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Questão de Português — Formação e Estrutura das Palavras — Instituto Consulplan 2024

PortuguêsFormação e Estrutura das Palavras
Código
qa594746
Banca
Instituto Consulplan
Órgão
Pref Espera Feliz
Ano
2024
Cargo
Fisc ( )

O primeiro livro de cada uma das minhas vidas

 

Perguntaram-me uma vez qual fora o primeiro livro de minha vida. Prefiro falar do primeiro livro de cada uma das minhas vidas. Busco na memória e tenho a sensação quase física nas mãos ao segurar aquela preciosidade: um livro fininho que contava a história do patinho feio e da lâmpada de Aladim. Eu lia e relia as duas histórias, criança não tem disso de só ler uma vez: criança quase aprende de cor e, mesmo quase sabendo de cor, relê com muito da excitação da primeira vez. A história do patinho que era feio no meio dos outros bonitos, mas quando cresceu revelou o mistério: ele não era pato e sim um belo cisne. Essa história me fez meditar muito, e identifiquei- me com o sofrimento do patinho feio – quem sabe se eu era um cisne?

 

Quanto a Aladim, soltava minha imaginação para as lonjuras do impossível a que eu era crédula: o impossível naquela época estava ao meu alcance. A ideia do gênio que dizia: pede de mim o que quiseres, sou teu servo – isso me fazia cair em devaneio. Quieta no meu canto, eu pensava se algum dia um gênio me diria: “Pede de mim o que quiseres”. Mas desde então revelava-se que sou daqueles que têm que usar os próprios recursos para terem o que querem, quando conseguem.

 

Tive várias vidas. Em outra de minhas vidas, o meu livro sagrado foi emprestado porque era muito caro: Reinações de Narizinho. Já contei o sacrifício de humilhações e perseveranças pelo qual passei, pois, já pronta para ler Monteiro Lobato, o livro grosso pertencia a uma menina cujo pai tinha uma livraria. A menina gorda e muito sardenta se vingara tornando-se sádica e, ao descobrir o que valeria para mim ler aquele livro, fez um jogo de “amanhã venha em casa que eu empresto”. Quando eu ia, com o coração literalmente batendo de alegria, ela me dizia: “Hoje não posso emprestar, venha amanhã”. Depois de cerca de um mês de venha amanhã, o que eu, embora altiva que era, recebia com humildade para que a menina não me cortasse de vez a esperança, a mãe daquele primeiro monstrinho de minha vida notou o que se passava e, um pouco horrorizada com a própria filha, deu-lhe ordens para que naquele mesmo momento me fosse emprestado o livro. Não o li de uma vez: li aos poucos, algumas páginas de cada vez para não gastar. Acho que foi o livro que me deu mais alegria naquela vida.

 

Em outra vida que tive, eu era sócia de uma biblioteca popular de aluguel. Sem guia, escolhia os livros pelo título. E eis que escolhi um dia um livro chamado O lobo da estepe, de Herman Hesse. O título me agradou, pensei tratar-se de um livro de aventuras tipo Jack London. O livro, que li cada vez mais deslumbrada, era de aventura sim, mas outras aventuras. E eu, que já escrevia pequenos contos, dos 13 aos 14 anos fui germinada por Herman Hesse e comecei a escrever um longo conto imitando-o: a viagem interior me fascinava. Eu havia entrado em contato com a grande literatura.

 

Em outra vida que tive, aos 15 anos, com o primeiro dinheiro ganho por trabalho meu, entrei altiva porque tinha dinheiro, numa livraria, que me pareceu o mundo onde eu gostaria de morar. Folheei quase todos os livros dos balcões, lia algumas linhas e passava para outro. E de repente, um dos livros que abri continha frases tão diferentes que fiquei lendo, presa, ali mesmo. Emocionada, eu pensava: mas esse livro sou eu! E, contendo um estremecimento de profunda emoção, comprei-o. Só então vim a saber que a autora não era anônima, sendo, ao contrário, considerada um dos melhores escritores de sua época: Katherine Mansfield.

