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Questão de Português — Termos Integrantes (Objeto Direto e Indireto, Complemento Nominal e Agente da Passiva) — Instituto Consulplan 2024

PortuguêsTermos Integrantes (Objeto Direto e Indireto, Complemento Nominal e Agente da Passiva)
Código
qa593536
Banca
Instituto Consulplan
Órgão
CM Caratinga
Ano
2024
Cargo
ATC ( )

A mulher sozinha

 

Era magra, feia, encardida, sempre com o mesmo vestido preto e rasgado. Usava um paletó de lã xadrez, meias grossas e chinelos de feltro, velhíssimos. Ela própria parecia velhíssima, vista assim ao passar, embora de perto mostrasse, sob a sujeira e as rugas, um rosto que era apenas maduro, gasto pela miséria e talvez pelo delírio.

 

Acostumei-me a vê-la sentada, de manhã e de tarde, naquele canto, sobre o cimento cheio de poeira do átrio. Os que entravam apressados na igreja praticamente a ignoravam, e só reparavam nela depois da missa, quando saíam devagar. Tiravam então da bolsa ou do bolso uma nota, algumas moedas e, com um gesto rápido, de vaga repugnância, deixavam cair a esmola na cestinha de vime que a mulher colocara à sua frente. Ela resmungava uma espécie de bênção, em voz surda e monótona, e eles se afastavam sem olhá-la, com a alma levemente intranquila.

 

Passando diante da igreja duas vezes por dia, uma certa cumplicidade criou-se entre nós duas: a princípio nos cumprimentávamos com a cabeça, sorríamos uma para a outra; depois, quando eu tinha tempo e ela não estava agradecendo as esmolas, conversávamos. Contou-me de maneira sucinta que vivia no outro extremo da cidade, sob as colunas de um átrio em San Isidro: fazia uma longa caminhada, cedinho, até a estação, para tomar o trem, e outra até o lugar onde nos encontrávamos. Não me explicou por que escolhera um bairro tão distante para mendigar, em vez de fazê-lo no próprio pátio onde dormia, e nada lhe perguntei a respeito, receando ferir-lhe a intimidade ou introduzir-me em seu segredo. Nunca me confessou como se chamava.

 

Há uns dois meses encontrei-a radiante, com um pequeno vulto escuro entre os braços. Pensei de início que carregava um bebê, envolto num cobertor manchado, mas percebi, ao aproximar-me, que se tratava de um cachorrinho. Ou melhor, de uma cachorrinha recém-nascida, Maria Isabel, que a mulher ninava e acarinhava com deslumbramento. Disse-me que a recolhera na véspera de uma lata de lixo e a batizara logo. Da sacola de palha que sempre trazia consigo retirou uma garrafa d'água e uma colherinha e, com infinita delicadeza, foi entornando algumas gotas na goela da bichinha, que gania baixo, ainda de olhos fechados.

 

Levei-lhe uma mamadeira de boneca e outra sacola acolchoada, que serviria de berço para o animal. O jornaleiro da banca em frente trouxe leite e pedacinhos de pão; as senhoras da vizinhança deram-lhe uma colcha de criança e retalhos de flanela.

 

Maria Isabel começou a crescer, a criar pelos e forma, a pular, cheia de graça. A mulher não desgrudava os olhos dela e, remoçada pela alegria e atenção que a cachorrinha ofertava e exigia, deu até para cantar uma toada confusa e antiga. Era bom vê-las juntas, íntimas, companheiras, mãe e filha. Chegavam sobras de comida, brinquedos velhos de borracha; até um osso de couro apareceu por ali. O canto do átrio ficou menos cinzento, mais bonito. As pessoas se detinham, antes de entrar na igreja, para brincar com o animalzinho preto ou para jogar-lhe um punhadinho de carne moída, um resto do bife do almoço. O sentimento de repulsa que a sua dona provocara foi substituído por outro, feito de emoção, prazer e aconchego. A cestinha de vime estava sempre com dinheiro, e a mulher, suja e despenteada como sempre, adquirira um jeito novo, diferente, mais humano. Ao seu lado, Maria Isabel pulava e perseguia o próprio rabo.

 

As duas não apareceram na última semana. Estranhei e fui atrás do jornaleiro, que também se mostrou surpreendido: desde que se instalara ali, há mais de três anos, a mulher nunca deixara de vir, nunca se atrasara, nem sequer quando chovia. E parece que fora assim desde o primeiro dia, embora ninguém soubesse dizer com exatidão quando é que ela começara a se sentar naquele canto do pátio. Senti apreensão e uma estranha nostalgia: o átrio estava maior, mais escuro e impessoal.

 

Até que ontem o jornaleiro, compungido, contou-me uma das histórias mais tristes que já ouvi. Maria Isabel se transformara numa vira-lata peluda, encantadora, de focinho redondo e olhos de açúcar. Tão linda, que um malvado achou de roubá-la. Foi na estação, quando a mulher soltou-a no chão, para ir comprar o sanduíche de pão francês que costumavam dividir. Um segundo, e o bichinho sumiu, sem latir. Alguém viu um rapaz de tênis sair correndo com o animal nos braços. A mulher passou a noite atrás da cadela, de um lado para o outro da estação, chorando, gemendo, chamando-a por nomes doces e implorantes. Depois sentou-se num banco e ali ficou imóvel, em silêncio, até o dia clarear. Quando o primeiro trem vinha entrando, ela, de um bote, atirou-se debaixo da locomotiva. A velocidade era pequena e o maquinista conseguiu frear. A mulher arranhou-se um pouco, feriu ligeiramente a testa, e ficou mais desgrenhada, com o rosto imundo de lágrimas e fuligem. Não tinha nenhum documento e negou-se terminantemente a comentar o sucedido ou a defender-se diante dos que a acusavam de irresponsável e perigosa. A polícia levou-a no camburão para a delegacia.

