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Questão de Português — Orações Subordinadas Adjetivas — Instituto Consulplan 2024

PortuguêsOrações Subordinadas Adjetivas
Código
qa594748
Banca
Instituto Consulplan
Órgão
Pref Espera Feliz
Ano
2024
Cargo
Fisc ( )

O primeiro livro de cada uma das minhas vidas

 

Perguntaram-me uma vez qual fora o primeiro livro de minha vida. Prefiro falar do primeiro livro de cada uma das minhas vidas. Busco na memória e tenho a sensação quase física nas mãos ao segurar aquela preciosidade: um livro fininho que contava a história do patinho feio e da lâmpada de Aladim. Eu lia e relia as duas histórias, criança não tem disso de só ler uma vez: criança quase aprende de cor e, mesmo quase sabendo de cor, relê com muito da excitação da primeira vez. A história do patinho que era feio no meio dos outros bonitos, mas quando cresceu revelou o mistério: ele não era pato e sim um belo cisne. Essa história me fez meditar muito, e identifiquei- me com o sofrimento do patinho feio – quem sabe se eu era um cisne?

 

Quanto a Aladim, soltava minha imaginação para as lonjuras do impossível a que eu era crédula: o impossível naquela época estava ao meu alcance. A ideia do gênio que dizia: pede de mim o que quiseres, sou teu servo – isso me fazia cair em devaneio. Quieta no meu canto, eu pensava se algum dia um gênio me diria: “Pede de mim o que quiseres”. Mas desde então revelava-se que sou daqueles que têm que usar os próprios recursos para terem o que querem, quando conseguem.

 

Tive várias vidas. Em outra de minhas vidas, o meu livro sagrado foi emprestado porque era muito caro: Reinações de Narizinho. Já contei o sacrifício de humilhações e perseveranças pelo qual passei, pois, já pronta para ler Monteiro Lobato, o livro grosso pertencia a uma menina cujo pai tinha uma livraria. A menina gorda e muito sardenta se vingara tornando-se sádica e, ao descobrir o que valeria para mim ler aquele livro, fez um jogo de “amanhã venha em casa que eu empresto”. Quando eu ia, com o coração literalmente batendo de alegria, ela me dizia: “Hoje não posso emprestar, venha amanhã”. Depois de cerca de um mês de venha amanhã, o que eu, embora altiva que era, recebia com humildade para que a menina não me cortasse de vez a esperança, a mãe daquele primeiro monstrinho de minha vida notou o que se passava e, um pouco horrorizada com a própria filha, deu-lhe ordens para que naquele mesmo momento me fosse emprestado o livro. Não o li de uma vez: li aos poucos, algumas páginas de cada vez para não gastar. Acho que foi o livro que me deu mais alegria naquela vida.

 

Em outra vida que tive, eu era sócia de uma biblioteca popular de aluguel. Sem guia, escolhia os livros pelo título. E eis que escolhi um dia um livro chamado O lobo da estepe, de Herman Hesse. O título me agradou, pensei tratar-se de um livro de aventuras tipo Jack London. O livro, que li cada vez mais deslumbrada, era de aventura sim, mas outras aventuras. E eu, que já escrevia pequenos contos, dos 13 aos 14 anos fui germinada por Herman Hesse e comecei a escrever um longo conto imitando-o: a viagem interior me fascinava. Eu havia entrado em contato com a grande literatura.

 

Em outra vida que tive, aos 15 anos, com o primeiro dinheiro ganho por trabalho meu, entrei altiva porque tinha dinheiro, numa livraria, que me pareceu o mundo onde eu gostaria de morar. Folheei quase todos os livros dos balcões, lia algumas linhas e passava para outro. E de repente, um dos livros que abri continha frases tão diferentes que fiquei lendo, presa, ali mesmo. Emocionada, eu pensava: mas esse livro sou eu! E, contendo um estremecimento de profunda emoção, comprei-o. Só então vim a saber que a autora não era anônima, sendo, ao contrário, considerada um dos melhores escritores de sua época: Katherine Mansfield.

 

(LISPECTOR, Clarice. O primeiro livro de

cada uma de minhas vidas. A descoberta do mundo, Rio de Janeiro: Rocco. 1999.)

