Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Sujeito — Instituto Consulplan 2024

PortuguêsSujeito
Código
qa594742
Banca
Instituto Consulplan
Órgão
Pref Espera Feliz
Ano
2024
Cargo
Fisc ( )

O primeiro livro de cada uma das minhas vidas

 

Perguntaram-me uma vez qual fora o primeiro livro de minha vida. Prefiro falar do primeiro livro de cada uma das minhas vidas. Busco na memória e tenho a sensação quase física nas mãos ao segurar aquela preciosidade: um livro fininho que contava a história do patinho feio e da lâmpada de Aladim. Eu lia e relia as duas histórias, criança não tem disso de só ler uma vez: criança quase aprende de cor e, mesmo quase sabendo de cor, relê com muito da excitação da primeira vez. A história do patinho que era feio no meio dos outros bonitos, mas quando cresceu revelou o mistério: ele não era pato e sim um belo cisne. Essa história me fez meditar muito, e identifiquei- me com o sofrimento do patinho feio – quem sabe se eu era um cisne?

 

Quanto a Aladim, soltava minha imaginação para as lonjuras do impossível a que eu era crédula: o impossível naquela época estava ao meu alcance. A ideia do gênio que dizia: pede de mim o que quiseres, sou teu servo – isso me fazia cair em devaneio. Quieta no meu canto, eu pensava se algum dia um gênio me diria: “Pede de mim o que quiseres”. Mas desde então revelava-se que sou daqueles que têm que usar os próprios recursos para terem o que querem, quando conseguem.

 

Tive várias vidas. Em outra de minhas vidas, o meu livro sagrado foi emprestado porque era muito caro: Reinações de Narizinho. Já contei o sacrifício de humilhações e perseveranças pelo qual passei, pois, já pronta para ler Monteiro Lobato, o livro grosso pertencia a uma menina cujo pai tinha uma livraria. A menina gorda e muito sardenta se vingara tornando-se sádica e, ao descobrir o que valeria para mim ler aquele livro, fez um jogo de “amanhã venha em casa que eu empresto”. Quando eu ia, com o coração literalmente batendo de alegria, ela me dizia: “Hoje não posso emprestar, venha amanhã”. Depois de cerca de um mês de venha amanhã, o que eu, embora altiva que era, recebia com humildade para que a menina não me cortasse de vez a esperança, a mãe daquele primeiro monstrinho de minha vida notou o que se passava e, um pouco horrorizada com a própria filha, deu-lhe ordens para que naquele mesmo momento me fosse emprestado o livro. Não o li de uma vez: li aos poucos, algumas páginas de cada vez para não gastar. Acho que foi o livro que me deu mais alegria naquela vida.

 

Em outra vida que tive, eu era sócia de uma biblioteca popular de aluguel. Sem guia, escolhia os livros pelo título. E eis que escolhi um dia um livro chamado O lobo da estepe, de Herman Hesse. O título me agradou, pensei tratar-se de um livro de aventuras tipo Jack London. O livro, que li cada vez mais deslumbrada, era de aventura sim, mas outras aventuras. E eu, que já escrevia pequenos contos, dos 13 aos 14 anos fui germinada por Herman Hesse e comecei a escrever um longo conto imitando-o: a viagem interior me fascinava. Eu havia entrado em contato com a grande literatura.

 

Em outra vida que tive, aos 15 anos, com o primeiro dinheiro ganho por trabalho meu, entrei altiva porque tinha dinheiro, numa livraria, que me pareceu o mundo onde eu gostaria de morar. Folheei quase todos os livros dos balcões, lia algumas linhas e passava para outro. E de repente, um dos livros que abri continha frases tão diferentes que fiquei lendo, presa, ali mesmo. Emocionada, eu pensava: mas esse livro sou eu! E, contendo um estremecimento de profunda emoção, comprei-o. Só então vim a saber que a autora não era anônima, sendo, ao contrário, considerada um dos melhores escritores de sua época: Katherine Mansfield.

 

(LISPECTOR, Clarice. O primeiro livro de

cada uma de minhas vidas. A descoberta do mundo, Rio de Janeiro: Rocco. 1999.)

Considere os verbos sublinhados no trecho “Prefiro falar do primeiro livro de cada uma das minhas vidas. Busco na memória e tenho a sensação quase física nas mãos ao segurar aquela preciosidade [...]” . É correto afirmar que eles partilham uma característica em comum, a saber:

  1. ASão verbos reflexivos.
  2. BSão verbos de ligação.
  3. CReferem-se a sujeito desinencial.
  4. DEstão conjugados no modo subjuntivo.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Referem-se a sujeito desinencial.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Verbos do trecho: sujeito desinencial

Gabarito: letra C. Os verbos "Prefiro", "Busco" e "tenho" partilham a característica de referir-se a sujeito desinencial (também chamado de sujeito oculto ou elíptico): o sujeito não está expresso, mas é facilmente identificável pela desinência verbal — todos estão na 1ª pessoa do singular (eu). A passagem que ancora essa leitura é o próprio trecho citado no enunciado, em que a autora narra em primeira pessoa, sem explicitar o pronome "eu" a cada verbo.