 

Segundo a última notícia, ainda não confirmada, a mulher está num hospício do subúrbio.

 

(Coleção Melhores Crônicas: Maria Julieta Drummond de Andrade. Seleção e prefácio de Marcos Pasche, Global, 2012, pp. 82-84. Publicada no livro O valor da vida, 1982.)

Texto

   

Assinale a alternativa em que, dado o contexto em que se insere, tem-se sublinhado um verbo bitransitivo.

  1. ANão tinha nenhum documento [...]” (8º§).
  2. BTiravam então da bolsa ou do bolso uma nota, algumas moedas [...]” (2º§).
  3. CEla resmungava uma espécie de bênção, em voz surda e monótona, [...]” (2º§).
  4. DUsava um paletó de lã xadrez, meias grossas e chinelos de feltro, velhíssimos.” (1º§).
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — “Tiravam então da bolsa ou do bolso uma nota, algumas moedas [...]” (2º§).

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Verbo bitransitivo: como identificar o objeto direto e o indireto no texto

Gabarito: letra B. O verbo "Tiravam" é bitransitivo (transitivo direto e indireto) porque exige dois complementos: um objeto direto ("uma nota, algumas moedas") e um objeto indireto ("da bolsa ou do bolso"). A passagem que prova é: "Tiravam então da bolsa ou do bolso uma nota, algumas moedas". As demais alternativas apresentam verbos com apenas um complemento (transitivo direto) ou sem complemento (intransitivo).

O comando da questão

O enunciado pede para identificar, no contexto do texto, a alternativa em que o verbo sublinhado é bitransitivo. Isso significa que você precisa analisar a transitividade verbal de cada verbo destacado, ou seja, verificar se ele exige dois complementos: um objeto direto (sem preposição) e um objeto indireto (com preposição). Não se trata de interpretação de sentido, mas de análise sintática aplicada ao trecho.

O que é um verbo bitransitivo?

Um verbo é bitransitivo (ou transitivo direto e indireto) quando pede dois complementos para ter sentido completo:

  • Objeto direto (OD): complemento sem preposição obrigatória.

  • Objeto indireto (OI): complemento com preposição obrigatória.

Exemplo: "Entreguei o documento (OD) ao juiz (OI)."

O verbo "entregar" exige o quê? (OD) e a quem? (OI).

A técnica para resolver

Para cada verbo sublinhado, pergunte:

  1. Quem pratica a ação? (sujeito)

  2. O quê? (objeto direto, sem preposição)

  3. De onde? / Para quem? / De quem? (objeto indireto, com preposição)

Se o verbo responder a duas dessas perguntas (além do sujeito), ele é bitransitivo. Se responder a apenas uma, é transitivo direto ou indireto. Se não responder a nenhuma, é intransitivo.

Análise das alternativas

Verbo bitransitivo
  • 1Exige 2 complementos
    • Objeto direto (sem preposição)
    • Objeto indireto (com preposição)
  • 2Como identificar
    • Perguntar "o quê?" → OD
    • Perguntar "de onde?/para quem?" → OI
  • 3Cuidado
    • Adjunto adverbial ≠ objeto indireto
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Alternativa A — ❌ Incorreta

"Não tinha nenhum documento [...]" (8º§).

O verbo "tinha" (ter) é transitivo direto, pois exige apenas um complemento sem preposição: "nenhum documento" (objeto direto). Não há objeto indireto. A alternativa restringe o alcance do verbo, apresentando-o como bitransitivo quando ele é apenas transitivo direto.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Tiravam então da bolsa ou do bolso uma nota, algumas moedas [...]" (2º§).

O verbo "tiravam" (tirar) é bitransitivo, pois exige dois complementos:

  • Objeto direto: "uma nota, algumas moedas" (sem preposição).

  • Objeto indireto: "da bolsa ou do bolso" (com preposição "de").

A pergunta "tiravam o quê?" responde "uma nota, algumas moedas"; a pergunta "de onde?" responde "da bolsa ou do bolso". Portanto, é o único verbo com dois complementos.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Ela resmungava uma espécie de bênção, em voz surda e monótona, [...]" (2º§).

O verbo "resmungava" (resmungar) é transitivo direto, pois exige apenas um complemento sem preposição: "uma espécie de bênção" (objeto direto). A expressão "em voz surda e monótona" é adjunto adverbial de modo, não objeto indireto. A alternativa confunde adjunto adverbial com objeto indireto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Usava um paletó de lã xadrez, meias grossas e chinelos de feltro, velhíssimos." (1º§).

O verbo "usava" (usar) é transitivo direto, pois exige apenas um complemento sem preposição: "um paletó de lã xadrez, meias grossas e chinelos de feltro" (objeto direto). Não há objeto indireto. A alternativa generaliza o verbo, apresentando-o como bitransitivo quando ele é apenas transitivo direto.

Conclusão

A única alternativa em que o verbo sublinhado é bitransitivo é a letra B, pois "tiravam" exige dois complementos: objeto direto ("uma nota, algumas moedas") e objeto indireto ("da bolsa ou do bolso"). As demais apresentam verbos transitivos diretos com apenas um complemento.

PEGA ESSA DICA!

Para identificar um verbo bitransitivo, faça as perguntas "o quê?" e "de onde?/para quem?/de quem?" após o verbo. Se houver duas respostas, é bitransitivo. Cuidado com adjuntos adverbiais que parecem objetos indiretos, como "em voz surda" na alternativa C.

Gabarito: letra B

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