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Questão de Português — Adjetivo — Instituto Consulplan 2024

PortuguêsAdjetivo
Código
qa593534
Banca
Instituto Consulplan
Órgão
CM Caratinga
Ano
2024
Cargo
ATC ( )

A mulher sozinha

 

Era magra, feia, encardida, sempre com o mesmo vestido preto e rasgado. Usava um paletó de lã xadrez, meias grossas e chinelos de feltro, velhíssimos. Ela própria parecia velhíssima, vista assim ao passar, embora de perto mostrasse, sob a sujeira e as rugas, um rosto que era apenas maduro, gasto pela miséria e talvez pelo delírio.

 

Acostumei-me a vê-la sentada, de manhã e de tarde, naquele canto, sobre o cimento cheio de poeira do átrio. Os que entravam apressados na igreja praticamente a ignoravam, e só reparavam nela depois da missa, quando saíam devagar. Tiravam então da bolsa ou do bolso uma nota, algumas moedas e, com um gesto rápido, de vaga repugnância, deixavam cair a esmola na cestinha de vime que a mulher colocara à sua frente. Ela resmungava uma espécie de bênção, em voz surda e monótona, e eles se afastavam sem olhá-la, com a alma levemente intranquila.

 

Passando diante da igreja duas vezes por dia, uma certa cumplicidade criou-se entre nós duas: a princípio nos cumprimentávamos com a cabeça, sorríamos uma para a outra; depois, quando eu tinha tempo e ela não estava agradecendo as esmolas, conversávamos. Contou-me de maneira sucinta que vivia no outro extremo da cidade, sob as colunas de um átrio em San Isidro: fazia uma longa caminhada, cedinho, até a estação, para tomar o trem, e outra até o lugar onde nos encontrávamos. Não me explicou por que escolhera um bairro tão distante para mendigar, em vez de fazê-lo no próprio pátio onde dormia, e nada lhe perguntei a respeito, receando ferir-lhe a intimidade ou introduzir-me em seu segredo. Nunca me confessou como se chamava.

 

Há uns dois meses encontrei-a radiante, com um pequeno vulto escuro entre os braços. Pensei de início que carregava um bebê, envolto num cobertor manchado, mas percebi, ao aproximar-me, que se tratava de um cachorrinho. Ou melhor, de uma cachorrinha recém-nascida, Maria Isabel, que a mulher ninava e acarinhava com deslumbramento. Disse-me que a recolhera na véspera de uma lata de lixo e a batizara logo. Da sacola de palha que sempre trazia consigo retirou uma garrafa d'água e uma colherinha e, com infinita delicadeza, foi entornando algumas gotas na goela da bichinha, que gania baixo, ainda de olhos fechados.

 

Levei-lhe uma mamadeira de boneca e outra sacola acolchoada, que serviria de berço para o animal. O jornaleiro da banca em frente trouxe leite e pedacinhos de pão; as senhoras da vizinhança deram-lhe uma colcha de criança e retalhos de flanela.

 

Maria Isabel começou a crescer, a criar pelos e forma, a pular, cheia de graça. A mulher não desgrudava os olhos dela e, remoçada pela alegria e atenção que a cachorrinha ofertava e exigia, deu até para cantar uma toada confusa e antiga. Era bom vê-las juntas, íntimas, companheiras, mãe e filha. Chegavam sobras de comida, brinquedos velhos de borracha; até um osso de couro apareceu por ali. O canto do átrio ficou menos cinzento, mais bonito. As pessoas se detinham, antes de entrar na igreja, para brincar com o animalzinho preto ou para jogar-lhe um punhadinho de carne moída, um resto do bife do almoço. O sentimento de repulsa que a sua dona provocara foi substituído por outro, feito de emoção, prazer e aconchego. A cestinha de vime estava sempre com dinheiro, e a mulher, suja e despenteada como sempre, adquirira um jeito novo, diferente, mais humano. Ao seu lado, Maria Isabel pulava e perseguia o próprio rabo.

