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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Instituto Consulplan 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa593524
Banca
Instituto Consulplan
Órgão
CM Caratinga
Ano
2024
Cargo
AuxSG ( )

No restaurante

 

— Quero lasanha.

 

Aquele anteprojeto de mulher — quatro anos, no máximo, desabrochando na ultraminissaia — entrou decidido no restaurante. Não precisava de menu, não precisava de mesa, não precisava de nada. Sabia perfeitamente o que queria. Queria lasanha.

 

O pai, que mal acabara de estacionar o carro em uma vaga de milagre, apareceu para dirigir a operação-jantar, que é, ou era, da competência dos senhores pais.

 

— Meu bem, venha cá.

 

— Quero lasanha.

 

— Escute aqui, querida. Primeiro, escolhe-se a mesa.

 

— Não, já escolhi. Lasanha. Que parada — lia-se na cara do pai. Relutante, a garotinha condescendeu em sentar-se primeiro, e depois encomendar o prato:

 

— Vou querer lasanha.

 

— Filhinha, por que não pedimos camarão? Você gosta tanto de camarão.

 

— Gosto, mas quero lasanha.

 

— Eu sei, eu sei que você adora camarão. A gente pede uma fritada bem bacana de camarão. Tá?

 

— Quero lasanha, papai. Não quero camarão.

 

— Vamos fazer uma coisa. Depois do camarão a gente traça uma lasanha. Que tal?

 

— Você come camarão e eu como lasanha.

 

O garçom aproximou-se, e ela foi logo instruindo:

 

— Quero uma lasanha.

 

O pai corrigiu: — Traga uma fritada de camarão pra dois. Caprichada. A coisinha amuou. Então não podia querer? Queriam querer em nome dela? Por que é proibido comer lasanha? Essas 14 interrogações também se liam no seu rosto, pois os lábios mantinham reserva. Quando o garçom voltou com os pratos e o serviço, ela atacou:

 

— Moço, tem lasanha?

 

— Perfeitamente, senhorita.

 

O pai, no contra-ataque:

 

— O senhor providenciou a fritada?

 

— Já, sim, doutor.

 

— De camarões bem grandes?

 

— Daqueles legais, doutor.

 

— Bem, então me vê um chinite, e pra ela… O que é que você quer, meu anjo?

 

— Uma lasanha.

 

— Traz um suco de laranja pra ela.

 

Com o chopinho e o suco de laranja, veio a famosa fritada de camarão, que, para surpresa do restaurante inteiro, interessado no desenrolar dos acontecimentos, não foi recusada pela senhorita. Ao contrário, papou-a, e bem. A silenciosa manducação atestava, ainda uma vez, no mundo, a vitória do mais forte.

 

— Estava uma coisa, hem? — comentou o pai, com um sorriso bem alimentado.

 

— Sábado que vem, a gente repete… Combinado?

 

— Agora a lasanha, não é, papai?

 

— Eu estou satisfeito. Uns camarões tão geniais! Mas você vai comer mesmo?

 

— Eu e você, tá?

 

— Meu amor, eu…

 

— Tem de me acompanhar, ouviu? Pede a lasanha.

 

O pai baixou a cabeça, chamou o garçom, pediu. Aí, um casal, na mesa vizinha, bateu palmas. O resto da sala acompanhou. O pai não sabia onde se meter. A garotinha, impassível. Se, na conjuntura, o poder jovem cambaleia, vem aí, com força total, o poder ultrajovem.

 

(ANDRADE, Carlos Drummond de. No restaurante: para aprender a gostar de ler; São Paulo: Ática, 2002.)

Texto

   

Ao ler o último parágrafo do texto, podemos entender que:

  1. AOs aplausos proferidos eram para zombar do pai.
  2. BOs presentes desaprovaram o descaso do pai em relação à menina.
  3. CAs pessoas no restaurante admiraram o poder de persuasão da garotinha.
  4. DAs pessoas que estavam presentes ficaram admiradas com a falta de postura do pai.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — As pessoas no restaurante admiraram o poder de persuasão da garotinha.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O aplauso final: admiração ou zombaria?