 

(LISPECTOR, Clarice. O primeiro livro de

cada uma de minhas vidas. A descoberta do mundo, Rio de Janeiro: Rocco. 1999.)

Considere o termo sublinhado no trecho “Em outra vida que tive, aos 15 anos, com o primeiro dinheiro ganho por trabalho meu, entrei altiva porque tinha dinheiro, numa livraria, que me pareceu o mundo onde eu gostaria de morar.”.  É correto afirmar que sua formação se deu por um processo de derivação:

  1. ASufixal.
  2. BPrefixal.
  3. CRegressiva.
  4. DParassintética.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — Sufixal.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Derivação sufixal: a formação de "livraria"

Gabarito: letra A. O termo sublinhado no trecho é "livraria", e sua formação se deu por derivação sufixal: ao radical livr- (de livro) acrescentou-se o sufixo -aria, formando uma nova palavra. A prova está na própria estrutura do vocábulo: livr (radical) + -aria (sufixo), sem qualquer prefixo ou acréscimo simultâneo de afixos.

O comando da questão

O enunciado pede que você identifique o processo de formação da palavra sublinhada. Isso é uma questão de morfologia — mais especificamente, de processos de derivação. Não se trata de interpretar o texto, mas de analisar a estrutura interna da palavra. Para resolver, você precisa:

  1. Localizar a palavra sublinhada no trecho: "livraria".

  2. Decompor a palavra em seus morfemas: radical + afixos.

  3. Classificar o processo conforme o tipo de afixo (prefixo, sufixo, ambos, ou redução).

A palavra "livraria" e sua formação

"...entrei altiva porque tinha dinheiro, numa livraria, que me pareceu o mundo onde eu gostaria de morar."

A palavra "livraria" é formada por:

  • Radical: livr- (de livro)

  • Sufixo: -aria (que indica estabelecimento comercial, como em padaria, sapataria)

O acréscimo do sufixo -aria ao radical livr- caracteriza a derivação sufixal, pois há apenas um sufixo após o radical, sem prefixo. Esse é o processo mais comum de formação de novas palavras em português.

Por que as outras alternativas estão incorretas?

Alternativa B — ❌ Incorreta

Derivação prefixal ocorre quando se acrescenta um prefixo antes do radical, como em injusto (in- + justo) ou desleal (des- + leal). Em "livraria", não há prefixo algum — apenas o sufixo -aria. Portanto, a alternativa B está incorreta.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Derivação regressiva é a formação de um substantivo a partir de um verbo, pela redução da terminação verbal, como dançardança, pescarpesca. "Livraria" não vem de um verbo, mas de um substantivo (livro), e não há redução — há acréscimo de sufixo. Logo, a alternativa C está incorreta.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Derivação parassintética exige o acréscimo simultâneo de prefixo e sufixo ao radical, como em emagrecer (e- + magr- + -ecer) ou anoitecer (a- + noit- + -ecer). Em "livraria", há apenas sufixo, sem prefixo. Portanto, a alternativa D está incorreta.

Tabela comparativa dos processos de derivação

Processo

Definição

Exemplo

Sufixal

Acréscimo de sufixo após o radical

livrolivraria

Prefixal

Acréscimo de prefixo antes do radical

justoinjusto

Regressiva

Redução da terminação verbal para formar substantivo

dançardança

Parassintética

Acréscimo simultâneo de prefixo e sufixo

magroemagrecer

NÃO CAIA NESSA!

A banca pode tentar confundir você com a derivação regressiva, mas lembre-se: ela só ocorre quando a palavra nova vem de um verbo e há redução (ex.: pescarpesca). Em "livraria", há acréscimo de sufixo a um substantivo — é sufixal.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar o processo de formação, decomponha a palavra em radical e afixos. Pergunte: há prefixo? Há sufixo? Os dois foram acrescentados juntos? A palavra veio de um verbo? Isso resolve a questão rapidamente.

Conclusão

A palavra "livraria" é formada por derivação sufixal, pois o sufixo -aria foi acrescentado ao radical livr-. As demais alternativas descrevem processos que não se aplicam a essa palavra. Portanto, a resposta correta é a letra A.

Gabarito: letra A

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