"Prefiro falar do primeiro livro de cada uma das minhas vidas. Busco na memória e tenho a sensação quase física nas mãos ao segurar aquela preciosidade [...]"

A desinência número-pessoal -o (Prefiro, Busco, tenho) indica a 1ª pessoa do singular, e o contexto — a narradora falando de si — confirma que o sujeito é "eu". Como o sujeito está implícito na terminação do verbo, temos o sujeito desinencial.

O comando da questão

O enunciado pede que se identifique uma característica comum aos verbos sublinhados. Não se trata de interpretação de texto, mas de análise morfossintática: precisamos classificar os verbos quanto à pessoa, ao modo e à voz. A banca testa se o candidato reconhece o sujeito desinencial — um dos tipos de sujeito mais cobrados em provas.

O texto e a resposta

O trecho é narrativo, em 1ª pessoa: Clarice Lispector fala de suas "vidas" de leitora. Os verbos "Prefiro", "Busco" e "tenho" estão todos no presente do indicativo, 1ª pessoa do singular. Não há pronome "eu" explícito antes deles, mas a desinência -o já carrega a informação de pessoa e número. Isso caracteriza o sujeito desinencial (ou oculto): ele não está escrito, mas é determinado pela terminação do verbo e pelo contexto.

A técnica que decide

Para identificar o sujeito desinencial, pergunte: quem pratica a ação? A resposta vem da desinência verbal. Em "Prefiro", "Busco", "tenho", a desinência -o indica "eu". Se o sujeito não está expresso, mas é recuperável pela flexão, temos sujeito desinencial. Cuidado para não confundir com sujeito indeterminado (que não pode ser identificado) ou com oração sem sujeito (verbo impessoal).

1Conceito
Não expresso na oração
Identificado pela desinência verbal
2Como identificar
Perguntar "quem?" antes do verbo
Resposta na terminação (-o = eu)
3Distinções
Não é sujeito indeterminado
Não é oração sem sujeito
Sujeito desinencial
LEVELsoulevel.com.br
Sujeito desinencial: Conceito (Não expresso na oração, Identificado pela desinência verbal); Como identificar (Perguntar "quem?" antes do verbo, Resposta na terminação (-o = eu)); Distinções (Não é sujeito indeterminado, Não é oração sem sujeito)

Alternativa A — ❌ Incorreta

São verbos reflexivos. Errado. Verbos reflexivos exigem pronome oblíquo (me, te, se) e indicam que o sujeito pratica e sofre a ação. "Prefiro", "Busco" e "tenho" não vêm acompanhados de pronome reflexivo; são verbos transitivos diretos (preferir algo, buscar algo, ter algo) ou intransitivos, mas não reflexivos. A banca tenta confundir com a ideia de "eu" implícito, mas reflexividade é outra coisa.

Alternativa B — ❌ Incorreta

São verbos de ligação. Errado. Verbos de ligação (ser, estar, permanecer, ficar, parecer) ligam o sujeito a um predicativo, não expressam ação. "Prefiro", "Busco" e "tenho" são verbos nocionais (de ação), com complemento verbal. "Tenho a sensação" — "sensação" é objeto direto, não predicativo. Portanto, não são de ligação.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Referem-se a sujeito desinencial. Correto. Os três verbos estão na 1ª pessoa do singular, com sujeito "eu" implícito na desinência. O contexto confirma: a autora fala de si. Não há pronome expresso, mas o sujeito é determinado pela flexão verbal. Isso é a definição exata de sujeito desinencial.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Estão conjugados no modo subjuntivo. Errado. Os verbos estão no presente do indicativo — modo que expressa certeza, fatos. O subjuntivo expressa dúvida, hipótese, desejo (ex.: "que eu prefira", "que eu busque", "que eu tenha"). As formas "Prefiro", "Busco", "tenho" são claramente do indicativo. A banca testa o reconhecimento dos modos verbais.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre sujeito desinencial e verbos reflexivos/pronominals, além de testar o reconhecimento do modo subjuntivo.

PEGA ESSA DICA!

Para identificar sujeito desinencial, pergunte "quem?" antes do verbo e veja se a resposta está na desinência. Desconfie de alternativas que citam "reflexivo" ou "subjuntivo" sem que haja pronome ou contexto de dúvida.

Gabarito: letra C.

Link permanente: /questoes/qa594742