Gabarito: letra C. Ao ler o último parágrafo, entende-se que as pessoas no restaurante admiraram o poder de persuasão da garotinha — e não que zombaram do pai ou o desaprovaram. A pista decisiva está na reação do casal e da sala: eles batem palmas diante da cena em que a menina, impassível, consegue impor sua vontade ao pai. O texto não registra risos, vaias ou críticas; registra aplausos, que, no contexto, celebram a vitória da criança.

O comando pede compreensão do último parágrafo: a resposta deve ser uma paráfrase fiel do que está escrito, sem acrescentar opiniões ou deduções que o texto não autoriza. Aqui, a banca testa se o candidato percebe o tom da cena final: o narrador descreve os aplausos como reação à persistência e à capacidade de convencimento da menina, não como reprovação ao pai.

No último parágrafo, lemos:

"Aí, um casal, na mesa vizinha, bateu palmas. O resto da sala acompanhou. O pai não sabia onde se meter. A garotinha, impassível. Se, na conjuntura, o poder jovem cambaleia, vem aí, com força total, o poder ultrajovem."

A expressão "poder ultrajovem" e a descrição da menina como "impassível" (calma, firme) mostram que os aplausos são um reconhecimento da força da criança. O pai, por sua vez, "não sabia onde se meter" — sinal de constrangimento, mas não de reprovação alheia; o constrangimento é dele, diante da derrota. Aplaudir alguém que vence uma disputa é admirar sua capacidade de persuasão, não zombar dela.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Os aplausos proferidos eram para zombar do pai.

O texto não traz nenhuma pista de zombaria. Zombar seria rir, vaiar, fazer piada — nada disso aparece. Os aplausos são descritos como uma reação positiva à cena: o casal "bateu palmas" e "o resto da sala acompanhou". Aplaudir é sinal de aprovação e admiração, não de deboche. A alternativa extrapola ao atribuir uma intenção negativa que o texto não sustenta.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Os presentes desaprovaram o descaso do pai em relação à menina.

O texto não fala em "descaso" do pai. O pai, na verdade, tenta dirigir a operação-jantar e insiste no camarão, mas acaba cedendo. A reação dos presentes é de aplauso, não de desaprovação. A alternativa acrescenta uma opinião (a de que o pai foi negligente) que não está no texto. Além disso, desaprovar seria vaiar ou criticar, e o texto registra exatamente o oposto: palmas.

Alternativa C — ✅ Correta

As pessoas no restaurante admiraram o poder de persuasão da garotinha.

Esta é a leitura mais fiel ao texto. A menina, do início ao fim, insiste na lasanha e, mesmo depois de comer o camarão, cobra a lasanha do pai até que ele ceda. O narrador destaca a firmeza dela ("impassível") e a derrota do pai ("não sabia onde se meter"). Os aplausos são a reação da plateia a essa vitória. A expressão "poder ultrajovem" reforça a ideia de que a menina tem uma força de convencimento que impressiona. A alternativa é uma paráfrase correta do sentido global do parágrafo.

Alternativa D — ❌ Incorreta

As pessoas que estavam presentes ficaram admiradas com a falta de postura do pai.

O texto não menciona "falta de postura" do pai. O pai, embora perca a disputa, não é descrito como alguém sem postura; ele apenas cede à insistência da filha. A admiração dos presentes é pela menina, não pelo pai. A alternativa contradiz o texto ao inverter o foco: quem é admirada é a criança, não o pai. Além disso, "falta de postura" é um juízo de valor que o narrador não emite.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a ambiguidade dos aplausos: o candidato pode interpretá-los como zombaria ou reprovação, mas o texto os apresenta como reconhecimento da vitória da menina. Fique atento ao tom do narrador: ele descreve a cena com admiração, não com crítica.

PEGA ESSA DICA!

Ao ler o último parágrafo, pergunte-se: quem é o alvo da reação? O texto diz que o casal "bateu palmas" logo após a menina impor sua vontade — o alvo é a criança, não o pai. Aplausos = aprovação; vaias = reprovação. O texto só registra aplausos.

Gabarito: letra C.

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