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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FUNDATEC 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa592582
Banca
FUNDATEC
Órgão
Pref Paraí (RS)
Ano
2024
Cargo
FOP ( )

O golpe quase perfeito da avó em seus netos

 

Por Fabrício Carpinejar

 

É comum ver idosos sofrendo golpes bancários, repassando suas senhas a estranhos no caixa automático, atendendo ligações de impostores como se fossem seus gerentes, assinando documentos em branco que são, na verdade, empréstimos consignados, ou acreditando em bilhetes premiados, ou ainda em falsos sequestros de familiares.

 

Minha mãe de 84 anos inverteu a lógica e se vingou de todas as fraudes amargas experimentadas pela sua geração, de todos os rombos ilícitos no orçamento de sua faixa etária. Ela tem aplicado um golpe perfeito nos netos. Merecia um prêmio de malandragem. Nem um hacker seria tão liso, tão escorreito, tão invisível.

 

Ela sempre dá um dinheirinho de presente de aniversário. Uma quantia para que cada neto possa comprar livremente o que deseja. É uma mesada inesperada. Os pais são proibidos de visualizar a cifra, para não ficarem com inveja ou recorrerem à inoportuna pressão de rateio pelas despesas da casa.

 

Trata-se de uma saída criativa para não se sentir velha com os mimos. Depois de oferecer um liquidificador e um jogo de panelas que, evidentemente, não foram bem recebidos pelos adolescentes, ela desistiu de ir às lojas. Ela finge que não gostaria de adotar essa lembrança de natureza impessoal, alegando que foi o jeito que encontrou para não gerar constrangimento com um embrulho inconveniente, um agrado datado, e não errar mais o gosto deles. Só que a sua generosidade vem na forma de um cheque.

 

Que jovem vai se deslocar para um endereço físico, atravessar o incômodo da porta giratória de detector de metal e da revista dos guardas, suportar o lento chamado por senhas para descontar hoje um cheque no banco? Que jovem, totalmente digital, entrará numa fila para tirar o montante?

 

Os netos nasceram com dedos na tela de um celular. Estão acostumados com Pix, com transferências imediatas, com internet banking. Nunca tiveram um talão de cheques na vida. Sequer entendem os espaços a serem preenchidos e aquele valor em reais e centavos a ser desdobrado por extenso na caligrafia. Levariam um susto com o “h” na frente do “um”. Achariam que a convenção é analfabetismo.

 

Eles não pisam em bancos, não perdem tempo com burocracia. Pagam suas contas no próprio aparelho, a partir do código de barras das faturas. É assim também com passagens, hotéis, cinema, shows. Eu mesmo, cinquentão, já não uso um cheque há mais de vinte anos. É tudo feito no cartão de crédito. Nem notas carrego na carteira.

 

O ardil da vó com os netos conta com 100% de aproveitamento. O que está acontecendo é o óbvio: os cheques jamais são descontados. E a minha mãe vive presenteando e sendo carinhosa sem gastar um único tostão de sua conta.

 

Como os netos dispunham de trinta dias de validade para apresentação do cheque na agência, o tempo acabou expirando. As folhinhas prescreveram. Restou de presente o autógrafo simbólico da avó.

 

O plano deu certo até o momento, caducando as benesses de 2023 para trás. Com os próximos cheques, não será mais assim. Os bancos já se precaveram contra o “golpe da vó”. Criaram um dispositivo dentro dos aplicativos do celular em que você pode fotografar o cheque e descontá-lo. Por essa captura de imagem, ela não esperava. Estou curioso para saber qual será a sua próxima estratégia.

 

(Disponível em: www.gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/carpinejar/noticia/2024/02/o-golpe-quase-perfeitoda- avo-em-seus-netos-clsw7zw4c000201ewxgmo1gam.html – texto adaptado especialmente para esta prova).

Considerando o fragmento localizado, é possível inferir predominantemente que o autor:
  1. AConsidera terrível o presente que a avó deu para os netos.
  2. BEnxerga os jovens como preguiçosos, já que eles não saem de casa.
  3. CPercebe que os jovens não sabem como chegar ao banco.
  4. DNão concorda com pessoas que dão dinheiro como presente.
  5. EAcredita que os jovens não terão paciência para descontar o cheque no banco.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Acredita que os jovens não terão paciência para descontar o cheque no banco.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Inferência sobre a paciência dos jovens para descontar cheques

Gabarito: letra E. O autor, ao longo do texto, constrói a imagem de que os jovens, acostumados com o mundo digital, não terão paciência para descontar o cheque no banco, pois isso exigiria deslocamento físico, enfrentamento de burocracia e filas. Essa inferência é predominantemente sustentada pelas perguntas retóricas do 5º parágrafo, que destacam o incômodo e a demora do processo, e pela descrição do comportamento dos netos, que "não pisam em bancos, não perdem tempo com burocracia".

