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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FUNDATEC 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa594469
Banca
FUNDATEC
Órgão
ALERS
Ano
2024
Cargo
Ana Leg ( )

Existem mais vendavais previstos no nosso horizonte

 

Por Cláudia Tajes

 

No longínquo século VI, na Grécia Antiga, o filósofo Tales de Mileto esfregou um toco de âmbar em uma pele de carneiro e observou que pequenos pedaços de palha eram atraídos para ele.

 

Âmbar, a resina fóssil que deu origem a pingentes, cinzeiros e outros objetos artesanais ao longo dos séculos, notadamente nos nossos anos de bicho grilo. Perdão pela simplificação.

 

Se o rapaz do experimento acima se chamasse Tajes de Mileto, não teria se dedicado à Filosofia – de certo seria um escriba sem maior importância na sociedade da época – e esqueceria o assunto. É muito provável que sequer tivesse esfregado o âmbar na pele de carneiro, a estirpe dos Tajes, até onde eu sei, não se debruçou sobre os mistérios do mundo.

 

Só que o Tales era xarope e foi estudar o que havia acontecido. Primeiro pensou que tinha a ver com magnetismo, só que não. Ele havia descoberto a eletricidade estática.

 

Se mais não digo é porque não entendo. Sempre fui um fracasso em Física.

 

A roda do tempo gira e, no século 18, Benjamin Franklin pendura a famosa chave na pipa e vai empinar papagaio na tempestade. Olha a ideia do Benjamin. A coisa vai indo até que esses experimentos e mais todos os que se seguiram – nomes como Galvani, Faraday, Humpry Davy e Thomas Edison devem ser familiares para quem não foi uma nulidade em Física – acabam levando ao maravilhoso advento da eletricidade.

 

Eu-re-ka. Quer dizer, eureka é coisa do Arquimedes, que descobriu no banho o princípio do empuxo. Novamente, melhor consultar a Barsa que confiar nas minhas explicações. Conta-se que Arquimedes ficou tão entusiasmado com sua descoberta que levantou da tina e saiu correndo nu pelas ruas de Siracusa, inaugurando também os preceitos do que viria a ser a saudosa Pedalada Pelada que um dia singrou Porto Alegre.

 

O que esses mestres todos não imaginariam é que nossa iluminada cidade de outros Carnavais chegaria ao ano de 2024 numa situação peculiar. E isso, meus amigos, significa que o tempo das luzes já era. Das luzes, da água, da internet e de todas as facilidades que a eletricidade trouxe para a humanidade.

 

O evento South Summit ficou no escuro bem quando os participantes discutiam inovação, desenvolvimento y otras cositas que necessitam de energia para acontecer. Falando em inovação: já pensou o caos se Porto Alegre resolvesse investir pesado nos carros elétricos? No dia do aniversário da cidade, o Mercado Público estava às escuras. Carnes, queijos e peixes da Semana Santa virando prejuízo nas geladeiras desligadas.

 

Pobre Tales de Mileto. Soubesse que seu pioneirismo ia dar nisso, melhor ter se deitado na pele de carneiro e esculpido um coração no âmbar. Sem fazer a alarmista, prepara. Existem mais vendavais previstos no nosso horizonte.

 

Quem vai gostar são os fabricantes de velas.

 

(Disponível em: gauchazh.clicrbs.com.br/donna/colunistas/claudia-tajes/noticia/2024/03/existem-mais- vendavais-previstos-no-nosso-horizonte – texto adaptado especialmente para esta prova).

Assinale a alternativa que indica a correta motivação para o emprego da expressão “situação peculiar”.
  1. AXingar os responsáveis pela situação em que se encontra a cidade.
  2. BQualificar positivamente a situação em que se encontra a cidade.
  3. CCausar dúvidas em relação à situação em que se encontra a cidade.
  4. DIronizar a situação em que se encontra a cidade.
  5. EAlegrar-se com a situação em que se encontra a cidade.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — Ironizar a situação em que se encontra a cidade.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Ironia na expressão “situação peculiar” — Gabarito: letra D.

A alternativa D é a correta porque a expressão “situação peculiar” é empregada com ironia: a autora descreve uma situação claramente negativa (apagões, prejuízos, caos) usando um termo que, em sentido literal, significaria algo “especial” ou “incomum”, mas que aqui carrega um tom de crítica sarcástica. O texto deixa isso explícito ao narrar os apagões em Porto Alegre e concluir com a frase “Existem mais vendavais previstos no nosso horizonte”, revelando que a “peculiaridade” é, na verdade, um problema grave.

