiosa: inferência exige pista no texto; extrapolação é erro. Teste cada assertiva perguntando: o texto me obriga a concluir isso, ou eu estou completando com minha imaginação? A única que passa no teste é a I. Gabarito: letra A.

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