 

As duas não apareceram na última semana. Estranhei e fui atrás do jornaleiro, que também se mostrou surpreendido: desde que se instalara ali, há mais de três anos, a mulher nunca deixara de vir, nunca se atrasara, nem sequer quando chovia. E parece que fora assim desde o primeiro dia, embora ninguém soubesse dizer com exatidão quando é que ela começara a se sentar naquele canto do pátio. Senti apreensão e uma estranha nostalgia: o átrio estava maior, mais escuro e impessoal.

 

Até que ontem o jornaleiro, compungido, contou-me uma das histórias mais tristes que já ouvi. Maria Isabel se transformara numa vira-lata peluda, encantadora, de focinho redondo e olhos de açúcar. Tão linda, que um malvado achou de roubá-la. Foi na estação, quando a mulher soltou-a no chão, para ir comprar o sanduíche de pão francês que costumavam dividir. Um segundo, e o bichinho sumiu, sem latir. Alguém viu um rapaz de tênis sair correndo com o animal nos braços. A mulher passou a noite atrás da cadela, de um lado para o outro da estação, chorando, gemendo, chamando-a por nomes doces e implorantes. Depois sentou-se num banco e ali ficou imóvel, em silêncio, até o dia clarear. Quando o primeiro trem vinha entrando, ela, de um bote, atirou-se debaixo da locomotiva. A velocidade era pequena e o maquinista conseguiu frear. A mulher arranhou-se um pouco, feriu ligeiramente a testa, e ficou mais desgrenhada, com o rosto imundo de lágrimas e fuligem. Não tinha nenhum documento e negou-se terminantemente a comentar o sucedido ou a defender-se diante dos que a acusavam de irresponsável e perigosa. A polícia levou-a no camburão para a delegacia.

 

Segundo a última notícia, ainda não confirmada, a mulher está num hospício do subúrbio.

 

(Coleção Melhores Crônicas: Maria Julieta Drummond de Andrade. Seleção e prefácio de Marcos Pasche, Global, 2012, pp. 82-84. Publicada no livro O valor da vida, 1982.)

Texto

   

Abaixo, dispõem-se reproduções de trechos do texto em que estão sublinhados vocábulos flexionados em grau. A alternativa que demonstra sublinhado um exemplo de termo flexionado em sua forma superlativa se dá em:

  1. AA cestinha de vime estava sempre com dinheiro, [...]” (6º§).
  2. B“[...] percebi, ao aproximar-me, que se tratava de um cachorrinho.” (4º§).
  3. CO jornaleiro da banca em frente trouxe leite e pedacinhos de pão [...]” (5º§).
  4. DUsava um paletó de lã xadrez, meias grossas e chinelos de feltro, velhíssimos.” (1º§).
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — “Usava um paletó de lã xadrez, meias grossas e chinelos de feltro, velhíssimos.” (1º§).

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Grau do adjetivo: identificando o superlativo absoluto sintético

Gabarito: letra D. A única alternativa que traz um termo flexionado em grau superlativo é a D, com o adjetivo “velhíssimos” — forma sintética do superlativo absoluto de “velho” (velho → velhíssimo). As demais alternativas apresentam apenas o grau diminutivo (A, B e C), que é uma flexão de grau do substantivo, não do adjetivo, e não expressa superlatividade. A passagem que ancora a resposta está no 1º§: “chinelos de feltro, velhíssimos”.

O comando da questão

O enunciado pede que você identifique, entre os trechos sublinhados, aquele em que o vocábulo flexionado está na forma superlativa. Isso é uma questão de morfologia — mais especificamente, de flexão de grau — aplicada ao texto. Não se trata de interpretação ou inferência: a resposta está na forma da palavra e no valor semântico que ela carrega. O comando é direto: “demonstra sublinhado um exemplo de termo flexionado em sua forma superlativa”.

O que é grau superlativo?

