Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Acentuação — Instituto Consulplan 2024

PortuguêsAcentuação
Código
qa593543
Banca
Instituto Consulplan
Órgão
CM Caratinga
Ano
2024
Cargo
ATC ( )

A mulher sozinha

 

Era magra, feia, encardida, sempre com o mesmo vestido preto e rasgado. Usava um paletó de lã xadrez, meias grossas e chinelos de feltro, velhíssimos. Ela própria parecia velhíssima, vista assim ao passar, embora de perto mostrasse, sob a sujeira e as rugas, um rosto que era apenas maduro, gasto pela miséria e talvez pelo delírio.

 

Acostumei-me a vê-la sentada, de manhã e de tarde, naquele canto, sobre o cimento cheio de poeira do átrio. Os que entravam apressados na igreja praticamente a ignoravam, e só reparavam nela depois da missa, quando saíam devagar. Tiravam então da bolsa ou do bolso uma nota, algumas moedas e, com um gesto rápido, de vaga repugnância, deixavam cair a esmola na cestinha de vime que a mulher colocara à sua frente. Ela resmungava uma espécie de bênção, em voz surda e monótona, e eles se afastavam sem olhá-la, com a alma levemente intranquila.

 

Passando diante da igreja duas vezes por dia, uma certa cumplicidade criou-se entre nós duas: a princípio nos cumprimentávamos com a cabeça, sorríamos uma para a outra; depois, quando eu tinha tempo e ela não estava agradecendo as esmolas, conversávamos. Contou-me de maneira sucinta que vivia no outro extremo da cidade, sob as colunas de um átrio em San Isidro: fazia uma longa caminhada, cedinho, até a estação, para tomar o trem, e outra até o lugar onde nos encontrávamos. Não me explicou por que escolhera um bairro tão distante para mendigar, em vez de fazê-lo no próprio pátio onde dormia, e nada lhe perguntei a respeito, receando ferir-lhe a intimidade ou introduzir-me em seu segredo. Nunca me confessou como se chamava.

 

Há uns dois meses encontrei-a radiante, com um pequeno vulto escuro entre os braços. Pensei de início que carregava um bebê, envolto num cobertor manchado, mas percebi, ao aproximar-me, que se tratava de um cachorrinho. Ou melhor, de uma cachorrinha recém-nascida, Maria Isabel, que a mulher ninava e acarinhava com deslumbramento. Disse-me que a recolhera na véspera de uma lata de lixo e a batizara logo. Da sacola de palha que sempre trazia consigo retirou uma garrafa d'água e uma colherinha e, com infinita delicadeza, foi entornando algumas gotas na goela da bichinha, que gania baixo, ainda de olhos fechados.

 

Levei-lhe uma mamadeira de boneca e outra sacola acolchoada, que serviria de berço para o animal. O jornaleiro da banca em frente trouxe leite e pedacinhos de pão; as senhoras da vizinhança deram-lhe uma colcha de criança e retalhos de flanela.

 

Maria Isabel começou a crescer, a criar pelos e forma, a pular, cheia de graça. A mulher não desgrudava os olhos dela e, remoçada pela alegria e atenção que a cachorrinha ofertava e exigia, deu até para cantar uma toada confusa e antiga. Era bom vê-las juntas, íntimas, companheiras, mãe e filha. Chegavam sobras de comida, brinquedos velhos de borracha; até um osso de couro apareceu por ali. O canto do átrio ficou menos cinzento, mais bonito. As pessoas se detinham, antes de entrar na igreja, para brincar com o animalzinho preto ou para jogar-lhe um punhadinho de carne moída, um resto do bife do almoço. O sentimento de repulsa que a sua dona provocara foi substituído por outro, feito de emoção, prazer e aconchego. A cestinha de vime estava sempre com dinheiro, e a mulher, suja e despenteada como sempre, adquirira um jeito novo, diferente, mais humano. Ao seu lado, Maria Isabel pulava e perseguia o próprio rabo.

 

As duas não apareceram na última semana. Estranhei e fui atrás do jornaleiro, que também se mostrou surpreendido: desde que se instalara ali, há mais de três anos, a mulher nunca deixara de vir, nunca se atrasara, nem sequer quando chovia. E parece que fora assim desde o primeiro dia, embora ninguém soubesse dizer com exatidão quando é que ela começara a se sentar naquele canto do pátio. Senti apreensão e uma estranha nostalgia: o átrio estava maior, mais escuro e impessoal.

 

Até que ontem o jornaleiro, compungido, contou-me uma das histórias mais tristes que já ouvi. Maria Isabel se transformara numa vira-lata peluda, encantadora, de focinho redondo e olhos de açúcar. Tão linda, que um malvado achou de roubá-la. Foi na estação, quando a mulher soltou-a no chão, para ir comprar o sanduíche de pão francês que costumavam dividir. Um segundo, e o bichinho sumiu, sem latir. Alguém viu um rapaz de tênis sair correndo com o animal nos braços. A mulher passou a noite atrás da cadela, de um lado para o outro da estação, chorando, gemendo, chamando-a por nomes doces e implorantes. Depois sentou-se num banco e ali ficou imóvel, em silêncio, até o dia clarear. Quando o primeiro trem vinha entrando, ela, de um bote, atirou-se debaixo da locomotiva. A velocidade era pequena e o maquinista conseguiu frear. A mulher arranhou-se um pouco, feriu ligeiramente a testa, e ficou mais desgrenhada, com o rosto imundo de lágrimas e fuligem. Não tinha nenhum documento e negou-se terminantemente a comentar o sucedido ou a defender-se diante dos que a acusavam de irresponsável e perigosa. A polícia levou-a no camburão para a delegacia.