O comando da questão pede uma inferência ("é possível inferir predominantemente"), ou seja, não se trata de localizar uma informação explícita, mas de deduzir uma ideia que está nas entrelinhas, ancorada em pistas do texto. A alternativa correta deve ser uma conclusão lógica e necessária a partir dessas pistas, sem acrescentar informações externas.

O texto narra o "golpe" da avó que dá cheques de presente aos netos, sabendo que eles, por serem "totalmente digitais", não terão disposição para ir ao banco descontá-los. O autor reforça essa ideia com perguntas que evidenciam o descompasso entre a geração digital e a burocracia bancária:

"Que jovem vai se deslocar para um endereço físico, atravessar o incômodo da porta giratória de detector de metal e da revista dos guardas, suportar o lento chamado por senhas para descontar hoje um cheque no banco? Que jovem, totalmente digital, entrará numa fila para tirar o montante?"

Essas perguntas não são meramente informativas; elas pressupõem que nenhum jovem faria isso, justamente por falta de paciência e por considerar o processo um incômodo. A resposta correta (E) captura exatamente essa dedução: o autor acredita que os jovens não terão paciência para descontar o cheque.

A técnica para resolver esta questão é testar cada alternativa perguntando: "o texto autoriza esta conclusão, ou ela exige acrescentar algo de fora?". A alternativa E é a única que se sustenta inteiramente nas pistas textuais, sem extrapolar, restringir ou contradizer o que está escrito.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o autor considera o presente "terrível". O texto não diz isso. O autor descreve o presente como uma "saída criativa" da avó e menciona que os netos não receberam bem presentes anteriores (liquidificador, jogo de panelas), mas não há juízo de valor sobre o presente em si. A alternativa extrapola ao atribuir ao autor uma opinião que ele não externou.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa diz que o autor enxerga os jovens como "preguiçosos". O texto não usa essa palavra nem atribui preguiça aos netos. O que o texto diz é que eles são "totalmente digitais" e não se deslocam a bancos por estarem acostumados com a praticidade do Pix e do internet banking. A alternativa acrescenta opinião (preguiça) que não está no texto, além de restringir o motivo (não saem de casa) a um julgamento moral.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que os jovens "não sabem como chegar ao banco". O texto não menciona desconhecimento de localização ou trajeto. O que se infere é a falta de disposição ou hábito de ir ao banco, não a falta de conhecimento do caminho. A alternativa extrapola ao transformar uma questão de hábito em uma questão de capacidade.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa diz que o autor não concorda com pessoas que dão dinheiro como presente. O texto não expressa essa opinião. O autor narra a situação com tom bem-humorado e até elogia a "malandragem" da avó ("Merecia um prêmio de malandragem"). Não há nenhuma crítica a dar dinheiro como presente. A alternativa contradiz o texto e acrescenta opinião que não pertence ao autor.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa afirma que o autor acredita que os jovens não terão paciência para descontar o cheque no banco. Isso é exatamente o que se infere das perguntas retóricas do 5º parágrafo e da descrição do comportamento dos netos:

"Que jovem vai se deslocar para um endereço físico, atravessar o incômodo da porta giratória de detector de metal e da revista dos guardas, suportar o lento chamado por senhas para descontar hoje um cheque no banco?"

A palavra "incômodo", "suportar" e "lento chamado" são pistas de que o processo é visto como algo desagradável e demorado, o que leva à conclusão de que os jovens, acostumados com a agilidade digital, não teriam paciência para isso. A alternativa é uma inferência legítima, ancorada em pressupostos deixados pelo próprio texto.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a extrapolação com fatos plausíveis, mas ausentes do texto. As alternativas A, B, C e D parecem razoáveis no mundo real, mas não são sustentadas pelas palavras do autor. A correta (E) é a única que se apoia diretamente nas pistas textuais (perguntas retóricas e descrição do comportamento dos netos).

PEGA ESSA DICA!

Em questões de inferência, desconfie de alternativas que acrescentam julgamentos morais (preguiça, terrível) ou informações novas (não saber chegar ao banco). A inferência correta é sempre uma dedução necessária a partir do texto, não uma suposição baseada no senso comum.

Gabarito: letra E — a única alternativa que o texto autoriza inferir, sem extrapolar, restringir ou contradizer o que está escrito.

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