O grau é uma flexão que pode atingir substantivos e adjetivos. No caso dos adjetivos, o grau pode ser:

  • Comparativo: compara dois seres ou duas qualidades (ex.: “mais velho que”, “tão velho quanto”).

  • Superlativo: eleva a qualidade ao grau máximo, em relação a um conjunto (superlativo relativo — “o mais velho de todos”) ou de forma absoluta (superlativo absoluto — “velhíssimo”, “muito velho”).

O superlativo absoluto pode ser formado de duas maneiras:

  • Analítico: com o advérbio “muito” + adjetivo (ex.: “muito velho”).

  • Sintético: com o sufixo -íssimo (ex.: “velhíssimo”, “altíssimo”, “belíssimo”).

A forma “velhíssimos” é exatamente o superlativo absoluto sintético de “velho”: o radical “velh-” + sufixo “-íssimo” + desinência de plural “-s”. É uma forma flexionada em grau do adjetivo, e é isso que a questão pede.

A pegadinha da banca

A banca não testa apenas o reconhecimento do superlativo; ela testa também a distinção entre grau do adjetivo e grau do substantivo. As alternativas A, B e C trazem diminutivos — “cestinha”, “cachorrinho”, “pedacinhos” — que são flexões de grau do substantivo, não do adjetivo. O diminutivo indica tamanho reduzido ou afetividade, mas não expressa superlatividade. Portanto, essas alternativas são distratoras que confundem o candidato que não domina a diferença entre as classes.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre grau do adjetivo e grau do substantivo: as alternativas A, B e C trazem diminutivos (cestinha, cachorrinho, pedacinhos), que são flexão de grau do SUBSTANTIVO, não do adjetivo, e não expressam superlatividade.

Análise das alternativas

Grau do adjetivo
  • 1Comparativo
    • mais velho que
    • tão velho quanto
  • 2Superlativo
    • Relativo (o mais velho de todos)
    • Absoluto
      • Analítico (muito velho)
      • Sintético (velhíssimo)
  • 3Grau do substantivo
    • Diminutivo (cestinha, cachorrinho, pedacinhos)
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Alternativa A — ❌ Incorreta

“A cestinha de vime estava sempre com dinheiro, [...]” (6º§).

O termo sublinhado é “cestinha”, um substantivo no grau diminutivo. O sufixo “-inha” indica tamanho reduzido ou afetividade, mas não é flexão de grau do adjetivo e não expressa superlatividade. Portanto, a alternativa está incorreta.

Alternativa B — ❌ Incorreta

“[...] percebi, ao aproximar-me, que se tratava de um cachorrinho.” (4º§).

O termo sublinhado é “cachorrinho”, um substantivo no grau diminutivo. O sufixo “-inho” indica tamanho reduzido ou afetividade, mas não é flexão de grau do adjetivo e não expressa superlatividade. Portanto, a alternativa está incorreta.

Alternativa C — ❌ Incorreta

“O jornaleiro da banca em frente trouxe leite e pedacinhos de pão [...]” (5º§).

O termo sublinhado é “pedacinhos”, um substantivo no grau diminutivo. O sufixo “-inho” indica tamanho reduzido ou afetividade, mas não é flexão de grau do adjetivo e não expressa superlatividade. Portanto, a alternativa está incorreta.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

“Usava um paletó de lã xadrez, meias grossas e chinelos de feltro, velhíssimos.” (1º§).

O termo sublinhado é “velhíssimos”, um adjetivo no grau superlativo absoluto sintético. A forma é composta pelo radical “velh-” + sufixo “-íssimo” + desinência de plural “-s”. Expressa a qualidade “velho” em grau máximo, de forma absoluta. Portanto, a alternativa está correta.

Conclusão

A questão exige o reconhecimento do superlativo absoluto sintético do adjetivo. A única alternativa que apresenta essa forma é a D, com “velhíssimos”. As demais trazem diminutivos de substantivos, que não são superlativos. Gabarito: letra D.

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