O comando: o que a banca pede

A questão pede a motivação do emprego da expressão “situação peculiar”. Isso não é uma pergunta de gramática, mas de compreensão do efeito de sentido que a autora quis produzir. Não se trata de localizar uma informação literal, mas de perceber o tom com que a expressão é usada. A banca quer que você identifique a figura de linguagem (ironia) que justifica a escolha da palavra “peculiar”.

O texto: o contexto que decide

A autora narra a descoberta da eletricidade e, em seguida, descreve a situação de Porto Alegre em 2024: o South Summit no escuro, o Mercado Público às escuras, carnes e queijos estragando. Veja o trecho decisivo:

“O evento South Summit ficou no escuro bem quando os participantes discutiam inovação, desenvolvimento y otras cositas que necessitam de energia para acontecer.”

E logo depois:

“Pobre Tales de Mileto. Soubesse que seu pioneirismo ia dar nisso, melhor ter se deitado na pele de carneiro e esculpido um coração no âmbar. Sem fazer a alarmista, prepara. Existem mais vendavais previstos no nosso horizonte.”

A expressão “situação peculiar” aparece no parágrafo:

“O que esses mestres todos não imaginariam é que nossa iluminada cidade de outros Carnavais chegaria ao ano de 2024 numa situação peculiar.”

A ironia está em chamar de “peculiar” (que sugere algo especial, digno de nota) uma situação que é, na verdade, um retrocesso: a cidade que foi “iluminada” agora fica no escuro. O contraste entre o que a palavra “peculiar” normalmente evoca e o que o texto descreve é a chave para a resposta.

A técnica: como reconhecer a ironia

Ironia é a figura de pensamento em que se diz o contrário do que se quer significar, geralmente com intenção crítica ou humorística. Para identificá-la, pergunte: o sentido literal da palavra é compatível com o contexto? Se não, há ironia. Aqui, “peculiar” significa “particular, próprio, incomum”, mas o contexto é de caos e prejuízo — não há nada de “especial” no bom sentido. A autora usa o termo para ridicularizar a situação, como se dissesse: “que situação especial!” com sarcasmo.

Análise das alternativas

Ironia
  • 1Diz o contrário do que quer significar
  • 2Intenção crítica ou humorística
  • 3Como reconhecer
    • Sentido literal é incompatível com o contexto
    • Palavra positiva em contexto negativo
  • 4Efeito
    • Ridiculariza
    • Sarcasmo
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Alternativa A — ❌ Incorreta

Xingar os responsáveis pela situação em que se encontra a cidade.

O texto não menciona xingamento nem atribui culpa a alguém. A autora lamenta a situação, mas não agride ninguém. Erro: extrapolação — acrescenta uma ação (xingar) que não está no texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Qualificar positivamente a situação em que se encontra a cidade.

A situação descrita é negativa: apagões, prejuízos, caos. Não há qualificação positiva. Erro: contradiz o texto — inverte o valor da situação.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Causar dúvidas em relação à situação em que se encontra a cidade.

A expressão não gera dúvida; ela expressa uma avaliação irônica. O leitor entende perfeitamente que a situação é ruim. Erro: troca de conceito — confunde ironia com ambiguidade.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Ironizar a situação em que se encontra a cidade.

Como visto, a autora usa “peculiar” para ironizar o caos dos apagões. O contraste entre a palavra e o contexto prova a ironia. Correta — é a única que capta o efeito de sentido.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Alegrar-se com a situação em que se encontra a cidade.

O texto não expressa alegria; ao contrário, há tom de crítica e preocupação (“prepara”, “vendavais previstos”). Erro: contradiz o texto — inverte o sentimento da autora.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre o sentido literal de “peculiar” (incomum/especial) e o uso irônico no contexto. Quem lê superficialmente pode achar que “peculiar” é elogio (B) ou que gera dúvida (C).

PEGA ESSA DICA!

Ao encontrar uma palavra de sentido positivo em um contexto negativo, desconfie de ironia. Pergunte: “o autor realmente acha isso bom?” Se não, é ironia.

Conclusão: a expressão “situação peculiar” é irônica porque descreve um caos com um termo que sugere algo especial. A única alternativa que capta esse efeito é a D.

Gabarito: letra D

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