 

Segundo a última notícia, ainda não confirmada, a mulher está num hospício do subúrbio.

 

(Coleção Melhores Crônicas: Maria Julieta Drummond de Andrade. Seleção e prefácio de Marcos Pasche, Global, 2012, pp. 82-84. Publicada no livro O valor da vida, 1982.)

Texto

   

Considere o termo sublinhado no trecho “[...] um rosto que era apenas maduro, gasto pela miséria e talvez pelo delírio.” (1º§). É correto afirmar que sua acentuação se deu pela mesma razão que a acentuação do termo sublinhado em:

  1. ADepois sentou-se num banco e ali ficou imóvel, em silêncio, até o dia clarear.” (8º§).
  2. BO sentimento de repulsa que a sua dona provocara foi substituído por outro, [...]” (6º§).
  3. C“[...] desde que se instalara ali, há mais de três anos, a mulher nunca deixara de vir, [...]” (7º§).
  4. DSegundo a última notícia, ainda não confirmada, a mulher está num hospício do subúrbio.” (9º§).
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — “Segundo a última notícia, ainda não confirmada, a mulher está num hospício do subúrbio.” (9º§).

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Acentuação de "delírio": paroxítona terminada em ditongo

Gabarito: letra D. A palavra "delírio" é acentuada por ser paroxítona terminada em ditongo (a sílaba tônica é "lí", e a palavra termina em "io", que forma um ditongo crescente). A alternativa D apresenta "hospício", que segue exatamente a mesma regra: paroxítona terminada em ditongo ("cio"). As demais alternativas trazem palavras com outras justificativas de acentuação, como veremos.

O comando da questão

A questão pede que você identifique a mesma razão de acentuação entre a palavra sublinhada no trecho do 1º§ — "delírio" — e uma das palavras sublinhadas nas alternativas. Isso exige, primeiro, classificar a palavra quanto à posição da sílaba tônica (oxítona, paroxítona ou proparoxítona) e, depois, aplicar a regra específica que justifica o acento gráfico.

A regra que decide a questão

Paroxítonas são palavras cuja sílaba tônica é a penúltima. A regra geral: acentuam-se todas as paroxítonas, exceto as terminadas em -a(s), -e(s), -o(s), -em(s). Porém, há uma sub-regra importantíssima: acentuam-se as paroxítonas terminadas em ditongo (crescente ou decrescente).

"[...] um rosto que era apenas maduro, gasto pela miséria e talvez pelo delírio." (1º§)

A palavra "delírio" é paroxítona: a sílaba tônica é "lí" (de-lí-rio). Ela termina em "io", que é um ditongo crescente (i + o). Portanto, o acento é justificado pela regra das paroxítonas terminadas em ditongo.

Análise das alternativas

Acentuação de "delírio"
  • 1Paroxítona terminada em ditongo
    • "hospício" (mesma regra)
    • "imóvel" (paroxítona em -l)
    • "substituído" (hiato)
    • "há" (monossílabo tônico)
LEVEL · soulevel.com.br

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Depois sentou-se num banco e ali ficou imóvel, em silêncio, até o dia clarear." (8º§)

"Imóvel" é paroxítona terminada em -l (i-mó-vel). A regra que a acentua é a geral das paroxítonas (todas, exceto as terminadas em -a, -e, -o, -em). Não se trata de ditongo. Portanto, a razão é diferente da de "delírio".

Alternativa B — ❌ Incorreta

"O sentimento de repulsa que a sua dona provocara foi substituído por outro, [...]" (6º§)

"Substituído" é acentuada pela regra do hiato: o "i" tônico fica sozinho na sílaba (subs-ti-tu-í-do), formando hiato com a vogal anterior. Essa é uma regra distinta da das paroxítonas terminadas em ditongo.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"[...] desde que se instalara ali, mais de três anos, a mulher nunca deixara de vir, [...]" (7º§)

"Há" é um monossílabo tônico terminado em -a, acentuado por essa regra específica. Não é paroxítona, portanto a razão é completamente diferente.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Segundo a última notícia, ainda não confirmada, a mulher está num hospício do subúrbio." (9º§)

"Hospício" é paroxítona: a sílaba tônica é "pí" (hos-pí-cio). Termina em "io", que é um ditongo crescente — exatamente como "delírio". Portanto, a acentuação se dá pela mesma razão: paroxítona terminada em ditongo.

Conclusão

A questão testa a aplicação da regra das paroxítonas terminadas em ditongo. A palavra "delírio" e "hospício" compartilham essa característica. As demais alternativas apresentam palavras com outras justificativas: "imóvel" (paroxítona terminada em -l), "substituído" (hiato) e "há" (monossílabo tônico).

PEGA ESSA DICA!

Ao resolver questões de acentuação, sempre classifique a palavra quanto à tonicidade (oxítona, paroxítona, proparoxítona) antes de aplicar a regra. Isso evita confusões entre regras semelhantes.

Gabarito: letra D

Link permanente: /questoes/qa593543