Considere a disposição das vírgulas no trecho “O livro, que li cada vez mais deslumbrada, era de aventura sim, mas outras aventuras.". É correto afirmar que as vírgulas aqui se deram para separar, respectivamente, uma oração

  1. Aadverbial causal e uma conjunção aditiva.
  2. Badjetiva explicativa e uma conjunção adversativa.
  3. Csubstantiva apositiva e uma conjunção alternativa.
  4. Dadverbial consecutiva e uma conjunção conclusiva.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — adjetiva explicativa e uma conjunção adversativa.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Análise sintática e pontuação no trecho de Clarice Lispector

Gabarito: letra B. As vírgulas em “O livro, que li cada vez mais deslumbrada, era de aventura sim, mas outras aventuras” isolam, respectivamente, uma oração subordinada adjetiva explicativa e antecedem uma conjunção coordenativa adversativa (“mas”). A primeira vírgula abre a oração adjetiva explicativa “que li cada vez mais deslumbrada”, que acrescenta uma informação sobre “o livro” sem restringi-lo; a segunda fecha essa oração; a terceira, antes de “mas”, marca a oposição entre “era de aventura sim” e “outras aventuras”.

O comando da questão

O enunciado pede que você identifique o que as vírgulas separam no trecho. Isso é uma questão de análise sintática e de pontuação: você precisa reconhecer a função da oração introduzida por “que” e o valor da conjunção “mas”. Não é uma questão de interpretação de sentido global do texto, mas de classificação gramatical de um trecho específico.

O trecho em análise

“O livro, que li cada vez mais deslumbrada, era de aventura sim, mas outras aventuras.”

Vamos decompor:

  • “O livro” – sujeito da oração principal.

  • “que li cada vez mais deslumbrada” – oração subordinada adjetiva, pois é introduzida pelo pronome relativo “que” e se refere ao substantivo “livro”. Ela é explicativa porque está entre vírgulas e acrescenta uma informação que não restringe o sentido de “livro” – o leitor já sabe qual livro é (o de Hesse). Se fosse restritiva, não haveria vírgulas e o sentido seria “o livro que li deslumbrada” (e não outro).

  • “era de aventura sim” – oração principal (coordenada assindética em relação à seguinte).

  • “mas outras aventuras” – oração coordenada sindética adversativa, pois “mas” expressa oposição/contraste: o livro era de aventura, porém de um tipo diferente do esperado.

A técnica para resolver

  1. Identifique o conectivo “que”: se for pronome relativo (retoma um substantivo anterior), a oração é adjetiva. Aqui, “que” retoma “livro”.

  2. Veja se há vírgulas: oração adjetiva explicativa vem entre vírgulas; a restritiva não.

  3. Classifique a conjunção “mas”: é a conjunção coordenativa adversativa por excelência, indicando oposição.

Análise das alternativas

1Explicativa
Entre vírgulas
Acrescenta informação
2Restritiva
Sem vírgulas
Restringe o sentido
3Conjunção "mas"
Coordenativa adversativa
Indica oposição
Oração subordinada adjetiva
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Oração subordinada adjetiva: Explicativa (Entre vírgulas, Acrescenta informação); Restritiva (Sem vírgulas, Restringe o sentido); Conjunção "mas" (Coordenativa adversativa, Indica oposição)

Alternativa A — ❌ Incorreta

A oração “que li cada vez mais deslumbrada” não é adverbial causal: não expressa causa (“porque li deslumbrada”), mas sim uma característica do livro. Além disso, “mas” não é conjunção aditiva (aditiva seria “e”). A banca troca os termos para confundir.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Exatamente o que analisamos: oração subordinada adjetiva explicativa (isolada por vírgulas) e conjunção coordenativa adversativa (“mas”). A passagem do texto confirma:

“O livro, que li cada vez mais deslumbrada, era de aventura sim, mas outras aventuras.”

A oração “que li cada vez mais deslumbrada” está entre vírgulas e explica algo sobre o livro; “mas” opõe “aventura sim” a “outras aventuras”.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A oração não é substantiva apositiva: não está substituindo um aposto (não equivale a “isto”, por exemplo). E “mas” não é conjunção alternativa (alternativa seria “ou”). Outra troca de conceitos.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A oração não é adverbial consecutiva (não expressa consequência, como “tanto que”). E “mas” não é conjunção conclusiva (conclusiva seria “portanto”). A banca mistura valores semânticos.

Pegadinha da banca

NÃO CAIA NESSA!

A banca oferece alternativas que misturam tipos de orações subordinadas (adverbiais, substantivas) e valores de conjunções (aditiva, alternativa, conclusiva) para testar se você sabe distinguir a oração adjetiva explicativa e a conjunção adversativa. O “que” relativo e o “mas” de oposição são os pontos-chave.

Conclusão

A resposta é a letra B. Lembre-se: oração adjetiva explicativa = entre vírgulas, acrescenta informação; conjunção “mas” = adversativa, indica oposição. Esse é o padrão que a banca cobra.

Gabarito: letra B

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