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Questão de Português — Crase — Instituto Consulplan 2024

PortuguêsCrase
Código
qa594998
Banca
Instituto Consulplan
Órgão
Pref SM Jetibá
Ano
2024
Cargo
Aux Cui ( )

Insônia infeliz e feliz

 

De repente os olhos bem abertos. E a escuridão toda escura. Deve ser noite alta. Acendo a luz da cabeceira e para o meu desespero são duas horas da noite. E a cabeça clara e lúcida. Ainda arranjarei alguém igual a quem eu possa telefonar às duas da noite e que não me maldiga. Quem? Quem sofre de insônia? E as horas não passam. Saio da cama, tomo café. E ainda por cima com um desses horríveis substitutos do açúcar porque Dr. José Carlos Cabral de Almeida, dietista, acha que preciso perder os quatro quilos que aumentei com a superalimentação depois do incêndio. E o que se passa na luz acesa da sala? Pensa-se uma escuridão clara. Não, não se pensa. Sente-se. Sente-se uma coisa que só tem um nome: solidão. Ler? Jamais. Escrever? Jamais. Passa-se um tempo, olha-se o relógio, quem sabe são cinco horas. Nem quatro chegaram. Quem estará acordado agora? E nem posso pedir que me telefonem no meio da noite, pois posso estar dormindo e não perdoar. Tomar uma pílula para dormir? Mas e o vício que nos espreita? Ninguém me perdoaria o vício. Então fico sentada na sala, sentindo. Sentindo o quê? O nada. E o telefone à mão.

 

Mas quantas vezes a insônia é um dom. De repente acordar no meio da noite e ter essa coisa rara: solidão. Quase nenhum ruído. Só o das ondas do mar batendo na praia. E tomo café com gosto, toda sozinha no mundo. Ninguém me interrompe o nada. É um nada a um tempo vazio e rico. E o telefone mudo, sem aquele toque súbito que sobressalta. Depois vai amanhecendo. As nuvens se clareando sob um sol às vezes pálido como uma lua, às vezes de fogo puro. Vou ao terraço e sou talvez a primeira do dia a ver a espuma branca do mar. O mar é meu, o sol é meu, a terra é minha. E sinto-me feliz por nada, por tudo. Até que, como o sol subindo, a casa vai acordando e há o reencontro com meus filhos sonolentos.

 

(Clarice Lispector. A descoberta do mundo. 1999.)

No trecho “[...] eu possa telefonar às duas da noite [...]”, há o emprego do fenômeno linguístico conhecido como crase.

 

Assinale, a seguir, a alternativa em que a crase está INDEVIDAMENTE inserida.

  1. ASaímos à tarde.
  2. BTemos horário às 16 horas.
  3. CNão preciso dar satisfações à ele.
  4. DVamos à loja para comprar roupas.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Não preciso dar satisfações à ele.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Crase: quando o acento grave é proibido

Gabarito: letra C. A alternativa C é a incorreta — e, como o enunciado pede a que está INDEVIDAMENTE inserida, ela é o gabarito. Em “Não preciso dar satisfações à ele”, a crase é proibida, pois “ele” é pronome pessoal do caso reto, que não admite artigo feminino “a”. A regra é clara: não há crase antes de pronome pessoal do caso reto (eu, tu, ele, nós, vós, eles). As demais alternativas apresentam casos de crase obrigatória.

O comando

A questão pede a alternativa em que a crase está INDEVIDAMENTE inserida, ou seja, a que viola a norma culta. Isso muda a resolução: não basta identificar onde há crase; é preciso achar o erro. A técnica é testar cada caso com a pergunta: “há preposição ‘a’ + artigo feminino ‘a’?” Se faltar o artigo (ou se a palavra não admitir artigo), a crase é proibida.

O texto-base

O trecho do texto de Clarice Lispector — “eu possa telefonar às duas da noite” — é apenas o ponto de partida para a questão de crase. Nele, a crase é obrigatória: o verbo “telefonar” exige a preposição “a” (quem telefona, telefona a alguém) e “duas da noite” é uma locução adverbial de tempo feminina, que pede o artigo “as”. A fusão “a + as = às” é correta. O texto não interfere na análise das alternativas; a questão é puramente gramatical.

A regra que decide

A crase é a fusão da preposição “a” com o artigo feminino “a” (ou com o “a” inicial de pronomes demonstrativos como “aquele”, “aquela”, “aquilo”, ou com o “a” do pronome relativo “a qual”). Para haver crase, é preciso que o termo seguinte admita o artigo feminino. Se o termo for masculino, verbo, pronome pessoal do caso reto (eu, tu, ele, nós, vós, eles), pronome de tratamento (exceto senhora, senhorita, madame, dona), ou se estiver em sentido genérico, a crase é proibida.

No caso da alternativa C, “ele” é pronome pessoal do caso reto, masculino, e não admite artigo feminino. Portanto, não há crase. O correto seria: “Não preciso dar satisfações a ele”.

Análise das alternativas

Crase (fusão a + a)
  • 1Obrigatória
    • Locução adverbial de tempo (à tarde, às 16h)
    • Verbo que exige "a" + palavra feminina (ir à loja)
  • 2Proibida
    • Antes de pronome pessoal do caso reto (a ele)
    • Antes de palavra masculina
    • Antes de verbo
    • Antes de pronome de tratamento
      • exceto senhora, senhorita, madame, dona
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Alternativa A — ✅ Correta

“Saímos à tarde.” — A crase é obrigatória, pois “à tarde” é uma locução adverbial de tempo feminina. A preposição “a” (exigida pela ideia de tempo) funde-se com o artigo “a” que antecede “tarde”. O mesmo ocorre com “à noite”, “à tarde”, “às vezes”, “às pressas”. Portanto, a crase está corretamente empregada.

Alternativa B — ✅ Correta

“Temos horário às 16 horas.” — A crase é obrigatória, pois “16 horas” é uma locução adverbial de tempo feminina. A preposição “a” (indicando tempo) funde-se com o artigo “as” que antecede “16 horas”. O mesmo ocorre em “às duas da noite”, como no texto-base. Portanto, a crase está corretamente empregada.

Alternativa C — ❌ Incorreta ⟵ GABARITO

“Não preciso dar satisfações à ele.” — A crase é proibida, pois “ele” é pronome pessoal do caso reto, que não admite artigo feminino. Não há fusão de preposição com artigo, pois não há artigo. O correto seria “a ele”. Portanto, a crase está indevidamente inserida.

Alternativa D — ✅ Correta

“Vamos à loja para comprar roupas.” — A crase é obrigatória, pois o verbo “ir” exige a preposição “a” (quem vai, vai a algum lugar) e “loja” é substantivo feminino que admite o artigo “a”. A fusão “a + a = à” é correta. Portanto, a crase está corretamente empregada.

Conclusão

A única alternativa em que a crase está indevidamente inserida é a letra C, pois “ele” é pronome pessoal do caso reto, que não admite artigo feminino. As demais apresentam casos de crase obrigatória (locuções adverbiais de tempo e adjunto adverbial de lugar).

PEGA ESSA DICA!

Para resolver questões de crase, pergunte sempre: “o termo seguinte admite artigo feminino?” Se sim, e houver preposição “a”, há crase. Se não, a crase é proibida. Memorize os casos proibidos: antes de masculino, verbo, pronome pessoal do caso reto, pronome de tratamento (exceto senhora, senhorita, madame, dona) e palavras em sentido genérico.

Gabarito: letra C

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